quinta-feira, janeiro 10, 2019

Pobreza


Por Gabriel de Santa Maria Madalena, “O caminho da oração”, p. 16 a 18.
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Os mendicantes fundamentam a sua vida no princípio da pobreza para estarem livres e prontos a servir as almas onde quer que seja; por outro lado, o simples fato de receberem do povo os meios de subsistência cria-lhes uma obrigação de apostolado.
Existe, pois, um nexo profundo entre o apostolado e a pobreza. E eis o motivo pelo qual o segundo capítulo do Caminho, que a Santa dedica ao estudo dessa virtude, não nos parece uma digressão incrustada entre os dois que apresentam o ideal apostólico.
Aqui Santa Teresa lembra o conceito evangélico, tece-lhe o elogio, desdobra-o nas suas consequências.
Recordemos o meio que o Santo Evangelho indica para encontrar a pobreza, que é o mesmo que dizer libertar-se de todas as coisas: Vende tudo o que tens, e distribui-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu: e vem, e segue-me.[1]
Mas isso não é tudo.... Não é mais do que um aspecto da santa pobreza. Os bens materiais dão uma garantia para o futuro e não se pode deixar a segurança da vida sem a substituir por qualquer coisa reconhecidamente melhor: essa coisa é a confiança em Deus, na Sua Providência. Se uma pessoa não esperasse tudo de Deus e não estivesse convencida de que é Deus que cuida dela, não poderia deixar tudo o que tem; e, renunciando às garantias para o futuro, procederia tolamente. É por isso que o Senhor, quando no Santo Evangelho nos ensina a pobreza, começa por falar das aves e dos lírios do campo: Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros e, contudo, o vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não sois vós muito mais do que elas? Oh, sem dúvida, muitíssimo mais! E por que vos inquietais pelo vestido? Considerai como crescem os lírios do campo... (Mt 6, 25-34).  Santa Teresa crê em tudo isto, está convencida de que o Senhor cuidará das suas filhas se forem boas e andarem absorvidas nos interesses de Deus, e recomenda por isso que não se importem com a benevolência das pessoas.

Devemos esperar tudo do Senhor, rodeá-Lo do nosso amoroso serviço; Ele é aquela rocha inabalável sobre a qual devemos fundar toda a nossa vida e todo o nosso futuro. Só armados duma tal confiança teremos a coragem de ser pobres, isto é, libertos de qualquer preocupação quanto às necessidades da vida.
Insiste particularmente sobre a liberdade de espírito a respeito do alimento. Acima de tudo, não haja preocupação nenhuma em saber se haverá ou não haverá alimento. Depois disso, não vejo que ainda falte alguma coisa a dizer. Ela realmente pede que não se obedeça nunca àqueles pequenos impulsos naturais que tão profundamente se encontram enraizados em nós e que surgem com tanta facilidade. É difícil que, nesse ponto, a alma chegue a uma renúncia tão perfeita que não se preocupe nunca com as suas necessidades naturais — e é fácil, pelo contrário, que, duma maneira ou doutra, tal preocupação volte a manifestar-se: os pretextos e as razões são tão sutis que a alma os aceita sem quase reparar nos perigos que eles escondem. É preciso ter a humildade de recomeçar e recomeçar sempre, para chegar a libertar-se totalmente de toda a solicitude quanto ao sustento e às necessidades da vida.
Somos muito mais do que os lírios do campo e muito mais do que as aves do Céu e sabemos que poderemos esperar tudo de Deus. Conhecemos o nosso Pai celeste e a luz da nossa fé deve acompanhar-nos neste caminho até as últimas consequências.

*** 

Cheia de entusiasmo, Santa Teresa cantou os louvores da pobreza. Confessa tê-lo feito sem se aperceber disso, e acrescenta: “mas aquilo que disse seja dito”. Enquanto viver — diz ela — não deixará nunca de repetir o que vem inculcando, mas é bom que esteja escrito a fim de que as suas filhas possam recordá-lo ainda depois da sua morte. 
Canta os louvores da pobreza e expõe também as suas vantagens: a pobreza dá pleno domínio sobre o mundo e sobre todas as coisas temporais. 
Na vida humana avaliam-se a distinção e a honra segundo a riqueza que o indivíduo possui. Sem dúvida, a dignidade que nos dias de hoje começa a atribuir-se ao trabalho marca um nítido progresso humano: as pessoas deveriam ser respeitadas menos pelas suas posses do que pela sua capacidade de trabalho. Mas a nossa sociedade sofre ainda muito deste mal: a honra acompanha o dinheiro, e daí o afã de o encontrar para abrir caminho no mundo. E, desse modo, a vida humana vai cada vez mais se assimilando às coisas materiais.  
Temos, inegavelmente, necessidade de isenção em face das coisas terrenas e, com razão, entoa a Santa os louvores da pobreza: nesta virtude, vê ela uma espécie de proteção da vida religiosa, da vida de perfeição; a prática dessa virtude remove tudo o que poderia entravar o “lançamento” para Deus. Tantas vezes as ordens religiosas têm perdido o seu fervor só porque atenuaram a observância da pobreza. 
Por fim, a Santa afirma que a pobreza do mosteiro é uma ocasião para praticar aquele apostolado de que tinha falado no primeiro capítulo. As religiosas devem coadjuvar os outros por meio da oração, e dos outros hão de receber auxílio sem o procurarem. O Senhor lhes mandará o necessário à vida por meio dos benfeitores; deverão, pois, estar gratas ao Senhor que moveu os corações deles, e retribuir-lhes com aquele gênero de apostolado, todo feito de oração e de obras meritórias, que será a fonte do seu maior bem espiritual. É uma prática tradicional nos mosteiros teresianos, todas as noites, terminada a ceia, rezar em comum pelos benfeitores depois de ter anunciado as esmolas. Até nisso Santa Teresa se mostra sobremaneira delicada e recomenda que se reze pelo bem espiritual daquelas pessoas que oferecem ajudas materiais. Procurando o bem-estar das suas almas, dar-se-á também a Deus a glória que daí deriva. 




[1] Conforme Mt 19,21; Mc 10,21; Lc 18,22.

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