quinta-feira, janeiro 24, 2019

A alma da ação


Por Joseph Schrijvers, “A Boa vontade”, p. 31 a 35
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A alma da ação

Aquele que simplificou sua tarefa, reduzindo toda a sua vida à unidade do momento presente, é capaz de dar à ação presente toda a sua atenção e toda a sua energia. Entretanto, isto não basta.
Executar uma obra fielmente, acabá-la integralmente, não é senão o elemento material da boa ação. Este elemento material deve ser vivificado, transformado e de algum modo edificado pela pureza de intenção.
Mas qual é essa intenção? É o amor. Em cada uma de suas ações a alma fiel quer testemunhar a Deus que ela ama. Sabe, aliás, que nenhum ato tem valor verdadeiro senão em virtude desta divina Caridade, que sem o amor a obra não é senão corpo sem alma, organismo sem vida.
Esta intenção de amar a Deus, que acompanha a alma em cada uma das suas ocupações cotidianas, pode revestir-se de muitas formas e exprimir-se em diversas fórmulas. Amar a Deus é querer fazer a Sua divina vontade (cf. Jo 9,31), abandonar-se à Sua ação, conformar-se à ordem divina, viver na verdade (cf. 3Jo 4); amar a Deus é procurar Sua glória (cf. 1Cor 10,31), trabalhar em fazê-Lo conhecido, em estender seu Reino (cf. Mt 6,10); amar a Deus é ser homem do dever, homem sobrenatural, é querer dar prazer a Deus, querer fazê-Lo esquecer as ingratidões dos homens; amar a Deus é esforçar-se em imitar Jesus Cristo (cf. Rm 8,29), em transformar-se Nele (cf. Gl 2,20), em revestir-se de Sua divina Pessoa (cf. Gl 3,27), em unir-se mais intimamente a Seu Corpo Místico (cf. 1Cor 12,27), em dedicar-se à Sua obra (cf. Jo 4,34), em enraizar-se na Sua caridade (cf. Ef 3,17).
As fórmulas variam, mas o sentido permanece o mesmo. Através de todas as suas ações, a alma ama seu Deus, trabalha com intuito de manifestar-Lhe seu apego e de conformar-se ao Seu divino beneplácito. Eis aí o segredo da santidade.
Tocamos aqui a base mesma do trabalho da perfeição. É aqui que se faz a separação entre as almas heroicas e as almas medíocres: todas são animadas de boa vontade, todas têm um certo número de atos iguais a fazer cada dia. Mas, enquanto algumas acumulam em poucos anos imensos tesouros e parecem voar para a santidade, outras avançam penosamente, arrastando-se sobre a estrada que conduz à perfeição.
De onde vem essa diferença?

