quinta-feira, fevereiro 16, 2017

A humildade

Por Robert de Langeac, “Princípios de vida interior”, p. 45-51

 
A humildade e a obediência predispõem para a verdadeira contemplação, e a melhor preparação para a união, assim como a melhor prova da sua realidade, é precisamente o amor cada vez mais vivo destas virtudes. Tudo o que fizermos neste sentido aproximar-nos-á de Deus mais do que pensamos.
A perfeição obtém-se lentamente. Não devemos pensar numa perfeição acabada, recebida imediatamente e de uma vez para sempre. Sabermos suportar os nossos defeitos com paciência é meio caminho andado no sentido de os corrigirmos.
É preciso um exame sério para conhecermos os ídolos interiores. É o verdadeiro amor de Deus que nos torna humildes. Quando vivemos dele e para ele, deixamos de viver para nós. Nas tentações de vaidade, pensemos em Cristo. Devemos esforçar-nos por destruir o hábito de nos colocarmos sempre em primeiro plano, antes da graça, antes de Jesus.
Quanto mais eu permanecer em mim, menos claro verei: quanto mais subir para Deus e o contemplar, mais se hão de iluminar todas as coisas. Tudo se torna mais nítido quando só nos interessamos por Deus.

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Uma crônica de Belém

Maurício Mescheler, “São José na vida de Cristo e da Igreja”, p. 33-40.

 
Aproximava-se o momento em que a Virgem daria ao mundo o Salvador. Por esse mesmo tempo foi publicado um edito de César Augusto exigindo que, em todos os reinos submetidos a Roma – e a Judeia era desse número, – todos os habitantes se fizessem inscrever. O recenseamento ordenado por Sulpício Quirino, governador da província romana da Síria, efetuou-o Herodes e, conforme o antigo uso, por tribos e famílias.
Para fazer-se inscrever, todo chefe de família devia dirigir-se à cidade ou povoação de onde procedia a família. Essa medida descontentou o povo. Mas José e Maria submeteram-se pacientemente, sabendo que tudo vem de Deus e que o Salvador nasceria em Belém. José pôs-se, então, a caminho com Maria, que, na qualidade de herdeira, devia fazer-se inscrever também nos registros do censo.
Era pleno inverno, no mês de dezembro, quando, geralmente, na Palestina o vento sopra com violência, as chuvas são abundantes e, nas alturas, o frio chega a ser rigoroso. Maria e José viajavam a pequenas jornadas, modestos e recolhidos, suportando com doçura as intempéries do clima e a indiferença dos homens.
A viagem durou cerca de quatro dias e meio, e fez-se provavelmente pela planície de Esdrelon e pelos vales da Samaria. Depois, de Jerusalém em diante, continuaram pelo planalto de Refaim, por onde outrora seguia Salomão para ir aos seus jardins de Etã[1], cercado de uma multidão de servos e em meio a uma pompa que contrastava singularmente com a modéstia e a pobreza da Sagrada Família. Em frente ao planalto, dominando vinhas e jardins escalonados em terraços, cercado de vales verdejantes onde pastavam rebanhos, sobressaía o povoado real de Belém. As habitações cobriam o vértice e as encostas ocidentais da altura, ao passo que a vertente oriental, volvida para Jerusalém, era deserta. Onde se vê agora a igreja da Natividade abria-se uma gruta.

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Cartas de Columba Marmion

Columba Marmion, “A união com Deus em Cristo” – cartas compiladas e selecionadas por Dom Raimundo Thibaut, OSB. 



Em “A união com Deus em Cristo”, vemos a doutrina espiritual de Dom Columba Marmion traduzida em conselhos para seus filhos espirituais. Selecionamos alguns trechos das cartas escritas por ele. 

“Deixai-vos conduzir pela mão de Deus, sem reparar demasiado para onde vos leva, contanto que vos conserveis inteiramente submissa e entre as suas mãos. Vivemos mil vezes mais unidos a Deus no meio duma multidão em que nos encontramos por obediência, do que no recanto de uma cela onde nos tivéssemos encerrado por vontade própria.”[1]

Fonte de fecundidade sobrenatural, esta união com a vontade divina é também princípio de profunda paz. O trecho seguinte é tirado de uma das mais antigas cartas de Dom Marmion (21 de Maio de 1895). Aqui O encontramos já tal qual é, inteiramente sobrenatural e profundamente humano:

“O meu grande desejo é que possais conseguir a calma e a paz; e é, sem dúvida, uma inspiração do Espírito Santo que vos impele nesse sentido. Tende cuidado, no entanto, em o fazer devagarinho, e não fiqueis demasiado aflita se o não conseguirdes logo à primeira. O melhor meio de adquirir esta calma é uma resignação absoluta à santíssima vontade de Deus: é essa a região da paz e...[2] Esforçai-vos por nada desejar, por não prender o coração a coisa alguma sem a terdes antes apresentado a Deus e depositado no sagrado Coração de Jesus, de modo a querê-la n’Ele e com Ele.

