quinta-feira, agosto 16, 2018

“Olhos em Terra e Coração em Deus”

Por Gabriel de Santa Maria Margarida, 
“A espiritualidade de Santa Teresa Margarida do Coração de Jesus, pág 155 a 157.

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Depois da morte da Ir. Teresa Margarida uma religiosa encontrou “no livro de horas destinado a seu uso, um pedacinho de papel, em que de próprio punho ela escrevera estas palavras: – Olhos em terra e coração em Deus. Vere Deus est in loco isto – E o mantinha diante de si ao recitar o Ofício Divino, porque afirma a irmã, achei-o no lugar onde mais frequentemente podia ser visto por ela” (P.O. 1379).
Era a síntese do programa que a Santa adotara quanto à sua conduta no coro, expressão do espírito de fé que a levava a sentir-se realmente diante do Deus vivo.
Mergulhava na presença eucarística, ao considerar “a imensa caridade do Homem-Deus, que mantém toda a sua Divindade e Humanidade santíssimas tão humildemente encerradas sob as espécies consagradas, para nosso deleite e conforto poderosíssimo. E ao pensar que esse Deus, prisioneiro dos tabernáculos é “na maior parte do tempo deixado sozinho nas igrejas” (P.O. 1425), quisera transformar-se em serafim, para suprir com seu amor e adoração incessantes, o
esquecimento e descaso de todos os fiéis.
Nas longas horas de coro as religiosas viam-na assumir uma conduta de tal modo recolhida e reverente, que ficavam profundamente abaladas e edificadas. Há toda uma série de testemunhos que nos põe diante dos olhos a figura da Santa em oração tão imersa em Deus, que era para suas irmãs um vivo lembrete da divina presença. E aquelas almas atentas nunca deixavam passar esse chamado “a fim de se alertarem para um maior recolhimento, a fim de se recomporem e de se colocarem em ato na presença de Deus” (P.O. 554v., cf. P.A. 371 e v.)
Uma das monjas dá testemunho: “No coro, eu via e ouvia as religiosas dizerem que ela causava admiração a todas, como também a mim. Tanto assim que muitas vezes fiquei de propósito a fitá-la, especialmente de manhã, antes e depois de ela haver recebido o SSmo. Sacramento da Eucaristia; eu o fazia para reavivar e acrescer um pouco a minha devoção, sabendo que ela me conduzia ao recolhimento e compunção mais do que qualquer livro que lesse... a esse respeito” (P.O. 1738v.).

quinta-feira, agosto 09, 2018

A vida do cristão é interior

Por Cardeal D. J. Mercier, “Aos meus seminaristas”, pág 29 a 32.
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Da glória que conquistaria a Igreja escrevera o salmista que ela seria toda interior, “com toda a glória é levada para dentro” (cf. Sl 45/44, 14-15); o mesmo Isaías que ao cabo de sua profecia vibraria de comoção diante dos triunfos conquistadores de Cristo, d’Ele dissera que reinaria silenciosamente: “Eis aqui o meu servo, – assim fala o Senhor –, é o meu escolhido, n’Ele pôs a minha alma as suas complacências; sobre Ele derramei o meu espírito e promulgará a justiça às nações. Não clamará, nem a sua voz se ouvirá nas praças.” (Is 42, 1-2).
Não é, de fato, neste religioso silêncio que vamos encontrar em Nazaré o Menino Jesus? Depois de ocultar nove meses na obscuridade do seio de sua Mãe e após haver acolhido em silêncio na gruta de Belém adorações de pastores e homenagens de reis, ei-Lo durante trinta anos numa oficina ignorada não tendo outra companhia habitual senão a de José – nome que desperta em toda alma cristã a ideia de gravidade, modéstia e paz – e a de sua Mãe cuja característica era, no dizer de São Lucas, o recolhimento e a meditação: “Maria conservava em seu interior”, diz o evangelista, “as palavras que ouvira e se comprazia o seu coração em repassá-las no silêncio” (Lc 2, 51).
Acaso ponderastes já, bastante, este fato extraordinário e paradoxal a nossas vistas humanas, da vida oculta de Jesus numa oficina humilde de Nazaré? Refleti: é o Verbo de Deus, imagem resplendente e consubstancial do Pai Eterno, que reveste a natureza humana para se aproximar de nós e lançar entre os homens sementes de graça e de verdade. Ele viera trazer luz e redenção a todos os povos da terra; mas para inaugurar a missão abençoada não dispõe, segundo o plano divino, de senão cerca de trinta e três anos de vida terrestre. Ora, eis o fenômeno e o paradoxo: destes trinta e três anos reservará três ou quatro apenas para a pregação pública, quanto que os trinta primeiros, tê-los-á passado em recolhido silêncio, a sós com sua Mãe e Pai nutrício, dando-se ao trabalho manual e à íntima união com seu Pai Eterno!

