quinta-feira, fevereiro 21, 2019

O Cristianismo não rejeita o Corpo

Por Christopher West, “Teologia do corpo para principiantes”
Clique aqui e veja o livro em nossa loja virtual.

  
   Pessoas religiosas estão acostumadas a dar maior ênfase às coisas “espirituais”. Entretanto, muitos não estão familiarizados, e muitas vezes sentem-se desconfortáveis, diante de uma ênfase no corpo. Mas isso revela uma separação muito perigosa ou um dualismo em nosso pensamento. O espírito tem certa prioridade sobre a matéria, uma vez que Deus, em Si mesmo, é puro espírito. Todavia, Deus é o autor do mundo físico e, em sua sabedoria, Ele não nos fez puro espírito. Ele nos fez espíritos encarnados: uma unidade física e espiritual.
    Viver uma “vida espiritual” como cristão nunca significa separar-se do mundo físico. Jesus estava “longe das filosofias que desprezavam o corpo, a matéria e as realidades deste mundo”, insiste o Papa Francisco. Contudo, o Papa Francisco também reconhece que tais “dualismos combalidos tiveram notável influência nalguns pensadores cristãos e desfiguraram o Evangelho” (LS 98). A TdC de São João Paulo II oferece uma correção definitiva a estas desfigurações que fizeram com que vários cristãos crescessem pensando no mundo físico (especialmente em seus próprios corpos e sexualidade) como algo mau. Esse é um antigo erro teológico chamado de maniqueísmo, e não poderia estar mais distante de uma autêntica perspectiva cristã. Na verdade, este é um ataque direto ao Cristianismo em suas raízes mais profundas. Tudo na fé cristã tem o eixo na Encarnação, no “Verbo feito carne”. Nossa religião é uma religião encarnada, e nós devemos ter muito cuidado para nunca a desencarnar. É sempre o inimigo quem deseja negar que o Cristo se encarnou (cf. 1Jo 4,2-3).

     Se quisermos redescobrir quem nós realmente somos, como observou São João Paulo II, é necessário combater alguns “hábitos inveterados” em nosso modo de pensar que vem do maniqueísmo (cf. TdC 46,1). Então, olhemos mais de perto.
Mani (ou Manichaeus), de quem a heresia recebe o nome, condenou o corpo e todas as coisas sexuais porque acreditava que o mundo material era mau. A Escritura, entretanto, é muito clara ao dizer que tudo que Deus criou é “muito bom” (cf. Gn 1,31). Este é um ponto crítico para aprofundar. Involuntariamente, com frequência nós damos ao mal muito mais peso do que ele merece, como se o demônio tivesse criado o seu próprio “mundo mal” para combater o “mundo bom” de Deus. Mas o demônio é uma criatura, não um criador. E isso significa que o demônio não tem o seu próprio barro. Tudo o que ele pode é tomar o barro de Deus (que é sempre muito bom) e deturpá-lo, distorcê-lo. É isto que é o mal: o deturpar e o distorcer daquilo que é bom. A Redenção, portanto, envolve o “reordenar” daquilo que o pecado e o mal distorceram, de modo que possamos recuperar o verdadeiro bem.
     No mundo atual, pós-revolução sexual, o pecado e o mal tem distorcido terrivelmente o significado da sexualidade e do amor erótico. Mas “a rejeição das distorções da sexualidade e do erotismo nunca deveria nos levar ao seu desprezo nem ao seu descuido [negando a sexualidade e o eros em si mesmos]”, insiste o Papa Francisco (AL 157). Esta é uma abordagem maniqueísta. E se é essa a abordagem que tomamos, é porque não superamos as mentiras do demônio. Nós caímos exatamente em sua armadilha. Seu principal objetivo é sempre separar corpo e alma. Por quê? Bem, existe uma sofisticada palavra para definir a separação de corpo e alma. Talvez você já a tenha escutado: morte. É para lá que o maniqueísmo, assim como todas as heresias, nos leva.
     A verdadeira solução para as distorções pornográficas do corpo não é a rejeição do corpo, mas a redenção do corpo – o “reordenar” daquilo que o pecado distorceu de modo que possamos recuperar a verdadeira glória, o esplendor, e o inestimável valor do corpo. São João Paulo II resumiu a crucial distinção entre as abordagens do Maniqueísmo e do Cristianismo sobre o corpo como segue: se a mentalidade maniqueísta atribui um “anti-valor” ao corpo e ao sexo, o Cristianismo ensina que o corpo e o sexo “permanecem sempre um ‘valor não suficientemente apreciado’” (TdC 45,3). Em outras palavras, se o maniqueísmo diz “o corpo é mau”, o Cristianismo diz “o corpo é tão bom que ainda precisamos aprofundá-lo”. O problema com nossa cultura saturada de sexo, então, não é que ela supervaloriza o corpo e o sexo. O problema é que é ela os tem subvalorizados; tem falhado em ver quão incrivelmente valorosos o corpo e o sexo de fato são.
Nós devemos dizer isso em voz alta, clara e repetidamente até que isso entre em nós e cure nossas feridas: o Cristianismo não demoniza o corpo; o Cristianismo diviniza o corpo! Pois Cristo elevou o corpo humano às maiores alturas da vida divina! Como o Catecismo proclama: “A carne é o eixo da salvação. Cremos em Deus, que é o Criador da carne; cremos no Verbo feito carne para redimir a carne; cremos na ressurreição da carne, consumação da criação e da redenção da carne” (CIC 1015).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...