quinta-feira, janeiro 03, 2019

O crescimento da vida da graça pelos sacramentos


Por R. Garrigou-Lagrange, “Três idades da vida interior”, Tomo I, p. 113 a 115.

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O crescimento da vida da graça pelos sacramentos

Por fim, é preciso lembrar aqui que a caridade e as outras virtudes infusas, bem como os sete dons, aumentam em nós pelos sacramentos; assim, o justo cresce no amor de Deus pela absolvição, e sobretudo pela comunhão.
Enquanto o mérito e a oração do justo obtêm os dons de Deus ex opere operantis, na medida da fé, da piedade e da caridade daquele que merece, os sacramentos produzem a graça ex opere operato naqueles que não lhe colocam obstáculo; isto é, eles a produzem por si mesmos, pelo fato de serem instituídos por Deus para nos aplicar os méritos do Salvador; eles produzem a graça independentemente das orações e dos méritos, seja do ministro que os confere, seja daquele que os recebe. É por isso que um mau padre, e mesmo um infiel, pode ministrar validamente o batismo, desde que tenha a intenção de fazer o que faz a Igreja ao batizar.
Mas, se os sacramentos produzem por si mesmos a graça naqueles que não lhe colocam obstáculo, eles a produzem mais ou menos abundantemente, segundo o fervor daquele que os recebe.
O Concílio de Trento (sess. 6, c. VII) diz: “Cada um recebe a justiça segundo a medida desejada para cada um pelo Espírito Santo, e segundo sua própria disposição”. Como observa São Tomás, na ordem natural, embora uma lareira produza calor por si mesma, nós nos beneficiamos tanto mais desse calor quanto mais nos aproximamos dela; da mesma forma, na ordem sobrenatural, nós nos beneficiamos mais dos sacramentos quando nos aproximamos deles com uma fé mais viva e um maior fervor de vontade.
Sob este ponto de vista, segundo São Tomás e muitos outros teólogos antigos, conforme o pecador recebe a absolvição com maior ou menor arrependimento, ele recupera ou não o grau de graça que havia perdido. “Pode acontecer”, diz São Tomás[1], “que a intensidade do arrependimento no penitente seja superior ou igual ou inferior ao grau de graça que ele havia perdido; e então ele recupera a graça, seja em um grau superior, seja no mesmo grau, seja em um grau inferior”.

Pode acontecer que um cristão que tinha cinco talentos e os perde por um pecado mortal, não tenha em seguida senão uma contrição correspondente a dois talentos; nesse caso, ele recupera a graça em um grau consideravelmente inferior ao que tinha antes. Mas também pode acontecer que, em consequência de um arrependimento profundo, ele a recupere em um grau mais elevado, como foi sem dúvida o caso de Pedro quando chorou amargamente logo depois de ter negado Nosso Senhor[2]. Isso tem uma grande importância em espiritualidade para aqueles que vêm a cair durante a sua ascensão; eles podem levantar-se logo em seguida com fervor, e então continuar a ascensão a partir do ponto a que tinham chegado. Mas também podem levantar-se tardiamente e sem energia; neste caso ficarão a meio caminho, ao invés de continuar a ascensão.

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Desses princípios também se segue que uma comunhão fervorosa vale mais do que muitas comunhões sem fervor juntas. Quanto mais nos aproximamos com uma fé viva, uma esperança firme, um amor ardente, um fervor de vontade, da fonte de graças que é Nosso Senhor presente na Eucaristia, mais nos beneficiamos de sua influência por graças de luz, de amor e de força.
A comunhão de um São Francisco, de um São Domingos, de uma Santa Catarina de Sena, terá sido em certos dias extremamente fervorosa e proporcionalmente frutuosa; sua alma ia ao encontro do Salvador totalmente dilatada, para receber dele com abundância, e mesmo com superabundância, e em seguida doar-se no apostolado a outras almas.
Mas é possível que, ao contrário, o fruto da comunhão seja mínimo, quando nos aproximamos da Mesa sagrada com as disposições apenas suficientes para não impedir o efeito do sacramento. Isso deve levar-nos a refletir seriamente, se não há em nós um verdadeiro progresso espiritual depois de anos de comunhão frequente ou cotidiana[3].
Pode ser que, devido a um crescente apego a determinado pecado venial, o efeito de nossa comunhão cotidiana seja cada vez mais fraco, como o movimento de uma pedra lançada verticalmente para o alto é uniformemente retardado, até que a pedra caia. Deus permita que tal não seja o nosso caso!
Deveria, ao contrário, haver em nós uma generosidade suficiente para que se realize esta lei superior que se constata na vida dos santos: cada uma de nossas comunhões, considerando que ela deve não somente conservar, mas aumentar em nós a caridade, deveria ser substancialmente mais fervorosa e mais frutuosa que a precedente; pois cada uma, aumentando em nós o amor a Deus, deve dispor-nos para receber Nosso Senhor no dia seguinte com um fervor de vontade não apenas igual, mas superior. No entanto, muitas vezes a negligência, a tibieza, impedem a aplicação em nós desta lei, da qual a lei da atração progressiva dos corpos não é senão um símbolo. Os corpos se atraem tanto mais quanto mais se aproximam. As almas devem caminhar tanto mais rapidamente para Deus quanto mais se aproximam dele e mais são atraídas por Ele.
Compreendemos assim o sentido da palavra do Salvador: “Si quis sitit veniat ad me et bibat, et flumina de ventre ejus fluent aquae vivae. Se alguém tem sede, venha a mim e beba, e do seu seio jorrarão rios de água viva” (Jo 7,37), os rios de água viva que vão desaguar no oceano infinito que é Deus, conhecido como ele se conhece e amado como ele se ama, por toda a eternidade.



[1] III, q. 89, a. 2.
[2] Os méritos mortificados pelo pecado mortal são recuperados, assim, na medida do fervor do penitente, e revivem verdadeiramente, com seu direito a uma recompensa essencial especial. Se, por exemplo, um cristão que serviu generosamente ao Senhor durante setenta anos vem a pecar mortalmente, e se converte antes de morrer com uma contrição correspondente a cinco talentos, ele terá no céu um grau maior de glória do que outro que tenha vivido mal toda a sua existência, e que, antes da morte, tenha tido uma contrição correspondente a cinco talentos. Os grandes méritos da vida do primeiro revivem, e, como são sobretudo um direito à vida eterna, à bem-aventurança essencial, esse direito revive com eles. Vemos também nisso a intervenção da infinita misericórdia. Cf. BILLUART, Cursus theol., de poenitentia, diss. III, c. V, de reviviscentia meritorum per poenitentiam. 
[3] É preciso, porém, levar em conta o fato de que a alma que progride conhece melhor a sua miséria, por compreender melhor a grandeza de Deus. 

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