terça-feira, agosto 23, 2016

segunda-feira, agosto 22, 2016

Virtudes ou miragens

Por Pe. Francisco Faus, “A conquista das virtudes”, p. 13-17.


Aparências de virtude

Antes de falarmos do que é a virtude, vamos falar um pouco do que “não é”.
A definição mais simples – embora perigosa – de virtude é “hábito bom”, ou seja, uma qualidade que a pessoa tem e que se manifesta em certas atitudes e reações habituais, em determinadas condutas contínuas. Há, por exemplo, pessoas que têm uma amabilidade habitual, outras que geralmente estão de bom humor, outras que sempre cumprem os horários, outras que não descuidam a ordem material, outras que nunca irritam os demais...
Todas essas coisas, você acha que são virtudes? Podem ser, todas elas, mas nem sempre. Mais ainda, como veremos a seguir, podem ser pseudovirtudes que enganam, como as miragens no deserto, que aparecem à imaginação dos que morrem de sede como se fossem lagos azuis.
Há vários critérios, muitos deles dados por Cristo, para desmascarar as falsas virtudes. Veremos a seguir alguns deles.
Mas acho bom preveni-lo: com isso, não queremos convidar ninguém a pensar nos defeitos dos outros! Basta que identifiquemos os nossos.
Para melhor desmascarar as miragens, façamos uma classificação.

Tipos de miragens

1)     As “virtudes” vaidosas

Nosso Senhor fala explicitamente delas. Já no início da sua pregação, no Sermão da Montanha, nos alerta: Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu (cf. Mt 6, 1). Quer dizer que, aos olhos de Deus, não têm valor as virtudes contaminadas pela vaidade.
Para serdes vistos! Esse para diz tudo: fala das virtudes praticadas com uma finalidade vaidosa, que pode ser dupla.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Um estudo dos caracteres

Apêndice do “Compêndio de Teologia Ascética e Mística” 
Adolphe Tanquerey, p. 774-780.


Estudo dos caracteres[1]

Falando do conhecimento próprio, dissemos que é útil, para melhor nos conhecermos, estudar os temperamentos e caracteres.
Muitas vezes confundem-se estes dois termos. Quando, porém, se distinguem, pode-se dizer que o temperamento é o complexo das tendências profundas que derivam da constituição fisiológica dos indivíduos; e que o caráter é o conjunto das disposições psicológicas que resultam do temperamento, enquanto modificado pela educação e os esforços da vontade e fixado pelo hábito.
É, pois, mais útil estudar os caracteres que os temperamentos; porquanto o que importa, sob o aspecto espiritual, é muito menos o temperamento do corpo que o caráter da alma. Os Antigos tinham aliás compreendido isto perfeitamente, visto que, ao descreverem os temperamentos, se atinham mais a notar as diferenças psicológicas que as fisiológicas.
Limitar-nos-emos a resumir o sistema de Heymans elaborado por J. Doncel, S. J. (Nouv. Revue Théologique, t. 65, pág 703-727 e 831-854).

O sistema caracteriológico mais antigo é o sistema grego dos quatro caracteres, sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico.
Não obstante a discutibilidade da sua base fisiológica, é ainda o seguido pela maioria dos educadores e tem elementos de valor.
No séc. XIX, alguns psicólogos franceses tentaram uma nova construção, mais completa, mas que ruiu por falta de bases sólidas nos fatos.
Com o século presente aparecem os grandes sistemas caracteriológicos alemães, uns fundados sobre a biologia, como a de Kretschmer, que relaciona a estrutura do corpo e o caráter, ou o de Jaensch, que considera sobretudo a interpretação mútua das diferentes funções psíquicas; outros de índole mais filosófica, fundados num certo modo de encarar o mundo (Weltanschauung), como o de Spranger, que classifica os homens segundo os seus interesses culturais, e o de Klages inspirado nas ideias de Nietzsche.
O sistema que vamos esboçar de Heymans completando e pormenorizando com muita simplicidade o venerável sistema grego, parece preferível aos franceses, porque tem a base dos fatos, e aos alemães, porque tem o seu rigor científico: — é maleável e prático.
É a caracteriologia do senso comum. O seu autor, professor na Universidade de Groning, morreu em 1930 deixando-nos um sistema ainda não perfeitamente acabado, já notavelmente esboçado.

Material empírico

quarta-feira, agosto 17, 2016

sexta-feira, agosto 12, 2016

O jardim em frente

Por Carlos Drummond de Andrade

Os big shots da empresa estavam reunidos em conferência. Assunto importante, desses que exigem atenção, objetividade. O presidente recomendara:

- Não estamos para ninguém. Esta porta fica trancada. Avisem à telefonista que não atenda nenhum chamado. Nem do Papa.
Começou-se por dividir o assunto em partes, como quem divide um leitão. Cada parte era examinada pelo direito e pelo avesso, avaliada, esquadrinhada, radiografada. Cartesianamente.


- Você aí, quer fazer o favor de parar com essa caricatura? - O presidente não admitia alienação. Por sua vez, foi advertido pelo vice:
- E você, meu caro, podia deixar de bater com esse lápis, toc, toc, toc, na mesa?
Estavam tensos, à véspera de uma decisão que envolveria grandes interesses. Alguém bateu à porta.
- Não respeitam! Não respeitam o trabalho da gente! Isso não é país!
- Seja ou não seja país, quando batem à porta a solução é abrir, para evitar novas batidas, ou, mesmo, que a porta venha abaixo. Pois ninguém deixa de bater, e sabe que tem gente do outro lado.
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