quinta-feira, dezembro 14, 2017

Adoração: preparação para a vinda de Cristo

Por Cardeal Newman, “Sermões para o Advento e o Natal”, trad. Fabio Vitta, p. 49-59.

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“Teus olhos verão o Rei no seu esplendor, 
e contemplarão uma terra distante.” 
(Is 23, 17)

Os anos, à medida que passam, trazem, repetidamente, as mesmas advertências, e nenhuma talvez mais impressionante do que as vem vêm a nós nesta estação. A geada e o frio, a chuva e a penumbra, que agora ocorrem, antecipam os últimos dias tristes do mundo, e nos corações religiosos elevam seus pensamentos. O ano está desgastado: primavera, verão, outono, cada um por sua vez, trouxe seus dons e fez o seu melhor. Mas acabou, e o fim chegou. Tudo é passado e ido, tudo falhou, tudo foi saciado. Estamos cansados do passado; não teríamos mais estas estações. O clima austero que se segue, embora ingrato ao corpo, está de acordo com nossos sentimentos, e é aceitável. Tal é o estado de espírito que cabe ao final do ano. Tal é o estado de espírito que vem tanto para o bom como para o mau no fim da vida. Vieram os dias melancólicos. Contudo, dificilmente eles gostariam de ser jovens novamente se assim pudessem. A vida está boa em seu curso, mas não satisfaz. Assim, a alma é lançada sobre o futuro, e na proporção em que sua consciência é clara e sua percepção aguda e verdadeira, ela se alegra solenemente pois “a noite vai adiantada, e o dia vem chegando”, que há “um novo céu e uma nova terra”[1] chegando, embora a noite vá se acabando. Aliás, por estar acabando, veremos “logo o Rei em Seu esplendor”, e “contemplaremos a terra distante”. Estes são os sentimentos para homens santos durante o inverno e na velhice, esperando, com algum abatimento talvez, mas com ânimo, com calma e fervor, o Advento de Cristo.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

A humilde serva, a Rainha

Por D. Ildefonso Rodriguez Villar, “Virtudes de Nossa Senhora – Meditações”, p. 106-110.

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1. O verdadeiro conhecimento. Como a humildade é a verdade, e funda-se na verdade, e é fonte da verdade, é ela a que nos dá o verdadeiro e exato conhecimento de nós mesmos. Vê quão bem se conhecia a Santíssima Virgem a si mesma. Ninguém tinha recebido de Deus mais graças e privilégios extraordinários do que Ela. Imaculada na Sua Conceição, cheia de graça, por isso mesmo, desde o seu primeiro instante mais santa que todos os santos e santas juntos. Rainha do Céu e corredentora dos homens, bendita entre todas as mulheres, enfim com o título único que tudo resumia: Mãe de Deus.
Assim se via Maria, assim conhecia a Si mesma. Não obstante, vê como Ela é sempre humilde! Sabia que tudo isto estava n’Ela, porém nada era dela; tudo era de Deus, tudo era porque se tinha dignado o Senhor olhar para a sua escravazinha, com olhos de misericórdia, como o cantou no seu Magnificat; tudo atribuía a Deus.
Tinha uma consciência perfeita do seu nada, e assim se considerava diante de Deus, como o mesmo nada, como a última das suas criaturas, como a mais indigna das escravas que O servem. Assim adorava Ela a Deus, assim se aniquilava na sua presença, assim se submetia em tudo e sempre à sua divina vontade, assim estava toda a vida recebendo e praticando a sua fórmula sublime de humildade.
O programa da vida do verdadeiro humilde: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. E como tinha este conhecimento profundo de si mesma, e operava sempre com este conhecimento e persuasão do seu nada, assim aparecia também perante os outros. É Rainha dos Anjos, porém, não o mostra. Com que reverência os trata! Vê neles os servos fiéis de Deus, os seus emissários e embaixadores, e por isso se humilha diante d’Eles. Desgosta-se e perturba-se ao ver-se reverenciada e louvada por eles.

quinta-feira, novembro 30, 2017

Apostolado: transbordamento da vida interior

Por Dom J.B. Chautard, “A alma de todo apostolado”.

