quinta-feira, janeiro 31, 2019

Força e constância

São Pedro Julião Eymard, "Escritos espirituais", volume I, p. 15 a 18.
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Queremos alcançar a recompensa eterna. Para isso tendem todos os nossos esforços, quer tenhamos permanecido no mundo, quer abraçado o estado de perfeição. A vocação essencial de todo cristão é a de trabalhar para ser santo. 
O que nos deve assegurar a vitória é a força; a piedade é apenas leite. O repouso prolongado enerva; o exercício torna combativo e forte. Toda piedade que não sabe empregar a força é truncada. 
Diz a lenda que Hércules era forte porque, na juventude, se alimentara com medula de leões. O cristão alimenta-se com a medula de Deus, com a Eucaristia: deve ser forte. 

*** 

Há três espécies de força. 
A primeira é uma força brutal, a empregar contra as paixões. Não deve basear-se em discussões. Quem discute com o sedutor, já está perdido, pois consente em conferenciar com ele. 
Tal força, é preciso empregá-la contra si e contra o mundo. Deve ser intolerante, cruel, como o ensina Jesus Cristo, ao dizer que devemos romper toda relação com a carne e o sangue, com tudo quanto possa constituir perigo para a nossa alma. Longe de nós a tolerância; não se deve tê-la com o inimigo. “Não vim trazer a paz, mas a espada” (Mt 10,34), diz o Salvador: espada que separará o filho de seu pai, a filha de sua mãe, o homem de si mesmo. 
Jesus Cristo foi o primeiro a puxar da espada contra os fariseus, os sensuais e os hipócritas. Lançou-a no mundo, e dela se devem apoderar os cristãos: basta um pedaço, tomai-o; é uma espada bem temperada no sangue de Jesus Cristo e no fogo do Céu. “Suporta os trabalhos”, diz São Paulo a seu discípulo Timóteo, “como um bom soldado de Jesus Cristo” (2Tm 2,3). 
Para o Céu, Nosso Senhor quer homens violentos, implacáveis, escaladores, capazes de tudo: “O reino dos céus adquire-se à força, e os violentos arrebatam-no” (Mt 11,12). “Se alguém vem a mim, e não aborrece seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e até a sua vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26). Trata-se, evidentemente, do ódio ao pecado e não às pessoas. Portanto, guerra contra si próprio, contra as paixões, os sete pecados capitais ou as três concupiscências, o que vem a dar no mesmo. É preciso cortar até ao coração, até à raiz; e jamais se termina. 
Oh! sabeis que é violento esse combate! É preciso recomeçar sempre, e a vitória da véspera não assegura a do dia vindouro. Vencedor por um momento, acorrentado no seguinte. Descansou-se: é o suficiente para preparar uma derrota. Só serão verdadeiros vencedores os que jamais cessam de combater. 

É preciso escalar o Céu, tomá-lo de assalto. Custa mais dar o primeiro golpe que alcançar a vitória definitiva. Há pessoas que, no seu proceder, acham-se em perpétua contradição com as próprias palavras: estão dominadas pelas paixões. Considerai Herodes, escutando S. João Batista enquanto lhe fala do reino de Deus em geral; assim que o Precursor ataca sua paixão impura, age como louco, esquece tudo e manda matar S. João. 
No mundo, há muitas vocações religiosas; mas, para responder ao chamado de Deus, seria preciso dar um grande golpe. Não se tem essa coragem. O fundo de nossa natureza é a covardia. O próprio orgulhoso é o mais covarde de todos: quer parecer livre, mas, na realidade, está acorrentado. 
Enfim, tomastes a espada de Nosso Senhor. Com ela, cortastes o empecilho. Alcançastes uma primeira vitória. Está bem; mas é preciso continuar intrepidamente a luta. 
Tendes que combater as más paixões. No mundo, tudo respira o mal: o ar, de certo modo, fá-lo entrar em vós; os olhos, os sentidos vo-lo apresentam. Diz-se que os maus sentem por instinto os seus iguais; também os bons podem sofrer a influência dos maus, cada qual segundo o seu ponto fraco. 

