quinta-feira, maio 25, 2017

Quando a alma desanima

Por J. Michel, “Tratado do desânimo nas vias da piedade”, p. 31-35.

 
Facilmente concordamos sobre a força dos motivos da Esperança cristã; mas o demônio se serve de muitos pretextos para enfraquecê-los, impedindo a alma desanimada de aplicar a si mesma esses motivos.
Sendo naturalmente preguiçoso, o homem teme o esforço. Uma vez que se entrega a Deus, desejaria fruir da felicidade do seu estado sem que isso lhe custasse muito. Esquecese de tudo o que Jesus Cristo disse: Só os que se fazem violência é que arrebatam o céu (Mt 2,12). Estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida (Mt 7,14). Se alguém quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz a cada dia e me siga (Lc 9,23). Não presta atenção ao fato de que Jesus Cristo não quis entrar na Sua glória senão pelos seus sofrimentos (Lc 24,26); que só conduziu ao céu os Santos pelas cruzes, pelos combates, pelos sacrifícios, pela renúncia às suas paixões, à sua vontade.
O Céu é uma recompensa: cumpre merecêla pela preferência que damos a Deus, à sua vontade santa, sobre aquilo que temos de mais caro, uma vez que Deus exige a renúncia a nós mesmos. É, pois, um princípio certo: e S. Paulo nolo declara alto e bom som da parte do Senhor: Ninguém será coroado se não tiver legitimamente combatido até o fim (2Tm 2,8). Pretender a coroa da Justiça sem combate é raciocinar contra os princípios da Fé; esperar por combates que não exijam esforço é ir contra as luzes da razão.
Não ignoramos o que Deus exige; e é disto que o demônio tira pretexto para desanimar uma alma cristã, servindose da preguiça, tão natural ao homem, para desviálo do trabalho necessário à salvação. Não custa nada seguir as nossas inclinações naturais: o que custa é reprimilas. O inimigo do homem não encontra, pois, grande dificuldade para nos fazer escolher o primeiro partido.

quinta-feira, maio 11, 2017

Por que pedir a intercessão da Virgem Maria?

Por Adolphe Tanquerey, “Para formar almas santas”, p. 121-130.

Obra disponível aqui.



Maria, a medianeira universal da graça

Por ser a mãe de Jesus e mãe dos homens, Maria é a mais indicada para ser a nossa medianeira depois de seu Filho.
No plano divino há apenas um mediador necessário, o Verbo Encarnado, que, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, possui toda a autoridade para reconciliar o homem com Deus e para unir intimamente os homens, seus irmãos, com seu Pai celestial: “Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou como resgate por todos” (1Tm 2, 5-6). Mas tudo o que dissemos sobre a relação de Jesus com Maria nos leva a pensar que a Virgem bendita, que teve tão grande participação na obra redentora, tem um papel importante na distribuição das graças merecidas pelo seu Filho. Certamente, como o seu ofício foi secundário, a sua mediação também deverá ser secundária: Jesus será sempre o mediador principal, e Maria, nossa medianeira depois dele, mediatrix ad mediatorem: por ela chegamos ao Filho, e por ela o Filho nos dispensa as suas graças.
Para entender bem essa doutrina, veremos: 1º, quais são os seus fundamentos no Evangelho; 2º, como foi se concretizando na Tradição; 3º, a consagração que surgiu com a festa de Maria medianeira universal da graça.
Os fundamentos Evangélicos da mediação de Maria Do relato evangélico se deduz que Maria ocupa, na ordem da salvação, o mesmo lugar que Eva ocupa na ordem da nossa perdição espiritual; assim como Eva cooperou com Adão para a nossa ruína, Maria colabora com Jesus na nossa redenção; Jesus é o novo Adão e Maria é a nova Eva. Recordemos as palavras que o anjo disse a Maria: o que lhe propõe ele em nome de Deus? Não é ser a mãe de Jesus como uma pessoa privada, mas sim, ser a mãe do Salvador, o Redentor da linhagem humana. Pe. Bainvel destaca muito bem: “o anjo não fala somente das grandezas pessoais de Jesus; ele propõe a Maria ser a mãe do Salvador, do Messias esperado, do Rei eterno da humanidade regenerada. Assim, ele lhe propõe cooperar com a salvação da humanidade, com a obra messiânica, com a constituição do reino prometido.

quinta-feira, maio 04, 2017

A maternidade divina de Maria

Por M. J. Scheeben, “A Mãe do Senhor”, p. 39-45.



