quinta-feira, novembro 22, 2018

A conformidade que desperta o amor


Por São Francisco de Sales, “Tratado do amor de Deus”, pág 61 a 63.
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Nós dizemos que os olhos veem, os ouvidos ouvem, a língua fala, o entendimento discorre, a memória recorda-se e a vontade ama; mas bem sabemos que é na verdade o homem, que por diversas faculdades e diferentes órgãos, exerce toda essa variedade de operações. Portanto, é também o homem que, pela faculdade afetiva a que chamamos vontade, tende para o bem e nele se compraz, e tem com ele essa grande conformidade da qual o amor deriva como de sua fonte e origem.
Ora, não compreenderam bem aqueles que julgaram que a semelhança era a única conformidade capaz de produzir o amor; pois quem não sabe que os velhos amam terna e carinhosamente as crianças, e são por elas amados? Que os sábios amam os ignorantes quando são dóceis aos seus ensinos? Que os doentes amam os seus médicos? E, se nos for possível tirar algum argumento da imagem do amor que se observa nas coisas insensíveis, que semelhança pode inclinar o ferro ao ímã?
Um ímã não terá mais semelhança com outro ímã ou com outra pedra, do que com o ferro, que é de um gênero inteiramente diferente? E ainda que alguns, para reduzir todas as conformidades à semelhança, tenham assegurado que o ferro atrai o ferro, e o ímã atrai o ímã, eles não sabem explicar por que o ímã atrai com mais força o ferro, do que o ferro atrai o próprio ferro. Mas, dizei-me, que analogia existe entre a cal e a água, ou entre a água e a esponja? E, todavia, a cal e a esponja absorvem a água com uma incomparável avidez, e manifestam um extraordinário “amor” insensível para com ela. Ora, o mesmo acontece com o amor humano, que pode ser algumas vezes mais forte entre pessoas de qualidades opostas, do que entre aquelas que as têm semelhantes.

A conformidade que produz o amor nem sempre consiste na semelhança, mas na proporção, relação ou correspondência do amante com o objeto amado. Não é a semelhança que torna o médico amável ao doente, mas a correspondência da necessidade de um com a capacidade do outro, visto que um tem necessidade do socorro que o outro pode prestar-lhe. O médico ama o doente, e o sábio o seu discípulo, porque ambos podem exercer sobre eles as suas faculdades. Os velhos amam as crianças, não por simpatia, mas porque a extrema simplicidade, fraqueza e ternura destas faz sobressair a prudência e seriedade daqueles, e esta dissemelhança torna-se agradável; e as crianças amam os velhos porque os veem entreterem-se e ocuparem-se com elas, e, por um secreto instinto, entendem que precisam da sua direção. Os acordes da música se fazem na discordância, pela qual as vozes dissemelhantes se correspondem, para todas reunidas formarem uma só harmonia; e o mesmo sucede com a dissemelhança das pedras preciosas e das flores, que produzem a agradável composição do esmalte e do matiz.
Da mesma forma, o amor não nasce sempre da semelhança e simpatia; nasce antes da correspondência e proporção, que consiste em que, pela união de um objeto a outro, ambos possam receber um acréscimo de perfeição e tornar-se melhores. Certamente a cabeça não se parece com o corpo, nem a mão com o braço, e, todavia, estas coisas têm uma correspondência tão íntima e ligam-se tão apropriadamente uma à outra, que se aperfeiçoam mutuamente pela sua união. Se cada uma destas diversas partes tivesse uma alma distinta, amar-se-iam perfeitamente, não por semelhança, que não têm nenhuma, mas pela correspondência que mantêm para sua mútua perfeição. Por isso os melancólicos e os joviais, os irascíveis e os pacíficos, amam-se algumas vezes pelas mútuas impressões que recebem uns dos outros, por meio das quais os seus temperamentos são mutuamente moderados.
Mas, quando essa mútua correspondência é reunida à semelhança, o amor é, sem dúvida, gerado de forma mais poderosa; porque, sendo a semelhança a verdadeira imagem da unidade, quando duas coisas semelhantes se unem por correspondência ao mesmo fim, isso parece constituir antes unidade do que união.
A conformidade, pois, do amante com a coisa amada é a primeira fonte do amor, e esta conformidade consiste na correspondência, que não é outra coisa senão a mútua relação que torna as coisas propícias a se unirem, para reciprocamente se comunicarem alguma perfeição.

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