Uma das razões principais por que perdemos a paz da alma e desejarmos uma coisa, prendermos o coração a qualquer objeto, sem sabermos se Deus o quer ou não; e então, quando se opõe aos nossos desejos algum obstáculo, perturbamo-nos, desviamo-nos da conformidade com a santíssima vontade de Deus e perdemos a paz.

No entanto — acrescenta com a sua habitual discrição —, sabei que a graça não destrói a natureza, mas a santifica, e que deve cada qual contar com o seu próprio temperamento. Portanto, fazendo por evitar a precipitação, conservai-vos num meio termo; pois, com esse vosso temperamento vivo, agir com excessiva morosidade seria afetação, o que é meu desejo eviteis a todo o custo.”

(...)

sábado, janeiro 28, 2017

O dom de si

Por Joseph Schrijvers, “O dom de si”, p. 17-20.

 
Deus ocupa-se pessoalmente de santificar
a alma que se lhe entrega

Dar-se a Deus é entregar-lhe o próprio ser num ardente ato de amor, e depois esquecer-se, despreocupar-se inteiramente de si, encarregando-o de prover a tudo. É um completo abandono em Deus.
Bem sei que a sabedoria humana repudia essa palavra: abandono. Gosta de pôr reservas, exigir garantias, impor condições a Deus. Será que o trabalho de santificação não passa de um negócio a ser combinado entre Deus e a alma, um contrato bilateral, em que as partes contratantes procuram assegurar, antes de tudo, os seus interesses pessoais?
Longe de nós estas mesquinhas concepções. É a prudência da carne que as inspira.
E que importa a Deus esta máquina do mundo, por mais aperfeiçoada que seja? Ele pode construir sem fadiga mil outras, mais poderosas e mais belas. É com as almas que o seu pensamento se ocupa.
Os acontecimentos que absorvem a atenção dos homens, as revoluções, os abalos sociais, a sucessão dos impérios, são para Deus jogos infantis.
A inocência, guardada ou recobrada, um ato de caridade, uma resolução de pertencer-lhe, um suspiro dirigido ao seu Coração, uma oração, é isso que põe em movimento o Céu. Jesus disse a uma Santa: “Eu estou disposto a sofrer todos os suplícios da minha Paixão, tantas vezes quantas as almas perdidas, mas, ai de mim! Elas tornam-se incapazes da redenção”. E tu, minha alma, que te entregas a Jesus, num transporte de amor, terás receio?

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Confiança: contar com Deus

Por Thomas de Saint-Laurent, “Livro da Confiança”, p. 22-25.


Conta somentcom Deus

Firmeza inquebrantável é, pois, a primeira característica da confiança. A segunda qualidade dessa virtude é ainda mais perfeita. “Leva o homem a não contar com o auxílio de criaturas, quer se trate de um auxílio que venha de si mesmo, do seu espírito, da sua ciência, dos seus critérios, das suas aptidões, das suas próprias riquezas, créditos, amigos, parentes ou qualquer outra coisa sua; quer se trate do socorro que possa, talvez, esperar dos outros: reis, príncipes ou qualquer outra criatura; porque sente e conhece a fraqueza e vaidade de todo o amparo humano. Vê-os como o que realmente são. Como Santa Teresa tinha razão de chamá-los ramos secos de Gene­bra, que se rompem ao serem carregados”
Mas essa teoria, dirão alguns, não procederá de um falso misticismo? Não conduzirá ao fatalismo ou, pelo menos, a uma perigosa passividade? De que serve multiplicar esforços com a intenção de vencer as dificuldades, se todos os apoios hão de romper-se em nossas mãos? Cruzemos os braços, esperando pela intervenção divina!
Não, Deus não quer que nos entorpeçamos na inércia; Ele exige que O imitemos. Sua perfeita atividade não tem limites: Ele é o puro ato. Devemos, pois, agir; mas somente n’Ele devemos esperar a eficácia de nossa ação: “Ajuda-te a ti mesmo, que o Céu te ajudará”. Eis aqui a economia da Providência.
Preparemo-nos para a luta! Trabalhemos com afinco, mas com o espírito e o coração voltados para o alto. Em vão vos levantais antes de o sol nascer (Sl 126,2), diz a Escritura, se o Senhor não vos ajudar, nada conseguireis. De fato, nossa impotência é radical: Sem mim, nada podeis (Jo 15,5), diz o Salvador.
Na ordem sobrenatural, esta impotência é absoluta. Prestai atenção ao ensinamento dos teólogos. Sem a graça, o homem não consegue observar durante muito tempo e na sua totalidade os Mandamentos de Deus. Sem a graça, não pode resistir a todas as tentações, por vezes tão violentas, que o assaltam. Sem a graça, não podemos ter um só bom pensamento, e nem ao menos fazer a mais curta oração; sem ela, nem sequer podemos invocar piamente o nome de Jesus.
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