quinta-feira, janeiro 17, 2019

A disposição para cair em combate

Por Josef Pieper, “Virtudes fundamentais”, p. 84 a 86.
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A fortaleza implica vulnerabilidade; sem essa vulnerabilidade, não existe sequer a possibilidade de fortaleza. Um anjo não pode ser forte, porque não é vulnerável. Ser forte significa ter capacidade para receber um ferimento. O homem pode ser forte porque pode ser ferido. 
Entende-se por ferimento toda a violação da incolumidade natural contrária à nossa vontade, toda a ofensa ao ser que em si próprio descansa, tudo o que contraria a nossa vontade, tudo o que é de qualquer modo negativo, tudo o que magoa e prejudica, atemoriza e oprime. 
O ferimento mais profundo e extremo é, porém, a morte. E mesmo os ferimentos não mortais são imagens da morte; esta extrema violação, este último “Não” reflete-se e intervém em todos os anteriores. 
Por isso, toda a fortaleza se relaciona com a morte; toda a fortaleza tem diante de si a morte. No fundo, a fortaleza é uma disposição para morrer, ou melhor, uma disposição para cair, isto é: para morrer em combate. 
Todo o ferimento do ser natural refere-se à morte. Portanto, todo o ato de fortaleza procede de uma disposição para morrer, mesmo que, visto de fora, pareça estar longe de qualquer pensamento acerca desse novíssimo. Um “ato de fortaleza” que não desça até aos abismos profundos da disposição para cair, tem as raízes apodrecidas e não pode ser realmente eficaz. 
A disposição demonstra-se pela aplicação, e a fortaleza aperfeiçoa-se pelo testemunho de sangue. O martírio é o maior e o mais autêntico ato de fortaleza. A disposição para o martírio é a raiz essencial de toda a fortaleza cristã. 

quinta-feira, janeiro 10, 2019

Pobreza


Por Gabriel de Santa Maria Madalena, “O caminho da oração”, p. 16 a 18.
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Os mendicantes fundamentam a sua vida no princípio da pobreza para estarem livres e prontos a servir as almas onde quer que seja; por outro lado, o simples fato de receberem do povo os meios de subsistência cria-lhes uma obrigação de apostolado.
Existe, pois, um nexo profundo entre o apostolado e a pobreza. E eis o motivo pelo qual o segundo capítulo do Caminho, que a Santa dedica ao estudo dessa virtude, não nos parece uma digressão incrustada entre os dois que apresentam o ideal apostólico.
Aqui Santa Teresa lembra o conceito evangélico, tece-lhe o elogio, desdobra-o nas suas consequências.
Recordemos o meio que o Santo Evangelho indica para encontrar a pobreza, que é o mesmo que dizer libertar-se de todas as coisas: Vende tudo o que tens, e distribui-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu: e vem, e segue-me.[1]
Mas isso não é tudo.... Não é mais do que um aspecto da santa pobreza. Os bens materiais dão uma garantia para o futuro e não se pode deixar a segurança da vida sem a substituir por qualquer coisa reconhecidamente melhor: essa coisa é a confiança em Deus, na Sua Providência. Se uma pessoa não esperasse tudo de Deus e não estivesse convencida de que é Deus que cuida dela, não poderia deixar tudo o que tem; e, renunciando às garantias para o futuro, procederia tolamente. É por isso que o Senhor, quando no Santo Evangelho nos ensina a pobreza, começa por falar das aves e dos lírios do campo: Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros e, contudo, o vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não sois vós muito mais do que elas? Oh, sem dúvida, muitíssimo mais! E por que vos inquietais pelo vestido? Considerai como crescem os lírios do campo... (Mt 6, 25-34).  Santa Teresa crê em tudo isto, está convencida de que o Senhor cuidará das suas filhas se forem boas e andarem absorvidas nos interesses de Deus, e recomenda por isso que não se importem com a benevolência das pessoas.

quinta-feira, janeiro 03, 2019

O crescimento da vida da graça pelos sacramentos


Por R. Garrigou-Lagrange, “Três idades da vida interior”, Tomo I, p. 113 a 115.

