quinta-feira, maio 24, 2018

Causas da ruína da paz


Por Raul Plus, “A paz interior”, pág. 35-37.
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São muitas as causas que podem perturbar a paz interior.
A primeira é a própria natureza do homem ou as condições históricas em que ele se encontra.
Deus criara-nos para a paz interior. Feitos para vivermos na sabedoria e na virtude, devíamos seguir em tudo a razão esclarecida pela fé. Mas, infelizmente, deu-se a desobediência original. O homem revoltou-se contra Deus; a partir desse momento, a criação tornar-se-á hostil, e, no próprio homem, as potências inferiores (a imaginação, a sensibilidade) tenderão a dominar. “Se tivesses andado pelo caminho de Deus, diz o profeta Baruc (3,13), viverias sempre em paz”.
Logo após a queda, felizmente, foi-nos anunciado que o Messias viria trazer à terra a vida divina que havíamos perdido.
Ele será o Príncipe da Paz. Mas não nos restituirá, com a vida sobrenatural propriamente dita (a graça santificante), os dons preternaturais[1], e particularmente o favor inteiramente gratuito, dado no princípio, de sermos preservados da má concupiscência. Haverá em nós uma sinistra inclinação para o mal; em vez de centralizarmos tudo em Deus, tornar-nos-emos nós o centro de tudo, e reinará o egoísmo. Será a luta contínua entre o dever e a paixão. Deus criara-nos para praticarmos o bem na tranquilidade interior; por nossa culpa não podemos praticar o bem senão debatendo-nos contra as tentações e à custa de esforços por vezes duríssimos.
É certo que teremos sempre a graça necessária para triunfar. É uma verdade de fé, e seríamos heréticos se a negássemos.
Mas é preciso que a nossa vontade entre em ação e saiba dominar as paixões.
Do mesmo modo que a morte e o sofrimento entraram no mundo em consequência do pecado, como dizia São Paulo aos Romanos, assim também, em consequência do pecado, a má concupiscência entrou no coração do homem. Não mais será senhor de si senão à custa de muitos e difíceis combates. Só à custa de generosas conquistas sobre si mesmo, haverá na terra paz interior.

***

quinta-feira, maio 17, 2018

Pentecostes


Por Maurício Meschler, “O Dom de Pentecostes”, pág. 11 e 15-17.
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Pentecostes é a festa de gala da natureza. O céu, na realidade, espalhou sobre a terra o espírito de vida. A vida expande-se em torrentes de luz e de calor, ondula-se nas espigas douradas das colheitas, balança-se nos ramos carregados de frutos; faz brotar na verde folhagem “rosas de Pentecostes” cujo escarlate assemelha-se a línguas de fogo caídas do céu. A terra amadurece seus tesouros, prepara uma esplêndida festa; por toda parte desenfreia a vida. A passarada toda, inclusive os rouxinóis, gorjeiam; as árvores da floresta inclinam-se ao sopro da vida, sussurram e parecem falar como num sonho. É a natureza que celebra a Festa de Pentecostes.
Pentecostes é também a festa de gala do Ano Eclesiástico.
Através do horror e das tempestades do inverno, o Sol da Justiça nos apareceu; na Páscoa, mostrou-se na sua glória; na Ascensão, chegou ao apogeu, e agora recebemos o fruto de sua exaltação e de sua atividade: envia-nos o Espírito Santo, para que fique conosco e termine a sua obra. Sim, a descida do Espírito é o fruto maravilhoso da vida e dos sofrimentos de Jesus, é a realização e a consumação de todas as promessas divinas; sua obra é de recolher as colheitas dos campos da nova vida, que o Salvador semeou e cultivou. A última época do mundo pertence ao Espírito Santo.

(...)