Maria gera uma Pessoa divina

É de fé que Cristo, e mais especialmente o homem-Cristo, foi realmente gerado de mãe humana, e, portanto, é real e propriamen­te filho de mãe humana, como qualquer outro filho de homem. Ao lado da origem sobrenatural da sua pessoa tem, pois, uma filiação humana real e própria. Em atenção ao princípio maternal que inter­vém nesta obra, é preciso dizer que esta filiação humana de Cristo e a maternidade que lhe corresponde são naturais. No que concerne à geração da natureza humana e à sua comunicação à pessoa de Cris­to pela conceição e pelo nascimento, tudo o que uma mãe faz natu­ralmente foi feito positivamente por Maria.
Mas o dogma estabelece explicitamente que a filiação humana de Cristo não deve ser atribuída exclusivamente a Cristo ou ao ho­mem-Cristo, mas ao Logos incarnado de Deus, quer dizer, à pessoa divina do Logos. Segundo o dogma, deve dizer-se que o Logos in­carnado de Deus foi gerado “maternalmente” de Maria, foi concebi­do dela e nasceu dela. O Logos é, pois, filho de Maria, e Maria é sua mãe na acepção corrente do termo.
Esta verdade está incluída imediatamente, por uma simples análise e como consequência necessária, nesta outra verdade de que Cristo é filho de Maria. Com efeito, se Cristo é por essência a pessoa divi­na encarnada do Logos, a geração de Cristo não pode ser uma ge­ração da pessoa de Cristo sem ser uma geração da pessoa divina do Logos segundo a carne. A geração de Cristo não seria realmente ge­ração da pessoa divina se Cristo não fosse realmente a mesma pes­soa que o Logos, ou se a geração não produzisse senão um homem que mais tarde se teria unido ao Logos. De fato, os nestorianos ne­garam o nascimento e a filiação humana do Logos, porque negaram a identidade da pessoa de Cristo com o Logos. Em contrapartida, os católicos afirmam o nascimento e a filiação humana do Logos bem como o título de mãe de Deus que corresponde a Maria, enquanto expressão absolutamente necessária e adequada à verdadeira divin­dade do homem Cristo.
A Escritura não regista, claro está, a expressão “mãe de Deus”, e muito menos a de “geradora de Deus”. Mas a sua doutrina que diz respeito à origem e à essência de Cristo contém todos os elementos necessários para assim a chamarmos. Na profecia de Isaías e na anun­ciação do anjo, o fruto concebido e gerado de Maria será o Emanuel, “o Deus conosco” e o “Filho de Deus”. O Apóstolo escreve aos Roma­nos (Rm 1,3) e aos Gálatas (Gl 4,4) que o filho de Deus foi formado ou gerado de Maria. E Isabel saúda Maria como “a mãe do meu Senhor”.

sexta-feira, abril 28, 2017

O Ressuscitado, centro de nossos pensamentos e afetos

Por Adolphe Tanquerey, “O dogma e a vida interior”, p. 34-42.

 
Jesus é a Cabeça de um corpo místico do qual nós somos membros, o nosso mediador junto do Pai, o sacerdote que oferece por nós o único sacrifício verdadeiro, o doutor que nos ensina a verdade eterna, o modelo perfeito que nos arrasta na sua esteira pelos caminhos da perfeição e da felicidade sem fim. Ele é tudo para nós.
A) Se assim é, não haverá razão para dizer que Ele tem de ser o centro de todos os nossos pensamentos? Em quem poderíamos nós pensar senão naquele que é tudo para nós? É isto mesmo o que fazem todos aqueles que meditam no Evangelho.
Com efeito, que podem eles procurar nesse livro divino, senão Cristo – esse mesmo Cristo que faz as delícias do seu coração? Com que amor eles percorrem essas páginas que fielmente evocam os fatos e os gestos do seu divino Salvador! Para eles, a doutrina e as virtudes de Cristo são um verdadeiro alimento e constituem a medida de tudo. Quando têm de formular um juízo sobre qualquer ponto importante, dizem para consigo: Qual é a doutrina do Mestre a este respeito? É que eles sabem que os nossos juízos, para serem verdadeiros, devem estar de acordo com os daquele que é a verdade infalível.
Quando querem orar, pensam instintivamente naquele que, sendo o grande Religioso do Pai, é também o único que pode dar a Deus a glória devida, e unem-se a Cristo para adorá-lo e pedir graças. Vão para o trabalho? Lembram-se de que Jesus auxiliou sua mãe nos humildes cuidados da casa e trabalhou com as suas mãos na pobre oficina de Nazaré. Se fazem alguma visita, se conversam com o próximo, não esquecem que Jesus vive no coração dos nossos irmãos como no nosso, e é com Ele que conversam na pessoa do próximo.
B) Deste modo, Jesus vai-se tornando o centro dos nossos afetos. Com efeito, como pensar em Jesus sem o amar? Não é Ele a beleza e a bondade infinitas? Não sintetiza na sua pessoa todas as perfeições da divindade e todos os encantos da mais pura humanidade? Todas as beldades humanas empalidecem ao lado da sua infinita beleza! Depois que conheci a Jesus Cristo, dizia Lacordaire, nada me pareceu bastante belo para merecer um olhar de concupiscência.
Se os Apóstolos no Tabor, diante da humanidade de Cristo transfigurado, ficaram tão arroubados de admiração que exclamaram: É bom estarmos aqui (Mt. 10, 7), quanto mais exaltados não ficaremos nós em face da beleza sobre-humana que resplandece em Jesus ressuscitado!
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