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O crescimento da vida da graça pelos sacramentos

Por fim, é preciso lembrar aqui que a caridade e as outras virtudes infusas, bem como os sete dons, aumentam em nós pelos sacramentos; assim, o justo cresce no amor de Deus pela absolvição, e sobretudo pela comunhão.
Enquanto o mérito e a oração do justo obtêm os dons de Deus ex opere operantis, na medida da fé, da piedade e da caridade daquele que merece, os sacramentos produzem a graça ex opere operato naqueles que não lhe colocam obstáculo; isto é, eles a produzem por si mesmos, pelo fato de serem instituídos por Deus para nos aplicar os méritos do Salvador; eles produzem a graça independentemente das orações e dos méritos, seja do ministro que os confere, seja daquele que os recebe. É por isso que um mau padre, e mesmo um infiel, pode ministrar validamente o batismo, desde que tenha a intenção de fazer o que faz a Igreja ao batizar.
Mas, se os sacramentos produzem por si mesmos a graça naqueles que não lhe colocam obstáculo, eles a produzem mais ou menos abundantemente, segundo o fervor daquele que os recebe.
O Concílio de Trento (sess. 6, c. VII) diz: “Cada um recebe a justiça segundo a medida desejada para cada um pelo Espírito Santo, e segundo sua própria disposição”. Como observa São Tomás, na ordem natural, embora uma lareira produza calor por si mesma, nós nos beneficiamos tanto mais desse calor quanto mais nos aproximamos dela; da mesma forma, na ordem sobrenatural, nós nos beneficiamos mais dos sacramentos quando nos aproximamos deles com uma fé mais viva e um maior fervor de vontade.
Sob este ponto de vista, segundo São Tomás e muitos outros teólogos antigos, conforme o pecador recebe a absolvição com maior ou menor arrependimento, ele recupera ou não o grau de graça que havia perdido. “Pode acontecer”, diz São Tomás[1], “que a intensidade do arrependimento no penitente seja superior ou igual ou inferior ao grau de graça que ele havia perdido; e então ele recupera a graça, seja em um grau superior, seja no mesmo grau, seja em um grau inferior”.

terça-feira, dezembro 25, 2018

Do nascimento de Jesus Cristo


Por Santo Afonso Maria de Ligório, “Encarnação, Nascimento e Infância
de Jesus Cristo”, p. 137 a 142

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DO NASCIMENTO DE JESUS CRISTO

PARA A NOITE DE NATAL


“Anuncio-vos uma grande alegria; nasceu-vos hoje um Salvador.”
(Lc 2,10)



Anuncio-vos uma grande alegria. Eis o que disse o anjo aos pastores de Belém, e eis também o que vos tenho dizer hoje, almas fiéis: “Trago-vos uma nova de grande alegria”. E que nova de maior alegria pode dar-se a pobres exilados, condenados à morte, do que a da vinda do Salvador, que quer não só livrá-los da morte, mas também obter a sua entrada na pátria?
Essa é precisamente a nova que vos trago: Nasceu-vos hoje um Salvador. Nesta noite nasceu Jesus Cristo, e nasceu por vós, a fim de vos livrar da morte eterna e de vos abrir o céu, vossa pátria, de onde vos tinham banido os vossos pecados.
Mas a fim de que o reconhecimento para com esse Redentor recém-nascido vos decida a amá-lo doravante, permiti que vos ponha ante os olhos as circunstâncias desse acontecimento, dizendo-vos onde nasceu, como nasceu, e onde se acha esta noite; podereis então vir lançar-vos a seus pés e agradecer-lhe tão grande benefício e tanto amor. Mas antes peçamos a Jesus e Maria que nos iluminem.