O nome do Espírito Santo

quinta-feira, maio 10, 2018

A boa vontade em si mesma

Por José Schrijvers, “A Boa Vontade”, pág. 7-10
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Para santificar-se, a alma precisa apenas de boa vontade.
Guardá-la intacta e desenvolvê-la sem cessar, tal deve ser o fim constante e único de sua vida. “A boa vontade, dizia Santo Alberto Magno, supre tudo, está acima de tudo”[1].
A boa vontade entrega o homem totalmente a Deus por um ato muito simples de amor: abandona o passado à Sua misericórdia, confia o futuro à Sua bondade e conserva para si apenas o presente, para santificá-lo.
A boa vontade é uma orientação, em tudo, do homem para seu Deus, uma coordenação de todas as faculdades para Ele, uma restauração da harmonia entre a criatura e o Criador, uma retorno amoroso do filho para seu Pai celeste.
É uma resolução generosa da alma, de se consagrar à glória do divino Mestre e de procurar o bem do próximo na medida de suas forças. É uma renúncia completa a tudo que está em desacordo com a ordem divina, é um sacrifício de todo interesse próprio, um esquecimento inteiro e uma despreocupação constante de si mesmo.
Essa boa vontade conserva-se a mesma tanto na aridez e na penúria como na consolação e na abundância, tanto na tribulação e na inquietação como na paz e na tranquilidade, tanto nos embaraços e na multiplicidade de ocupações como na doçura e nos gozos da oração. Seu ato é um simples movimento do coração que se entrega por completo, disposto a tudo aceitar, a tudo sofrer, a tudo cumprir, desde que o divino beneplácito lhe seja manifestado.

quinta-feira, maio 03, 2018

Inteligência musical


Por Íñigo Pirfano, "Ainteligência musical", Prefácio.
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O que faz com que a música desperte o interesse dos homens de todos os tempos?
Responder a essa pergunta é provavelmente uma tarefa fadada ao fracasso, pois obrigar-nos-ia a adentrar no reduto mais íntimo do ser humano: o núcleo onde pulsam suas necessidades e expectativas amorosas e poéticas. Assim, podemos apenas constatar, com admiração, as manifestações musicais presentes em todas as culturas, relacionadas fundamentalmente com as celebrações festivas e com os cantos sobre o amor e a morte. É curioso constatar como o homem constrói, ao mesmo tempo, armas e instrumentos musicais. Talvez isso ocorra porque ambos os tipos de objetos exprimem e asseguram o seu instinto de conservação: as armas constituem as ferramentas para caçar e defender-se, para conservar a vida diante de um inimigo físico; a música, por sua vez, é a grande aliada para preservar o espírito, o seu desejo de permanência – expresso no amor – diante do grande inimigo, que é a morte.
Hoje em dia, o fenômeno musical continua causando fascínio tanto no simples admirador, como no profissional da música. Nós, que temos o grande privilégio de dedicar todos os dias o melhor de nós mesmos a cultivar essa profissão, sabemos bem que há algo na música que não se reduz aos sons, às durações, aos silêncios, aos ritmos, aos pulsos e aos timbres; algo que está muito acima da sábia combinação de belos sons, em conformidade com as leis do contraponto e da harmonia. Esse algo que torna a música tão especial é o que poderíamos chamar de vida.

quinta-feira, abril 26, 2018

A Religião não proíbe as lágrimas, mas ensina a chorar cristãmente


Por Monsenhor Bougaud, “A dor”, pág. 44 a 47.
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Onde se viu que a religião proibia as lágrimas? A alma mais religiosa de todos os tempos, o tipo ideal de toda a vida celeste, no testemunho mesmo daqueles que não confessam a sua divindade, Jesus chorou. Ele perturbou-se, acabrunhou-se sob os golpes da dor. No Jardim das Oliveiras, banhado de suor e de sangue, disse: “Minha alma está triste como a morte”; e foi preciso que um anjo viesse auxiliá-lo a beber no cálice amargo. Na Cruz, Ele procurou consoladores; teve a necessidade deles, embora, desgraçadamente, não os achasse. No túmulo de Lázaro, derramou lágrimas ainda mais belas, pois eram do coração. Mas, que teriam sido essas lágrimas de Jesus, se Ele não tivesse tido, para consolar-se, o divino poder de restituir a vida ao seu amigo? Perturbação sagrada, santos frêmitos, emoção terna e divina, consolareis eternamente aqueles que sofrem! Lágrimas preciosas, a humanidade vos recolheu; ela vos encravou no ouro e na prata; ela vos adora, genuflexa perante vós, porque lhe ensinastes que, nos grandes infortúnios, podemos chorar e gemer, sem ofender um Deus, que também chorou!
É certo que falsos místicos cometeram o excesso de proibir as lágrimas aos que sofrem. Mas a Igreja os condenou e a humanidade deles desviou os olhos com horror, para os fixar, com uma admiração terna, nos verdadeiros heróis, seus modelos, aqueles que não ultrajavam a natureza humana sob o pretexto de honrar a Deus.
Primeiramente ao pé da Cruz, Maria, a mãe das dores, a mais pura, a mais forte, a mais magnânima das criaturas; mas, ali, fraca e desmaiada, segundo uns, em pé, segundo outros, e debulhada em lágrimas, conforme o testemunho de todos, e torturada pela dor:

Stabat mater dolorosa,
Juxta crucem lacrimosa[1]
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