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 Sede perfeitos como perfeito é vosso Pai celestial (Mt 5,48). Guardadas todas as devidas proporções, o modo como Deus opera deve ser o critério, a regra da nossa vida interior e exterior.
  Ora, já sabemos que Deus é naturalmente generoso, e a experiência nos mostra o quão abundantemente ele espalha os seus benefícios sobre todos os seres, e mais especialmente sobre a criatura humana. Assim, há milhões de séculos, o universo inteiro é objeto dessa inesgotável prodigalidade que dá incessantemente seus benefícios. Entretanto, nem por isso Deus fica mais pobre, essa generosidade inesgotável de forma alguma diminui os seus infinitos recursos.
  Ao homem, Deus faz mais do que conceder-lhe bens exteriores: envia-lhe o seu Verbo. Mas ainda aqui, neste ato de suprema generosidade, que outra coisa não é senão o dom de si mesmo, Deus nada abandona, nada pode abandonar da integridade da sua natureza. Dando-nos o seu Filho, sempre o conserva em si mesmo. “Tomai como exemplo o ilustre soberano de todas as coisas, que ao mesmo tempo envia o seu Verbo e o retém com ele.”[1]
Por meio dos Sacramentos, e especialmente por meio da Eucaristia, Jesus Cristo vem enriquecer-nos com as suas graças. Sobre nós as derrama sem peso nem medida, porque ele também é um oceano sem limites, cujo extravasamento escorre sobre nós, sem que jamais possa exauri-lo: Todos nós participamos de sua plenitude (Jo 1,16).

sexta-feira, novembro 24, 2017

quinta-feira, novembro 23, 2017

Os reis magos realmente existiram?

Por Margarida Hulshof, “Conversando sobre a Bíblia”, p. 234-237.

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Os evangelhos não foram escritos com a inten­ção de apresentar uma biografia de Jesus no sentido moderno, mas sim, para dar a conhecer a pessoa de Jesus e sua missão, o lugar essencial e preciso que o Filho de Deus ocupa na história de nossa salvação.
Para Mateus, que se dirigia especialmente a judeus seguidores de Jesus, era importante mostrar a ligação entre a Nova Aliança e a Antiga, mostrar que em Jesus se cumpriam, de fato, as pro­fecias messiânicas do Antigo Testamento, que ele era a conti­nuidade lógica da história de salvação iniciada com Abraão. Era preciso que seus leitores pudessem enxergar que todos os acon­tecimentos da antiguidade tinham sido uma preparação para o advento de Jesus, que inaugurava um novo tempo e uma nova lei, em substituição à antiga.
Em toda a Bíblia está presente essa intenção primordial de ensinar a ouvir a voz de Deus nos acontecimentos e discer­nir seu significado religioso, mais do que simplesmente relatar fatos. Por isso, os hebreus desenvolveram um gênero literário especialmente propício a isso, chamado midraxe. O midraxe é um relato de fundo histórico, mas que pode ser “enriquecido” com traços fictícios, comentários interpretativos e associações com outros fatos bíblicos, a fim de tornar mais clara a mensa­gem que o autor deseja apresentar. É uma espécie de comentário teológico sobre os fatos, a fim de que se tornem um instrumento catequético. Dentro da maneira de pensar dos judeus antigos, tal recurso literário era lícito e válido, não era visto como “engana­ção” ou falsificação, como alguns tendem a concluir ao avaliar, anacronicamente, a cultura antiga pelos padrões de hoje. Se os teólogos veem com clareza essa questão, demonstram às vezes falta de cuidado na hora de explicá-la aos fiéis.
O Evangelho de Mateus procura apresentar Jesus como o novo Moisés, o novo libertador e legislador que leva à plenitude a antiga Lei, e forma o novo povo de Deus, que é a Igreja. Para enfatizar esse paralelo com Moisés, Mateus interpreta os fatos da infância de Jesus de forma a evidenciar sua relação com as tradições antigas. Assim, Jesus vai ao Egito e de lá regressa, uma vez afastados os seus perseguidores, num paralelo entre Mt 2, 19-21 e Ex 4, 19s.
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