quinta-feira, novembro 29, 2018

A perfeição pela ação


Por José Schrijvers, “A Boa Vontade”, pág 45 a 48.
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ARTIGO I: O MOMENTO PRESENTE


Santificar-se é amar a Deus, é impregnar toda a vida com este amor, é fazer passar este sopro sobrenatural, esta intenção reta, este desejo de pertencer a Deus, a todas as mínimas ações de uma existência.
E isto é possível? Certamente. Cada dia muitas almas simples alcançam este sublime ideal. E o que é necessário para também fazermos parte deste número de almas felizes?
Ora, a alma de boa vontade deve começar simplificando sua tarefa. Nunca seria demais repetir: quase todas complicam, por gosto, o trabalho da perfeição. Ao empreender a viagem para a santidade, sobrecarregam-se de fardo inútil, perdem suas forças em ocupações sem importância ou de utilidade contestável.
É necessário, pois, reduzir todo o trabalho da perfeição a um único ponto bem preciso, isto é, ao momento presente. É necessário limitar a vida, as atividades, ao dever presente e, para isso, procurar empregar todo o cuidado, toda vigilância possível.
Não é de se admirar que o desânimo invada as almas quando se encontrarem diante de uma vida inteira a santificar; quando considerarem esta infinidade de ações e de pequenos sofrimentos do decorrer de sua existência; quando vislumbrarem com um só olhar este campo imenso, coberto de vícios a desenraizar.
Aí, porém, não está a santidade. A perfeição não é feita de sonhos e abstrações. Ao contrário, ela é uma realidade bem concreta, que se nos oferece a todo instante. Uma vida a santificar é o momento presente que se dá a Deus.
Nossa vida não é senão uma sucessão de momentos. Nela, nada há de real senão este curto instante presente que se passa constantemente. Não vivemos senão do presente. Santificá-lo é o nosso único dever, nada podemos fazer de melhor para a nossa santificação e para a glória de Deus.
Ah, se compreendêssemos esta verdade, ao mesmo tempo tão simples e tão consoladora! Entre Deus e a alma de boa vontade há apenas um ato: o ato de amor. Graças a ele a alma se une a Deus a cada instante. Cada parcela de tempo é como uma espécie sacramental que leva Deus à alma; é uma comunhão sem cessar renovada. Por ela a alma se entrega sem reservas e Deus se dá do mesmo modo. “É um fluxo e refluxo, diz Ruysbroek, que faz transbordar a fonte de amor”[1].

Por que preocupar-nos com o passado? Ele já não existe, escapou-nos para sempre. Por que perdermos nosso tempo em queixas estéreis e em imaginações vãs? Lancemos o passado com nossas infidelidades no oceano da misericórdia divina. Deus esqueceu tudo, apagou tudo:  Como o oriente está longe do ocidente, assim ele afasta de nós os nossos pecados... Ele se lembra do pó que somos nós. (Sl 102,12-14). Resgatemos o tempo perdido pela fidelidade presente.
Por que também tanta preocupação com o futuro? Ele ainda não existe. Deus no-lo dará, no-lo destilará de algum modo, gota a gota. Então o santificaremos. Deus é bom Pai.
No momento oportuno nos dará o que for necessário para nossa perfeição. Nossa santidade é, antes de tudo, sua obra. Foi Ele quem traçou o plano e quem o executa em todos os seus pormenores.
No momento presente outros deveres solicitam nossa atenção e boa vontade. Cada momento nos apresenta um dever a cumprir. Do conjunto de todos os instantes bem empregados surgirá o magnífico edifício da nossa perfeição. Desta grande obra não vemos senão a nossa pequenina ocupação presente; e desolamo-nos. O Mestre, porém, vê o conjunto e antecipadamente goza da beleza de sua obra.
“Nossa santidade, diz o Padre de Caussade, faz-se como as lindas tapeçarias que são feitas ponto por ponto e pelo avesso. O operário que nisto se emprega não vê senão o seu ponto e a sua agulha, mas todos os seus pontos, feitos sucessivamente, formam figuras magníficas que não aparecem senão quando, feitas todas as partes, expõe-se à vista seu lado belo; mas, durante o tempo do trabalho, toda esta beleza e este encanto ficam na obscuridade”[2].
O momento presente contém para cada um de nós a santidade. Deus depositou nele um tesouro inestimável. Se a alma o deixa escapar, está perdido para sempre. Deus varia esta obrigação presente para cada alma em particular. O momento presente de tal alma não é aquele de tal outra. Nosso Pai celeste ocupa-se em particular de cada um de seus filhos. Entra em todas as minúcias da vida de cada um. A perfeição consiste, pois, em dar a Deus nosso momento presente.
O grande segredo da vida interior é aquele de se ocupar de si mesmo e não dos outros, de prestar toda atenção ao próprio dever e não ao de outrem. Que nos adianta conhecer as obrigações do próximo e verificar suas faltas? “Vivamos sobre a terra como se não houvesse senão Deus e nós”, tal é a grande máxima dos Santos. Não nos ocupemos do próximo a não ser que nosso dever o exija. O acesso à santidade é fechado a uma infinidade de almas boas, justamente porque se ocupam não de si mesmas, mas dos outros.
Se nosso dever presente deve santificar-nos, não vamos procurar a santidade além; só Deus conhece o gênero e o grau de nossa perfeição. Não vamos de porta em porta mendigar o alimento de nossa santidade. Somos filhos do Rei dos reis.
Ele é infinitamente bom e generoso. Dá-nos em abundância os meios de santidade. Cada momento presente no-los transmite.
Vivamos dia a dia no seio de Deus, sempre atentos a obedecer-Lhe no momento presente: A cada dia basta o seu mal (Mt 6,34). Nosso Pai celeste sabe do que teremos necessidade amanhã. Contentemo-nos em pedir-Lhe o nosso pão de hoje.
Simplificar o trabalho da perfeição, reduzir a vida ao momento presente: tal é a primeira tarefa da alma. Se a isto se conforma, Deus conduzi-la-á pela mão através de todas as suas ocupações: Tomaste-me pela mão e levaste-me pelo caminho da tua vontade (Sl 72,24). Apoiada nele, dedicar-se-á com toda tranquilidade à sua obrigação presente, acolhendo cada novo momento com reconhecimento, pois o entregará a seu Deus, não lastimando nenhuma ocupação passada, não desejando nenhum atrativo futuro, senão aquele que seu divino Pai lhe prepara.
Que vida doce e calma! Tanto quanto o pode, e quanto Deus lhe dá a graça, a alma não desvia o olhar do bom Mestre, sempre disposta a executar suas ordens, porém nunca sob tensão e assoberbada. Sua vida já se assemelha com a de Deus, que ela traz em si mesma. Assim diz Santo Agostinho: “Senhor, estais sempre em ação, sempre em repouso... Vosso amor é sem paixão... Vosso zelo sem inquietação... Vossa cólera sem perturbação...”[3] 


[1] Ornamento das Núpcias Espirituais, cap. LIV.
[2] Abandono à Divina Providência, livro II, cap. IV, §3.
[3] Confissões, I, cap. IV.

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