quinta-feira, fevereiro 15, 2018

A “santa inveja”

Por Francisco Ugarte, “Inveja má, inveja boa, p. 76-79.
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“SANTA INVEJA”

       Ao tratar da competição como fonte de inveja, também foi dito que ela poderia ser valiosa pelos benefícios que pode trazer, se focada acertadamente. Quando isto acontece, costuma-se falar de uma “competição sadia”, que convida à superação pessoal, sem que isso gere o mal-estar diante do triunfo do outro, típico da inveja.
        Em certas ocasiões, escuta-se a expressão “tenho uma santa inveja de você”, seja para justificar ou adoçar a inveja que se experimenta, querendo considerá-la como boa, mesmo que no fundo continue sendo puramente inveja; seja porque realmente se trate de algo positivo, ao reconhecer – sem tristeza nem desgosto – o bem alheio e desejar obtê-lo. Neste segundo caso, é claro que não existe propriamente inveja, e por isso se entende que se lhe atribua o qualificativo de “santa”. Entretanto, propriamente falando, a expressão “santa inveja” não é adequada por encerrar uma contradição: a inveja não pode ser santa devido a toda a malícia que encerra, conforme foi visto. Felizmente, existe um termo que responde àquilo que se tenta significar com essa expressão. E ele é emulação.

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

A liberdade

Por Jacques Maritain, “Humanismo integral”, p. 184-203.

* A foto é de uma coleção de fotos históricas. São prisioneiros judeus depois de serem libertados de um trem de morte, que se vê ao fundo.




A liberdade de expressão

É curioso observar que Marx, em sua mocidade, começou por militar em favor da liberdade de imprensa, considerada então pelos jovens hegelianos como uma panaceia social, e é também curioso constatar o grau de liberdade de que goza hoje a imprensa na Rússia marxista. Assim, pois, o Estado russo, como todos os outros Estados totalitários, tem outros métodos que não os dos reis da Prússia e de seus censores, bons sobretudo para ridicularizar os governos e fazer mártires entre seus adversários; ele compreendeu que a lei só é boa quando é forte. A lição não deve ser perdida, embora convenha aplicá-la de outra forma.
Quando Roma, no tempo de Gregório XVI e de Pio IX, condenava a pretensão de fazer da liberdade de imprensa ou de expressão do pensamento fins em si mesmas e direitos sem limites, não fazia mais do que lembrar uma necessidade elementar do governo dos homens. Essas liberdades são boas e correspondem a exigências fundamentais da natureza humana; mas precisam ser regulamentadas, como tudo o que não pertence à ordem propriamente divina. A maneira ditatorial ou totalitária de as regular — pela aniquilação — parece-nos detestável; a maneira pluralista de as regular — pela justiça e por uma auto-regulação progressiva — parece-nos boa, e não seria menos forte do que justa. Que, por exemplo, em virtude de um estatuto institucional, os diversos grupos de publicitários e de escritores reunidos em um corpo autônomo tenham, de grau em grau, um poder de controle sobre a deontologia da profissão, e veremos se, em virtude da severidade natural do oleiro para com o oleiro, não saberão exercer eficazmente esse controle; seria antes para proteger o indivíduo contra seus pares que os órgãos judiciários supremos do Estado teriam de intervir...
Contudo, a solução mais conveniente está em outro lugar. Pedir a um policial para julgar uma obra de arte satisfaria muito pouco ao nosso sentimento da hierarquia dos valores. Pedir a outro artista que a julgue e decida do seu destino seria quase tão pouco satisfatório quanto. Toda regulamentação externa será vã se não tiver por fim desenvolver na pessoa o senso da sua responsabilidade criadora e o senso da comunhão. Sentir-se responsável por seus irmãos não diminui a liberdade, ao contrário, lhe dá um peso muito maior.

A cidade pluralista e a lei

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

A meditação, por São Boaventura

Por São Boaventura, “Escritos Espirituais”, p. 11-20.
Ensinamentos dos Doutores da Igreja

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Todas as ciências trazem em si a marca da Trindade; mas de todas, a que melhor a conserva é a que se aprende na sagrada Escritura. Dela disse o Sábio que foi por três formas ensinada, por causa dos três sentidos espirituais que encerra: o moral, o alegórico e o anagógico (ou místico). Os quais correspondem aos três atos hierárquicos da vida espiritual: a purificação, a iluminação e a perfeição. A purificação produz a paz, a iluminação conduz à verdade e a perfeição realiza a caridade.
Estes três atos, frequentemente praticados, dão a felicidade à alma e, quanto melhor praticados, mais lhe aumentam os méritos. No conhecimento desses três atos é que se funda a ciência de toda a sagrada Escritura, e dele é que depende o merecimento da vida eterna.
Três são os exercícios que facilitam a sua realização: a meditação, a oração e a contemplação.

