segunda-feira, setembro 26, 2016

sexta-feira, setembro 23, 2016

Onde um gato é um gato

Gustavo Corção, “A descoberta do outro”, p. 54-59.


Este capítulo dá uma ideia da insanidade a que chegamos num mundo de ilusionismo e prestígio. Se um indivíduo anunciasse que ia fazer uma série de conferências, com documentações e projeções, para demonstrar como achara o endereço de sua própria casa ou recuperara a lembrança do nome de sua mãe, é pouco provável que tivesse sala. No contrário talvez achassem algum encanto; seria considerada interessante a narração acidentada do extravio e das curiosas consequências da desmemorização. Os romances que giram em torno da vida fracassada têm esse atrativo que ninguém mais encontra no Romance da vida recuperada.
A prestidigitação também se baseia no mesmo fenômeno. O teatro se enche para ver o mágico tirar ovos dos narizes porque todo o mundo sabe pertinazmente que um ovo é maior que uma fossa nasal. A ciência e a técnica são outras tantas prestidigitações, e é nesse sabor equívoco de mentira e trapaça que as plateias se deliciam quando o físico escamoteia um piano inteiro e apresenta em seu lugar um enxame de elétrons ou um sistema de equações diferenciais. Todos sorriem com alta finura diante de tal comunicado, justamente porque sabem que piano é piano.
Ora, este capítulo encerra uma história simples dentro da qual um gato é um gato. À primeira vista isto parece um dado imediato do senso comum, e de fato o é; mas no meu caso foi uma recuperação, um encontro com o nome das coisas, através dos filandrosos meandros do critério científico. Como foi um pouco súbito, poderei ser acusado de estar fazendo também a minha mágica. Num certo sentido foi mágica: no sentido que tinham as coisas na primeira infância, quando tudo era mágica. Mas minha prestidigitação consistirá em buscar os ovos debaixo da galinha.

segunda-feira, setembro 19, 2016

A dificuldade de ser simples

Raul Plus, “Simplicidade”, p. 64-70.


A simplicidade, em qualquer sentido, não é fácil para ninguém. Padre Faber identifica-a, na sua acepção mais compreensível, com a sinceridade cristã, e a faz consistir em três coisas: verdade para com nós próprios, verdade para com os outros, verdade para com Deus. E observa: “Cada uma destas três coisas é mais rara do que o cisne negro da Austrália”. 
A simplicidade é difícil por três razões, além de outras: primeira, porque originariamente somos dualidade; segunda, porque o mundo em que a nossa vida se passa é artificial e complicado; terceira, porque a educação espiritual, muitas vezes acanhada, leva mais ao atrofiamento do que à expansão.
Por natureza, somos compostos de corpo e alma, de matéria e espírito. Nascidos da mistura, temos grande dificuldade em sair dela; mais facilmente somos duplos do que simples; ao lado de tendências elevadas, temos aspirações banais. O anjo é, por natureza, puro espírito; nós somos espírito mergulhado em muita coisa que não é espírito. Podíamos converter-nos em anjos, mas nota-se que não convém fazê-lo indevidamente nem continuamente. Aliás, à falta de alguém que de fora nos informe, qualquer coisa dentro de nós nos avisa que “o animal” não está longe, como diz Pascal. Não dizemos “o animal” no sentido usado por Taine, o gorila feroz ou lúbrico, mas simplesmente o desejo animal, as inclinações egoístas, o egocentrismo, tudo o que é contrário às aspirações dos serafins e dos arcanjos.

quinta-feira, setembro 15, 2016

Jesus Cristo, verdadeiro Deus, verdadeiro Homem

Karl Adam, “Jesus Cristo”, p. 7-31.