*** 

Além dessa força brutal contra o mal, torna-se necessária uma força de paciência na prática do bem: paciência para consigo mesmo. 
Passado o Mar Vermelho, entoai um cântico de vitória. Mas é preciso ter paciência para atravessar o deserto. Os judeus não tiveram essa constância e revoltaram-se contra Deus. 
Pois bem! lembrai-vos de que a verdadeira força não é a que dá o grande golpe para repousar em seguida; é a que continua a combater e defender-se cada dia. 
Tal força consiste na humildade que não desanima e não se rende. Reconhece-se a própria fraqueza, confessa-se ter caído, mas olha-se para o Céu e implora-se o auxílio de Deus. Tem-se então a força do poder divino. A tartaruga da fábula chegou antes da lebre. 
O homem laborioso, que trabalha diariamente, sem descanso, chega mais depressa — mesmo se oprimido por mais paixões e defeitos — que o possuidor de mais virtudes, querendo repousar durante o trabalho. Por isso, serão derrotados os que desprezam os pequenos combates cotidianos, esperando as grandes batalhas para entrar em luta. 
O mesmo acontece a uma jovem vocação que não se estabelece na paciência; esgota-se desde os primeiros dias. Querer-se-ia acabar, o mais depressa possível, com os defeitos, para estar livre. No fundo, embora não se confesse, é preguiça: quer-se a possibilidade de repousar. 
A impaciência é a tentação ordinária dos que governam; tem origem no orgulho e na preguiça. Procura-se estar livre de um assunto já tratado e resolvido interiormente. Consultam-vos; respondeis com impaciência porque já sabeis o que vos querem dizer. Pouco vos importa que precise de luz quem vos interroga. 
Ao contrário, o homem paciente escuta, vê a dificuldade, considera-a e responde com precisão. Espera a graça e dá-lhe tempo para entrar. 
Nosso Senhor, enviando os Apóstolos a pregar o Evangelho no mundo, recomenda-lhes especialmente a paciência: “É pela vossa constância que alcançareis a vossa salvação” (Lc 21,19). 
Quanto a nós, precisamos também dessa paciência, a fim de batalhar por toda a vida. Sem isso, onde se encontraria a doçura, a esperança, o mérito? É na paciência, na constância, que daremos muito fruto (Lc 8,15). 
É muito difícil ser paciente de maneira contínua, todos os dias, até o fim da vida, em toda circunstância. Sim! o que se vos pede é a fidelidade constante no sacrifício. Um ato de paciência é relativamente fácil de fazer; mas ser forte e paciente num combate incessante, tão prolongado quanto a vida, eis o penosíssimo. 
O bom Deus sempre nos reconduz ao começo; desfaz sempre, se é possível dizê-lo, o nosso trabalho. Para Ele, nada é bastante perfeito. O santo homem Jó vê que tudo lhe tiram; mas conserva a paciência, penhor de sua coroa: “Em todas essas provações, Jó não pecou, nem disse coisa alguma insensata contra Deus” (Jó 1,22). 
No combate cotidiano, a alma é tentada a dizer: isso não vai, jamais irá; sente-se levada ao desânimo. O demônio se aproveita de nossas impaciências. Examinai-vos: eis a causa da maioria de nossos pecados interiores. Acha-se penoso não triunfar; se possível, abandonar-se-ia tudo. A paciência, humildade do amor de Deus, faz dizer: nada posso por mim mesmo; mas “tudo posso n’Aquele que me conforta” (Fl 4,13). Eu nada, a graça de Deus tudo. 
Portanto, guardai-vos cuidadosamente do desânimo, fonte de quase todas as nossas faltas. 

*** 

À paciência consigo, de que acabamos de falar, é preciso acrescentar a paciência com Deus. É necessário até ser mais paciente com Deus que consigo. 
No Evangelho, lê-se que toda árvore que dá fruto será podada para que dê mais ainda (Jo 15,2). Na aparência, maltratam-na, tiram-lhe a beleza. 
É pelas tentações que Deus purifica o religioso, o santo. Quando se julga ir bem, é comum que paremos. O bom Deus, porém, quer que digamos sempre: “Mais ainda, avante!” É tão agradável ouvir dizer que se ama o bom Deus! Principalmente quando Ele no-lo diz e no-lo faz sentir. Com essa satisfação, julgando-se ter a aprovação do Senhor, nada mais se teme. 
Mas, se Deus Se oculta, julga-se que deixou de amar-nos, que está contra nós, que nos abandona; sente-se a tentação de deixar tudo; é para desorientar. Julga-se estar condenado, e eis o que mais apavora. É preciso ter passado por isto para o compreender. 
Tal estado, Deus o permite para nos purificar. Estragamos tudo quanto tocamos: com efeito, se nos dirigem uma boa palavra, julgamos merecê-la e com isso nos coroamos. Era um estímulo à nossa fraqueza e julgamos que era uma verdade. Íamos fazer de nós o nosso fim: Deus não o pode permitir. Tira-nos então a paz e coloca-nos em guerra para que trabalhemos. Eis o momento da força e da paciência; pois as provações que o bom Deus nos faz suportar diretamente são mais dolorosas que as provenientes das criaturas. 
Sim, é preciso armar-se de paciência com Deus. É preciso dizer-Lhe e repetir-Lhe: Nada posso, ó meu Deus, mas “esperaria em Vós, ainda que me matásseis” (Jó 13,15). 
É preciso que o Bom Deus nos faça morrer quanto ao velho homem, para que o homem espiritual possa viver e comunicar-se diretamente com Ele. 
Vamos, considerai isso, porque as provas vos chegarão. Sabei esperar o momento de Deus. Tende paciência; deixai que amadureçam as graças divinas. Foi assim que os Santos mereceram a recompensa: “O atleta não é coroado, senão depois que combateu segundo as regras” (2Tm 2,5). 





[1] Instrução de retiro. Paris, 31 de dezembro de 1867. 

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