Da meditação, pela qual a alma é purificada, iluminada e aperfeiçoada

2. Comecemos por examinar o que é a meditação. Saibamos que existem em nosso espírito três faculdades pelas quais se exercem aqueles três atos da vida espiritual: a consciência, a inteligência e a sapiência.
Portanto, quem quiser se purificar, dirija contra si o aguilhão da consciência; quem precisar de se iluminar, recorra à luz da inteligência; e quem desejar tornar-se perfeito, aqueça-se ao calor da sapiência. É o que aconselhava a Timóteo o bem-aventurado Dionísio[1].

§ 1. Da purificação da alma e do seu tríplice exercício

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Conversão: urgência de amor

Por Santo Afonso Maria de Ligório, “Máximas Eternas”, p. 109-113.
Ensinamentos dos Doutores da Igreja

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Convida-vos Deus hoje a fazerdes o bem, fazei-o hoje; porque é possível que amanhã não tenhais tempo, ou que Deus não vos chame mais.
Se por desgraça tendes empregado a vida passada em ofender a Deus, proponde-vos, a exemplo de Ezequias, fazer penitência desse abuso no resto da vossa vida: Repassarei na vossa presença todos os meus anos, na amargura da minha alma (Is 38,15).
Prolonga-vos Deus a vida, para que repareis o tempo perdido. Quer o Apóstolo que reparemos o tempo, pensando nos dias maus: que aproveitam o tempo, pois os dias são maus. (Ef 5,16). Santo Anselmo explica assim: “Resgatareis a tempo, se fizerdes agora o que em outro tempo deixaste de fazer por negligência”. Apesar de S. Paulo ser o último dos apóstolos, tornou-se o primeiro, pelas grandes obras que operou, a partir da sua conversão. É o que S. Jerônimo nota.
À falta de outros motivos para nos estimularmos, devíamos ao menos considerar que a cada momento podemos aumentar a nossa fortuna eterna. Se vos fosse outorgado como propriedade todo o terreno que num dia de marcha pudésseis circuitar, com que diligência não alargaríeis os vossos passos? Podeis a cada instante adquirir tesouros eternos, e perdeis o tempo!
Não me digais: “O que podia fazer hoje, também poderei fazê-lo amanhã”. Não, porque amanhã já o dia de hoje será perdido para vós, e não voltará mais. Quando S. Francisco de Borja ouvia falar das coisas do mundo, elevava o seu coração a Deus em santos Afetos; se depois lhe perguntavam a sua opinião, não sabia o que havia de responder. Aos que disso o censuravam, replicou-lhes: “Antes quero passar por simplório do que perder o meu tempo”.
(...)

quinta-feira, janeiro 18, 2018

A sede do amor de Deus

Por São Francisco de Sales, “Tratado do amor de Deus”, p. 82-87.
Ensinamentos dos Doutores da Igreja

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Quando o homem pensa atentamente na Divindade, sente logo uma doce comoção que atesta que Deus é o Deus do cora­ção humano; nunca a nossa inteligência tem maior prazer do que ao ocupar-se de Deus, e o menor conhecimento d’Ele, como diz o príncipe dos filósofos[1], vale mais do que o maior conheci­mento das outras coisas. O menor raio do sol é mais luminoso que o maior raio da lua ou das estrelas, e mesmo mais do que a lua e as estrelas juntas. Se qualquer acontecimento assusta o nosso coração, este recorre logo à Divindade, confessando que, quando tudo lhe é funesto, só Deus lhe é propício, e quando está em perigo, só Ele, como soberano bem, o pode salvar e proteger.
Este prazer, esta confiança que o coração humano tem natu­ralmente em Deus, não pode proceder senão da conformidade perfeita que existe entre a divina Bondade e a nossa alma. É uma conformidade ao mesmo tempo grande e oculta; conhecida por todos e entendida por poucos; conveniência que não se pode negar, mas também não se pode penetrar. Com efeito, fomos criados à imagem e semelhança de Deus[2]; e que quer dizer isso, senão que temos uma extrema conformidade com a sua divina majestade?
A nossa alma é espiritual, indivisível, imortal; é capaz de conhecer e de querer, e de livremente julgar, raciocinar, saber e ter virtudes; nisto se assemelha a Deus. Reside toda em todo o corpo, e toda em cada uma das partes dele, assim como a Divin­dade está toda em todo o mundo, e toda em cada parte do mundo.
O homem se conhece e se ama a si mesmo por meio de atos produzidos e expressos pelo entendimento e pela vontade; e, embora o entendimento e a vontade sejam distintos um do outro, o conhecimento e o amor ficam inseparavelmente unidos na alma e nas faculdades de onde procedem. Assim também, em Deus, o Filho procede do Pai, como a expressão do conhecimento deste; e o Espírito Santo é como a expressão do amor procedente do Pai e do Filho; são três pessoas distintas entre si, e contudo inse­paráveis e unidas numa única, simples e indivisível Divindade.
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