            No esboço de Demônios, Dostoievski faz seu herói dizer a propósito da fé: “Ela se re­duz, no fundo, a esta pergunta angustiosa: um ho­mem culto, um europeu dos nossos dias, pode ain­da crer, pode acreditar na divindade de Jesus Cris­to, Filho de Deus? — Porque, em suma, toda a fé está nisso”.
            Assim, para Dostoievski, a fé se reduz à fé na divindade do Cristo, e o problema que hoje nos angustia consiste em indagar se o homem do sé­culo XX pode ainda ter essa fé.
            (...) O mistério do Cristo, com efeito, não consiste, pro­priamente falando, em ser ele Deus, mas em ser, ao mesmo tempo, Deus e homem. O prodígio in­audito e incrível não está somente no fato de res­plandecer na face do Cristo a majestade de Deus, mas que um Deus seja, ao mesmo tempo, um homem; que um Deus se tenha mostrado sob a for­ma de um homem.
            Na mensagem cristã, não se trata somente da ele­vação da criatura até o nível de Deus, de uma glorificação, de uma divinização da natureza hu­mana; trata-se, antes de tudo, de uma descida de Deus, do Verbo divino, até à forma de escravo, fa­zendo-se pura e simplesmente homem.
            Tal é a substância da mais autêntica mensagem cristã: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). “Ele se aniquilou, tomou a forma de servo, fez-se semelhante aos homens e procedeu co­mo um homem” (Fl 2,7). Portanto, afirmar que Cristo é um homem verdadeiro, completo, que, embora de todo unido substancialmente à divindade, não deixa por isso de possuir, não só um corpo humano, mas uma alma humana, uma consciência humana, uma vontade humana, sentimen­tos humanos, em uma palavra, que foi – no sentido mais verdadeiro e mais completo – como um de nós, tudo isso é tão fundamental como afirmar, por outro lado, a sua divindade.

segunda-feira, setembro 12, 2016

O amor e o compromisso da liberdade

Karol Wojtyla, “Amor e responsabilidade”, p. 128-132.

 
Só o conhecimento da verdade sobre a pessoa torna possível o compromisso da liberdade a seu respeito. O amor consiste no compromisso da liberdade: é um dom de si mesmo, e “dar-se” significa precisamente “limitar a própria liberdade para vantagem de outro”. A limitação da liberdade poderia ser em si mesma qualquer coisa de negativo e de desagradável, mas o amor faz com que seja, pelo contrário, positiva, alegre e criadora. A liberdade está feita para o amor. Se o amor não a usa, se não a aproveita, torna-se precisamente algo negativo, dá ao homem a sensação de vazio. O amor compromete a liberdade e cumula-a de tudo o que por natureza atrai a vontade: o bem. A vontade tende para o bem e a liberdade é uma propriedade da vontade; eis porque dizíamos que a liberdade é feita para o amor: graças a ela, de fato, o homem participa do bem. Pela mesma razão, a liberdade ocupa um dos primeiros lugares na ordem moral, na hierarquia das virtudes, como os bons desejos e as boas aspirações do homem. O homem deseja o amor mais do que a liberdade: a liberdade é um meio, o amor é um fim. Mas deseja o amor verdadeiro, porque só sobre a base da verdade é possível um compromisso autêntico da liberdade. A vontade é livre, e ao mesmo tempo “deve” procurar o bem que corresponde à sua natureza; é livre na busca e na escolha, mas não é livre da necessidade de buscar e de escolher.
Todavia, a liberdade não admite que lhe seja imposto um objeto como um bem. Ela mesma quer escolhê-lo e afirmá-lo, porque a escolha é sempre afirmação do objeto escolhido. Assim, o homem que escolhe a mulher afirma com isso o valor dela, mas é importante que seja o valor da pessoa e não só o seu valor sexual. Aliás, este último impõe-se por si mesmo, ao passo que o valor da pessoa permanece na expectativa da afirmação e da escolha. Por isso, na vontade de um homem que ainda não cedeu às paixões, mas conservou intacta a sua interior limpidez e frescura, geralmente se desenvolve uma luta entre a tendência sexual e a liberdade. A tendência tenta impor o próprio objeto e o próprio fim, procura criar um fato consumado interior. Não usamos aqui o termo “tendência sexual” na sua plena acepção, como a definimos no capítulo anterior; aqui esta palavra quer apenas significar certas manifestações dessa tendência, graças às quais os valores sexuais sujeitam a sensualidade e a afetividade do homem, e por aí dominam a vontade. Quando a vontade cede à atração sensual, nasce a concupiscência. O afeto livra-o do seu caráter carnal e “consumidor”, conferindo-lhe o de um desejo da pessoa de sexo diferente. Contudo, enquanto a vontade ceder só ao que atrai os sentidos e os sentimentos, a sua própria contribuição criadora no amor não poderá evidenciar-se.
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