quinta-feira, dezembro 20, 2018

A sinceridade na procura


Por Francisco Faus, “Procurar, encontrar e amar a Cristo”, p. 5 a 9.
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a sinceridade na procura 

Vimos a sua estrela e viemos adorá-lo. (Mt 2, 2) 
Quem pratica a verdade vem para a luz. (Jo 3, 21) 


I. O apelo de uma estrela 

Visitantes inesperados 


Há pouco mais de dois mil anos, apareceram um belo dia em Jerusalém, sem serem esperados, três personagens imponentes e estranhos. Apresentavam um ar de nobre grandeza – com suas vestes de magnificência oriental –, unido a traços de cansaço e à poeira de muitos caminhos. 
Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: “onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,1-2). 
Como é natural, essa declaração dos três majestosos empoeirados deixou perplexos, perturbados, todos os que os ouviam. Se nós estivéssemos em Jerusalém naquele momento, também teríamos ficado aturdidos, porque o rei dos judeus – Herodes – estava lá mesmo, bem vivo no seu palácio, e nenhum herdeiro dele tinha “acabado de nascer”. 
O que houve? Vamos tentar examiná-lo. 


Homens que “querem ver” 

Por que os três amigos fizeram uma viagem tão difícil e cansativa, de terras longínquas até Jerusalém – uma empreitada que tem todas as aparências de uma loucura? Com grande simplicidade, eles o explicam: Vimos a sua estrela. Guarde esse verbo – ver –, que vai dar muito o que pensar ao longo de todas estas páginas. 
Para entender o significado exato da palavra “vimos”, é preciso fazer uma brevíssima incursão histórica. O episódio dos Magos que foram adorar Jesus Menino tem sido objeto de estudos que preenchem muitas páginas. Os mais sérios chegam à conclusão de que não se trata de uma lenda piedosa, mas de um fato, com fundamento histórico. 

Em terras orientais – do médio e próximo oriente – dava-se o nome de “Magos” a homens sábios, de ampla cultura em muitos campos, que faziam parte da corte como conselheiros dos reis: daí o nome popular de Reis Magos, que não está nos Evangelhos. A história e a arqueologia demonstram que, naqueles antigos impérios – assírio, babilônico, persa –, a astronomia estava assombrosamente desenvolvida, algo análogo ao que aconteceu na civilização Maia, na América Central. É importante ter isso em conta para compreender as palavras “vimos a sua estrela”. 
Está claro que eles não sonharam, viram. Eles não imaginaram, não se perderam em fantasias. Captaram uma estrela nova, pesquisaram, observaram, analisaram, discutiram, consultaram outros sábios, perscrutaram mapas astrais e velhos calhamaços da sabedoria dos anciãos... Isto é, como autênticos sábios, empenharam-se em compreender a fundo o fenômeno observado. 
O que seria aquela luz inexplicável que viram no oriente, e que só voltaram a ver claramente perto de Belém? Já foram feitos estudos astronômicos a respeito (entre outros, cálculos de Kepler), alguns deles bastante convincentes. Mas não é a identificação científica da estrela que agora nos interessa. O que nos interessa é desvendar o significado daquela luz no céu e a resposta dos Magos. 


A “sua estrela” 

As palavras que os Magos disseram ao entrar em Jerusalém – Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo (Mt 2,2) – retratam bem a alma desses homens. 
Vimos. Eram daqueles que, ao perceber uma realidade desconhecida, a queriam entender. Aplicaram por isso a sua inteligência ao fenômeno luminoso e formularam uma hipótese que, à medida que pesquisavam, foi-se confirmando cada vez mais neles como a interpretação certa, até que chegaram a uma conclusão: “É verdade!” Em que consistia tal verdade? Uma explicação sintética nos é dada num comentário da Bíblia de Navarra: 
“Os judeus tinham difundido pelo oriente as esperanças messiânicas. Os Magos tinham conhecimento do Messias esperado, rei dos Judeus. O qual, segundo as ideias difundidas naquela época, devia ter, como personagem muito importante na história universal, uma estrela relacionada com o seu nascimento.”4 Isso é o que eles “viram”.  
Essa interpretação concorda com a hipótese de que se teria espalhado pelas velhas terras do Oriente uma antiga profecia do moabita Balaão, mencionada na Bíblia no livro dos Números. Esse profeta pagão, enviado por Balac, rei de Moab, com a missão de amaldiçoar Israel, não conseguiu lançar impropérios, por mais que tentasse, pois da sua boca só saíram palavras de bênção para o povo hebreu: Como são belas as tuas tendas, ó Jacó, e as tuas moradas, ó Israel!..Vejo-o, mas não agora, contemplo-o, mas não está perto: uma estrela sai de Jacó, um cetro se levanta de Israel (Nm 24, 5-17). 
A percepção do sentido da estrela foi encarada pelos Magos como uma chamada de Deus. Aquela luz estimulava o íntimo deles. Haviam compreendido que acabavam de descobrir a mais esperada intervenção de Deus na história. 
Por isso, seu coração reto sentiu-se interpelado. Se o Salvador esperado chegou, diziam, é preciso procurá-lo, uma vez que, por milênios, o mundo o tem aguardado com ansiedade. É preciso honrá-lo. É preciso colocar-se à sua disposição. Por isso partiram. 

(...)


Sede de Deus 

Acabamos de lembrar palavras de Bento XVI: “Os Magos eram homens movidos pela procura inquieta de Deus e da salvação do mundo. Homens de esperança, que não se conformavam...”.  É bom meditar nisso, para sacudir, se tivermos, alguma acomodação letárgica. 
Impressionou-me, há algum tempo, ler uma entrevista do escritor grego Nikos Kazantzaki – autor do Velho Zorba – com um camponês centenário da ilha de Creta. O escritor perguntou-lhe: 

– Como lhe aparece agora a sua longa vida, avô? 
– Como um copo de água fresca, respondeu o velho. 
– E ainda tem sede, avô? 
Então o velho cretense, com seus cem anos de idade, crivado de velhos ferimentos, cego, ergueu violentamente o braço e bradou:  
– Seja maldito quem não tiver mais sede! 
O grito do velho faz pensar, não é? E nós? O que fazemos com a sede profunda que está latente no centro da nossa alma? Talvez o ajude a seguinte reflexão, mais explícita, do escritor francês Michel Quoist: 
“O que te faz sofrer mais? São, dentro de ti, todas as insatisfações, as tensões, os conflitos entre: 
− o que desejas e o que possuis, 
− o que querias ser e o que és, 
− a tua fome de saber e o teu mistério, e os mistérios do mundo, 
− a ânsia de felicidade e o sofrimento sob todas as suas formas, 
− a nostalgia da pureza de coração e o mal que encontras nele, 
– a tua sede de amor e as limitações e fracassos do amor humano, 
“O que te faz sofrer é que não estás acabado, estás incompleto... 
“Sabes o que é que mais desejas? É o infinito, o infinito 
− da beleza; 
− da pureza; 
− da justiça; 
− da paz; 
− da verdade; 
− do amor; 
− da vida... 
“E o infinito te ultrapassa, ultrapassa todas as medidas do homem. O infinito só tem um nome: Deus. 
“Todas as fomes de infinito, no fundo, se reduzem a uma única fome: a fome de Cristo, porque Cristo ‘é’ a pureza, a verdade, o amor, a vida...”5. 
Depois de meditar nisso, penso que tem razão Saint-Exupéry quando diz, na Cidadela: “Os seres são vazios quando não são como janelas ou claraboias abertas para Deus”. 

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