quinta-feira, agosto 02, 2018

O Deus da riqueza, da generosidade e do amor

Por Romano Guardini, “Introdução à vida de oração”, pág 72 a 74.
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A essência de Deus é inesgotável. Ao espírito contemplativo e à experiência religiosa revelam-se constantemente novos aspectos, e para cada um deles o coração responde com uma atitude apropriada. Deste modo, a doutrina sobre Deus é quase por si mesma uma doutrina sobre a oração. Contudo, não será possível neste livro, que pretende ser somente uma introdução à vida de oração, desenvolver por completo as propriedades de Deus. No entanto, consideraremos ainda um último grupo de atributos: Deus é poderoso e rico, está sempre pronto para ajudar e para dar alegria, preocupa-se com os homens, e respeita-os e ama-os. A este conjunto de propriedades divinas orientam-se também duas formas de oração: a petição e a ação de graças.
Há representações de Deus que tornam impossível dirigir-lhe um pedido ou render-lhe graças, quando, por exemplo, nós o concebemos somente como a ordem sagrada do universo, a ideia do bem ou o mistério do ser. A um Deus assim
o coração do homem não pode se dirigir com as suas misérias. Diante Dele, a petição seria tão insensata quanto a ação de graças; as únicas atitudes possíveis seriam o respeito ou a admiração. Mas a Revelação diz-nos que Deus é um poder vivo, que é a força de vontade e de ação, é uma pessoa que pode ouvir e responder.
Deus é espírito, e não apenas no frio sentido de lógica pura ou de força ordenadora que o termo espírito adquiriu em muitos casos. Deus é espírito no sentido que lhe dá a Sagrada Escritura, quando fala do “Deus vivo”. Ele é o Criador e o inesgotável, é o que está próximo, o que é bom. É o Deus rico, como dizem os autores espirituais, que não se contenta com a sua própria riqueza, mas está disposto a comunicá-la. Deus é um doador infinito que nunca empobrece, pois nenhuma doação diminui a sua riqueza; é um doador que nunca se cansa ou se decepciona, pois a sua doação não depende da resposta do homem. Ele dá criando... A este Deus, o coração do homem pode se dirigir.

quinta-feira, julho 26, 2018

Pela Santa Missa adoramos dignamente a Deus

São Leonardo de Porto Maurício, “Excelência da Santa Missa”, pág 30 a 32.
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Nossa primeira obrigação para com Deus é adorá-Lo e honrá-Lo. É preceito da própria lei natural que todo ser inferior deve homenagem a seu superior. E quanto maior a dignidade deste, tanto maiores devem ser as honras que se lhe prestam.
Daí resulta que, sendo Deus de majestade infinita, homenagens infinitas Lhe devemos.
Mas, infelizes que somos, onde encontraremos oferenda digna de nosso Criador? Olhemos todas as criaturas do Universo: coisa alguma encontraremos digna dele. Que oferenda poderá ser digna de Deus senão o próprio Deus? É necessário, pois, que Aquele que está sentado em seu trono no mais alto dos céus desça para oferecer-se como vítima sobre os nossos altares, a fim de que a homenagem corresponda perfeitamente à Excelência de sua grandeza infinita.
Isto é o que se realiza na Santa Missa, através da qual Deus é honrado na medida que a sua dignidade exige, porque é adorado pelo próprio Deus. Jesus Cristo põe-se sobre o altar em estado de vítima, e por este ato de humilhação inefável, adora a Santíssima Trindade tanto quanto esta é adorável. Isso de tal modo que todas as outras homenagens que lhe possam prestar as criaturas puras, comparadas a essa humilhação de Jesus, desaparecem como as estrelas na presença do sol.
Conta-se que uma santa alma, totalmente abrasada de amor a Deus e cheia de desejo de glorificá-Lo, exclamava com frequência: “Ah! Deus meu! Quisera ter tantos corações e tantas línguas como há de folhas nas árvores, de átomos no ar e de gotas d’água no mar, para vos amar e louvar como mereceis. Oh! Se eu tivesse em meu poder todas as criaturas para deixá-las em vossos pés, a fim de que todas se consumissem de amor por vós, contanto que eu vos amasse mais que todas juntas, mais que todos os Anjos, os Santos e todo o Paraíso!”.

quinta-feira, julho 19, 2018

Presença de Deus

Por Miriam Mirna, “Gotas esparsas de oração”, pág 43 a 45.
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São Josemaria ensinou que é na realidade concreta de cada momento que Te encontramos, meu Deus. Parece que essa verdade não penetrou na minha vida diária, só na minha cabeça, teoricamente. Acho que ainda espero certeza sensível de que estás perto de mim. Põe, Senhor, no meu coração, a convicção de que, se eu quiser, poderei encontrar-Te nos meus deveres, nas alegrias, nos contratempos, “entre as panelas” (parece que Santa Teresa – doutora da Igreja! – o afirmava), no lazer e no cansaço, nas mil “mesmas coisas” de todo dia. E aí, tratar-Te, oferecendo-Te tudo isso, pedindo ajuda, agradecendo, contando-Te tudo, o que me alegra e o que me preocupa, o que me cansa e o que me descansa, o que me atrai e o que me desgosta.
Quando alguma vez uma escuridão densa me envolver, ou vier uma tribulação mais pesada, que eu saiba, Senhor, ainda que não sinta, que não estou só, que estás comigo. Tu sim, diante da Paixão e da Cruz, ficaste só (cfr. F. Fernandes Carvajal, A cruz de Cristo, p. 20), até teus Apóstolos Te abandonaram (cfr. Mc 14, 50). Eu nunca fico só porque és fiel e nos asseguraste: Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo (Mt 28, 20).
Quando, tendo muito o que fazer, um contratempo, proveniente de mim mesma (uma indisposição, uma incapacidade real de dar conta de tudo, de “esticar” o tempo...), dos outros (que me pedem algo, que querem conversar em momentos inoportunos, que não fazem o que espero...), das coisas (ah! o computador, o trânsito, o telefone...), um contratempo, dizia, impedir ou atrasar o que eu tinha previsto, quero ver-Te, Senhor, pedindo-me o desprendimento da minha vontade para aceitar, com alegria, a tua.
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