terça-feira, dezembro 25, 2018

Do nascimento de Jesus Cristo


Por Santo Afonso Maria de Ligório, “Encarnação, Nascimento e Infância
de Jesus Cristo”, p. 137 a 142

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DO NASCIMENTO DE JESUS CRISTO

PARA A NOITE DE NATAL


“Anuncio-vos uma grande alegria; nasceu-vos hoje um Salvador.”
(Lc 2,10)



Anuncio-vos uma grande alegria. Eis o que disse o anjo aos pastores de Belém, e eis também o que vos tenho dizer hoje, almas fiéis: “Trago-vos uma nova de grande alegria”. E que nova de maior alegria pode dar-se a pobres exilados, condenados à morte, do que a da vinda do Salvador, que quer não só livrá-los da morte, mas também obter a sua entrada na pátria?
Essa é precisamente a nova que vos trago: Nasceu-vos hoje um Salvador. Nesta noite nasceu Jesus Cristo, e nasceu por vós, a fim de vos livrar da morte eterna e de vos abrir o céu, vossa pátria, de onde vos tinham banido os vossos pecados.
Mas a fim de que o reconhecimento para com esse Redentor recém-nascido vos decida a amá-lo doravante, permiti que vos ponha ante os olhos as circunstâncias desse acontecimento, dizendo-vos onde nasceu, como nasceu, e onde se acha esta noite; podereis então vir lançar-vos a seus pés e agradecer-lhe tão grande benefício e tanto amor. Mas antes peçamos a Jesus e Maria que nos iluminem.


I

Permiti que antes vos conte em poucas palavras a história do nascimento desse Rei do universo, que desceu do céu para a vossa salvação. Otávio Augusto, imperador romano, querendo conhecer as forças de seu império, mandou fazer um recenseamento geral de todos os seus súditos.
Para esse fim prescreveu a todos os governadores, e entre outros a Cirino, na Judeia, que obrigassem os habitantes de suas respectivas províncias a se fazerem inscrever cada um em seu lugar de origem e a pagarem ao mesmo tempo um tributo em sinal de sujeição.
É o que atesta São Lucas. Publicada que foi essa ordem, José obedeceu prontamente e sem esperar o parto de sua santa Esposa, o qual estava próximo. Obedeceu logo e se pôs a caminho com Maria, que levava em seu casto seio o Verbo encarnado, para se inscrever na cidade de Belém. A viagem foi longa; pois, segundo os autores, a distância era de noventa milhas, isto é, de quatro dias; foi além disso bem penosa porque foi preciso atravessar uma região montanhosa, os caminhos eram maus, era na estação dos ventos, chuvas e frio.
Quando um rei entra pela primeira vez numa cidade de seu reino, quantas honras não lhe prestam! Quantos arcos de triunfo, quantos aparatos de todo o gênero! Prepara-te, pois, ó ditosa Belém! Prepara-te para receber dignamente o teu Rei: o profeta Miqueias te anuncia que Ele vai visitar-te, esse grande Rei, que é o soberano Senhor, não só da Judeia, mas do mundo inteiro.
Saibas, diz-te o profeta, que entre todas as cidades do universo, tu és a cidade afortunada que se escolheu para lugar de seu nascimento o Rei do céu vindo à terra para reinar não sobre a Judeia, mas sobre todos os corações dos homens na Judeia e em todos os lugares: E tu, Belém Efrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá; mas de ti é que há de sair aquele que há de reinar em Israel.
Mas eis que chegou a Belém dois pobres peregrinos, José e Maria, que leva em seu seio o Salvador do mundo. Entram na cidade e apresentam-se ao oficial imperial para pagar o tributo e se inscrever na lista dos vassalos de César, lista em que amanhã será inscrito também o nome do filho de Maria, Jesus Cristo, que é o senhor de César e de todos os príncipes da terra. Mas quem os reconheceu? Quem lhes foi ao encontro para honrá-los? Quem os saudou? Quem os acolheu?

