quinta-feira, fevereiro 14, 2019

O medo


Por Fernando Sarráis, “Compreender a afetividade”
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O medo é uma emoção cuja finalidade natural é contribuir para a conservação da vida e do bem-estar, pois nos informa de perigos físicos e psicológicos, presentes e futuros. É considerado uma emoção negativa porque, enquanto dura, produz sofrimento, ou seja, é desagradável. Tem a sua origem em estímulos negativos (perigos) e com frequência produz condutas negativas (fuga, mentira, submissão).  
O medo surge quando tomamos consciência (conhecimento) de um perigo para a nossa integridade física e/ou psicológica, e imediatamente nos impulsiona a realizar alguma ação orientada a evitar ou minimizar o possível dano que esse perigo ameaça impor.  
Assim, o medo é um sinal de alarme emocional que informa à razão de que há um perigo real ou imaginário, presente ou futuro. É também um motor que nos impele a agir em defesa de nós mesmos ou dos nossos seres queridos. Portanto, o medo tem duas funções: uma informativa e outra impulsiva (ou energética).  
O medo surge quando a situação que causa sofrimento ainda não é presente, mas nos instiga a evitá-la. Quanto mais distante for o perigo, menor será o medo, mas a sua intensidade vai aumentando à medida que essa ameaça se aproxima no tempo e no espaço, e quanto mais inevitável se mostra. Quando a intensidade do medo é insuportável ou insofrível, chama-se pânico ou terror. Estes sentimentos costumam surgir diante de perigos muito graves, iminentes ou inevitáveis, e impulsionam a realizar condutas irracionais de fuga.  

O medo promove três tipos de conduta: fuga, inibição ou paralisia, e enfrentamento ou luta. A conduta que cada um toma em uma situação de medo depende da sua personalidade, pois ela determina a intensidade do medo, o tipo de perigo que o desencadeia e o modo de agir em situações de perigo. Nesse sentido, há dois tipos de personalidade que são extremos opostos: a temerosa e a temerária.  
As pessoas temerosas tendem a fugir dos perigos sempre que podem, porque lhes provocam excessivo sofrimento. Já as temerárias tendem a enfrentar todas as situações de perigo, inclusive aquelas que seriam facilmente evitáveis, pois se sentem atraídas pela intensa excitação que tais situações lhes produzem. Para estas, o perigo representa uma fuga do tédio ou do aborrecimento vital habitual derivado da baixa sensibilidade emocional que têm diante das vivências agradáveis simples, ordinárias e cotidianas. Os exemplos mais extremos de pessoas temerárias são encontrados em indivíduos com personalidade antissocial ou psicopática.  
O ser humano nasce com o conhecimento de poucos perigos, provenientes de medos naturais relacionados com a sobrevivência biológica: dor, fome, barulhos intensos, quedas, solidão. É possível deduzir que a maioria das situações de perigo são aprendidas. A consciência de que uma realidade concreta é perigosa depende das experiências precoces de sofrimento que ficam guardadas na poderosa memória afetiva de cada pessoa.  
A intensidade dos medos que uma pessoa experimenta diante dos perigos também tem a ver com o aprendizado precoce, mas a sensibilidade emocional com a qual nascemos, uma das características do temperamento, tem o papel primordial nisso. Há indivíduos que por temperamento são mais sensíveis que outros, como as mulheres são mais sensíveis que os homens.  
As pessoas geneticamente mais sensíveis sofrem mais nas experiências dolorosas e, portanto, desenvolvem medos mais intensos diante de experiências precoces de sofrimento. Essas pessoas precisam de uma educação especial para adquirir maior tolerância ao sofrimento e assim diminuir a sua reação natural de medo diante dos perigos. Se essa educação não é levada a cabo, é provável que desenvolvam um medo intenso diante de perigos normais ou diante de coisas e situações sem perigo real e se tornem, assim, pessoas medrosas. 
Há crianças que são medrosas desde muito pequenas, o que é interpretado como uma característica temperamental devida à hiper-reatividade dos centros cerebrais responsáveis pelo medo, especialmente as amígdalas5. Outras vezes, esse excesso de medo das crianças é atribuído a um aprendizado precoce ou à falta de apego afetivo aos cuidadores, que são os que dão segurança e proteção e evitam o medo. Pode também ser consequência de uma educação superprotetora que promove desde a infância conduta de evitação das situações que causam sofrimento. Como é bem sabido, os medos são vencidos quando enfrentamos as situações perigosas, e não fugindo delas.  
Ao contrário, os indivíduos de personalidade psicopática, que possuem uma base temperamental demonstrada, têm uma afetividade fria e muito pouco sensível e, por isso, diante das situações perigosas desenvolvem poucos medos e de pequena intensidade, o que os torna temerários e reincidentes nos seus maus comportamentos, apesar dos castigos e de qualquer outra tentativa de educação corretiva.  
É possível concluir que há pessoas com um medo normal, que as protege dos perigos reais; e há outras pessoas com um medo anormal, excessivo ou escasso, que as faz adoecer por ansiedades e fobias, ou que as converte em seres perigosos para si mesmos (temerários). 

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