Umas amam sem cessar, purificam sem interrupção sua boa intenção, não perdem ocasião de lançar para o coração de Jesus uma seta inflamada. As outras fazem maquinalmente seu trabalho cotidiano, apegam-se ao superficial da obra, contentam-se com executar a ação prescrita; sua intenção é frouxa e não ultrapassa a criatura, não se eleva até Deus, não anima, não vivifica.
Ter a intenção de amar a Deus em todas as ações do dia e retomá-la cada vez mais vivamente, não pelo esforço, mas por uma vigilância tranquila: esse deve ser o fim constante de nossos esforços.
O ideal seria manter o espírito e o coração fixados em Deus de maneira atual, durante todas as ocupações, mas, em regra geral, uma tal intenção ultrapassa as nossas fracas forças. Isso porque não estamos no céu, levamos penosamente nossa existência aqui na terra. As distrações e as preocupações assaltam-nos de todos os lados. Por isso não somos obrigados a alcançar este ideal. Basta que tendamos para ele, com um generoso e tranquilo ardor, resignando-nos, neste meio tempo, a perder Deus de vista o menos possível.
Muitas almas aspiram a pensar sem cessar em Deus durante seu trabalho, mas nem sempre conseguem. É necessário que elas saibam que nossa alma está realmente unida a Deus, mesmo se não pensamos nEle o tempo inteiro.
O ato pelo qual a alma se une a Deus e se propõe a tudo fazer por Seu amor é passageiro por sua natureza, porém sua virtude subsiste intacta, sua influência perdura e, graças a ela, a vontade permanece fixa em Deus mesmo durante o desvio da inteligência, das divagações da imaginação e do acúmulo de ocupações.
No jardim de nossa alma, reservamos para Deus a árvore mais bela: a nossa vontade, com todos os frutos que tem ou terá no futuro. Renovamos essa doação todas as vezes que o nosso pensamento se volta para Deus. Todos os frutos desta árvore, todos os atos de nossa boa vontade são, pois, propriedade de Deus. Mil vezes Lhe havemos tudo abandonado.
Não é menos verdadeiro que a alma amante tende continuamente a dar-se a Deus de maneira atual com tudo que possui: nunca quisera perder Deus de vista; aspira a penetrar nEle de maneira consciente a cada instante, a se fixar nEle, vivendo de Sua vida, respirando, de algum modo, por Ele, matando a sede na fonte da divina Caridade, saciando-se de seu Deus, vivendo oculta em Deus, com Cristo (cf. Cl 3,3).
Desejo legítimo, que será plenamente satisfeito no céu, mas não poderá ser gozado neste mundo senão na medida que apraz a Deus desapegar-nos da terra, de suas preocupações, e de seus embaraços.
O amor de Deus deve, pois, animar todas as nossas ações. Em cada uma delas não podemos ter rodeios sobre nós mesmos nem complacência em alguma criatura.
Talvez alguém perguntará: então é necessário viver aqui sem afeição, sem a alegria que proporcionam naturalmente as coisas criadas? Certamente não; aqui muitas vezes se encontra a verdadeira santidade.
Os santos não são seres inacessíveis, que não olham a terra senão para amaldiçoá-la, não se ocupam da criatura senão para evitar seu contato. Nada é mais aberto ao mundo que o coração de um Santo. O santo é, de algum modo, inclinado sobre toda criatura para descobrir nelas o seu Deus ou trazê-Lo a ela. Quem foi mais ardentemente apaixonado pela natureza do que São Francisco de Assis? Quem a cantou mais vezes do que Guido Gazelle, o santo sacerdote de Flandres?
Filhos de Deus, não somos reis da terra? Não temos aqui o gozo dos domínios de nosso Pai celeste? Acaso a terra inteira não pertence a Ele, e, por conseguinte, a nós? Quanto mais somos santos, mais podemos também penetrar cada criatura, discernir a perfeição e a beleza delas, e admirar o harmonioso conjunto de toda a criação.
Tudo nos pode elevar para Deus: podemos gozar de toda alegria legítima nEle e para Ele. O coração puro é capaz de gozar de tudo e de achar Deus em tudo. Sem dúvida, muitas vezes ele sente-se inclinado a recusar as alegrias mais inocentes, como David outrora sacrificou a água tirada da cisterna de Belém pelos soldados. Sem dúvida também Deus se compraz em pedir aos seus, por Suas inspirações, o sacrifício de tal gozo, e a alma feliz apresta-se em obedecer; mas tal não é a lei.
Na criação, Deus dispôs tudo em favor de seus eleitos. Como poderia reservar somente a seus inimigos as legítimas satisfações desta terra? Ele quer que seus filhos o sirvam na alegria de seu coração: Servi o Senhor com alegria (Sl 99,2); quer que as almas sejam dilatadas pela confiança e amor: Alegrai-vos, mais uma vez vos digo, alegrai-vos (Fl 4,4), porque o coração dilatado voa no caminho da santidade: Correrei pelo caminho dos vossos mandamentos, porque dilatastes o meu coração (Sl 118,32).
A divina Caridade não suprime, pois, nada, não desdenha nada; contenta-se em animar todas as nossas ações, de elevar tanto nossa alegria como nossas forças, em santificar tanto os nossos gozos como as nossas privações. Tudo vem de Deus; o que a criatura não estragou não poderá ser mal, nem contrário à santidade. O coração somente deve ser regrado, a intenção deve ser pura.
Mas, se toda criatura pode conduzir-nos a Deus, a verdade é que deter-se nelas é um mal. Passemos pelas criaturas, pela bondade, pela beleza, pelas verdades espalhadas sobre elas e vamos diretos a Deus para glorificá-Lo, para proclamar sua grandeza e seu amor.
Toda alegria, toda satisfação e todo ser que prende nosso coração deve ser cortado sem piedade. Criatura alguma tem o direito de substituir a Deus e de captar nosso coração, que não foi feito senão para Ele.
Assim, por um “Corações ao alto!” contínuo, a alma passa através de todos os acontecimentos, agradáveis ou penosos, sem deter-se nas criaturas, tomando o que Deus lhe apresenta por seu intermédio, de doce ou de amargo, sempre acessível, nunca presa; sempre serviçal, nunca escrava; sempre compassiva, nunca cativa.
“Se os corpos te alegram, dizia Santo Agostinho, toma-os como objeto de louvor a Deus; volta teu amor para o seu Autor, temeroso de que Lhe desagrades, detendo-te no que te agrada”[1]. “Se as almas te agradam, ama-as em Deus. Mutáveis em si mesmas, são fixas e imutáveis nEle”[2].





[1] Confissões, livro IV.
[2] Confissões, livro XII, cap. XI

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