Ah! veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Vão eles como pobres, e como tais são desprezados; tratam-nos pior do que os outros pobres, todos os repelem. Por quê? Porque, como diz São Lucas, enquanto lá estavam, chegou o momento em que Maria devia dar à luz.
Foi naquele lugar e durante aquela noite que o Verbo encarnado quis nascer e tornar-se visível neste mundo; Maria o sabia, e disso avisou seu casto esposo. José apressou-se a encontrar hospedagem conveniente em qualquer casa particular, a fim de não ser obrigado a conduzir a jovem Maria ao hotel, que não era lugar decente para uma jovem que ia dar à luz, tanto mais porque ele estava repleto de viajantes.
Mas não achou ninguém que se dignasse ouvi-lo; mas de um, sem dúvida, o taxaram de imprudente por levar consigo sua esposa no estado em que se achava, e isso durante a noite e no meio de tão grande afluência de povo. Enfim, para não passar a noite na rua, foram constrangidos a apresentar-se na hospedaria; mas, ah! ela estava lá invadida por uma multidão de pobres que nela se refugiaram; forçaram-nos a retirar-se dizendo que não havia lugar para eles. Havia lugar para todos, mesmo para os mais pobres, só não para Jesus Cristo!
Essa hospedaria é a figura de tantos corações ingratos que se abrem a uma multidão de miseráveis criaturas e permanecem fechados para Deus. Quantos amam seus pais, seus amigos e até os animais e não amam a Jesus Cristo e não fazem caso de sua graça nem de seu amor!
A Santíssima Virgem disse um dia a uma alma devota: “Foi por disposição particular de Deus que não houve hospedagem entre os homens nem para mim nem para meu Filho; foi a fim de que as almas amantes oferecessem um asilo a Jesus e o convidassem com ternura a habitar em seus corações”.
Prossigamos a nossa narração. Vendo-se assim repelidos de todas as partes, José e Maria saíram da cidade para procurar ao menos algum abrigo fora de seus muros. Caminham ao escuro, giram, espiam; finalmente divisam uma gruta cavada na montanha abaixo da cidade. Segundo Barradas, Beda e Brocardo, foi esse o lugar em que nasceu Jesus Cristo: era uma escavação feita no rochedo, separada da cidade, uma espécie de caverna que servia de abrigo aos animais.
— “Meu caro José, disse então Maria, não é preciso ir mais longe; entremos nesta gruta e fiquemos aqui”.
— “Mas como?”, respondeu então José, “minha cara esposa, não vês que a gruta é aberta, fria e úmida, que a água escorre de todos os lados? Não vês que isto é um estábulo e não habitação para homens? Como queres aqui ficar a noite inteira e aqui dar à luz o teu divino Filho?”
— “E não obstante, é verdade”, replicou Maria, “que este estábulo é o palácio em que o Filho eterno de Deus resolveu nascer”.
Oh! que terão dito os anos vendo entrar a Mãe de Deus nessa gruta para lá dar à luz o Rei dos reis? Os príncipes da terra nascem em aposentos resplandecentes de ouro; preparam-lhes berços enriquecidos de pedrarias, de panos do linho mais fino, e são rodeados dos primeiros senhores do reino. Mas o Rei do céu vem ao mundo num estábulo frio e sem lume, só tem trapos pobres para se cobrir, e um miserável presépio com um pouco de palha para repousar seus membros! “Onde está a sua corte?”, pergunta S. Bernardo, “onde está o seu trono? Lá não vejo senão dois animais para lhe fazerem companhia, e a sua manjedoura para lhe servir de berço”.
Ó gruta ditosa, que tiveste a ventura de ver nascer o verbo divino! Ó venturoso presépio, que tiveste a honra de receber o Senhor do universo! Ó palha afortunada, que serviste de leite àquele que repousa sobre as asas dos Serafins! Ah! ao considerarmos como Jesus quis nascer no meio de nós, deveríamos todos abrasar-nos de amor; ao ouvirmos os nomes: gruta, presépio, palha, leito, vagido, deveríamos, recordando-nos do nascimento de nosso Redentor, sentir os corações traspassados como de setas inflamadas.
Sim, fostes felizes, ó gruta, ó presépio, ó palha! Porém bem mais felizes são os corações que amam com fervor e ternura esse doce e amável Salvador, e que, inflamados de amor, o recebem na santa comunhão! Oh! com que desejo e contentamento vem Jesus repousar num coração que o ama!

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