I

Permiti que antes vos conte em poucas palavras a história do nascimento desse Rei do universo, que desceu do céu para a vossa salvação. Otávio Augusto, imperador romano, querendo conhecer as forças de seu império, mandou fazer um recenseamento geral de todos os seus súditos.
Para esse fim prescreveu a todos os governadores, e entre outros a Cirino, na Judeia, que obrigassem os habitantes de suas respectivas províncias a se fazerem inscrever cada um em seu lugar de origem e a pagarem ao mesmo tempo um tributo em sinal de sujeição.
É o que atesta São Lucas. Publicada que foi essa ordem, José obedeceu prontamente e sem esperar o parto de sua santa Esposa, o qual estava próximo. Obedeceu logo e se pôs a caminho com Maria, que levava em seu casto seio o Verbo encarnado, para se inscrever na cidade de Belém. A viagem foi longa; pois, segundo os autores, a distância era de noventa milhas, isto é, de quatro dias; foi além disso bem penosa porque foi preciso atravessar uma região montanhosa, os caminhos eram maus, era na estação dos ventos, chuvas e frio.
Quando um rei entra pela primeira vez numa cidade de seu reino, quantas honras não lhe prestam! Quantos arcos de triunfo, quantos aparatos de todo o gênero! Prepara-te, pois, ó ditosa Belém! Prepara-te para receber dignamente o teu Rei: o profeta Miqueias te anuncia que Ele vai visitar-te, esse grande Rei, que é o soberano Senhor, não só da Judeia, mas do mundo inteiro.
Saibas, diz-te o profeta, que entre todas as cidades do universo, tu és a cidade afortunada que se escolheu para lugar de seu nascimento o Rei do céu vindo à terra para reinar não sobre a Judeia, mas sobre todos os corações dos homens na Judeia e em todos os lugares: E tu, Belém Efrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá; mas de ti é que há de sair aquele que há de reinar em Israel.
Mas eis que chegou a Belém dois pobres peregrinos, José e Maria, que leva em seu seio o Salvador do mundo. Entram na cidade e apresentam-se ao oficial imperial para pagar o tributo e se inscrever na lista dos vassalos de César, lista em que amanhã será inscrito também o nome do filho de Maria, Jesus Cristo, que é o senhor de César e de todos os príncipes da terra. Mas quem os reconheceu? Quem lhes foi ao encontro para honrá-los? Quem os saudou? Quem os acolheu?

quinta-feira, dezembro 20, 2018

A sinceridade na procura


Por Francisco Faus, “Procurar, encontrar e amar a Cristo”, p. 5 a 9.
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a sinceridade na procura 

Vimos a sua estrela e viemos adorá-lo. (Mt 2, 2) 
Quem pratica a verdade vem para a luz. (Jo 3, 21) 


I. O apelo de uma estrela 

Visitantes inesperados 


Há pouco mais de dois mil anos, apareceram um belo dia em Jerusalém, sem serem esperados, três personagens imponentes e estranhos. Apresentavam um ar de nobre grandeza – com suas vestes de magnificência oriental –, unido a traços de cansaço e à poeira de muitos caminhos. 
Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: “onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,1-2). 
Como é natural, essa declaração dos três majestosos empoeirados deixou perplexos, perturbados, todos os que os ouviam. Se nós estivéssemos em Jerusalém naquele momento, também teríamos ficado aturdidos, porque o rei dos judeus – Herodes – estava lá mesmo, bem vivo no seu palácio, e nenhum herdeiro dele tinha “acabado de nascer”. 
O que houve? Vamos tentar examiná-lo. 


Homens que “querem ver” 

Por que os três amigos fizeram uma viagem tão difícil e cansativa, de terras longínquas até Jerusalém – uma empreitada que tem todas as aparências de uma loucura? Com grande simplicidade, eles o explicam: Vimos a sua estrela. Guarde esse verbo – ver –, que vai dar muito o que pensar ao longo de todas estas páginas. 
Para entender o significado exato da palavra “vimos”, é preciso fazer uma brevíssima incursão histórica. O episódio dos Magos que foram adorar Jesus Menino tem sido objeto de estudos que preenchem muitas páginas. Os mais sérios chegam à conclusão de que não se trata de uma lenda piedosa, mas de um fato, com fundamento histórico. 
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