quinta-feira, setembro 20, 2018

Quanto são culpados e insensatos aqueles que correspondem mal às graças divinas

Por Augusto Saudreau, “O ideal da alma fervorosa”, pág. 100 a 102
Clique aqui e veja o livro em nossa nova loja virtual.



Aqueles, portanto, que são pouco corajosos, que não sabem fazer-se violência, tolhem os planos divinos. Pela sua conduta dizem a Deus: Não será como vós o quisestes. Chamando-me à piedade, dando-me todos esses conhecimentos que não são dados à maior parte dos cristãos, oferecendo-me tantas graças, ao ponto de poder eu receber mais em um dia que outros em um ano, vós quisestes fazer de mim um cristão perfeito, e eu não quero ser senão uma alma vulgar. Quisestes que eu fosse para vós um consolador e eu não vos darei essas consolações que tanto merece o vosso amor. Quisestes que eu fosse um reparador, e eu não repararei os pecados dos outros, nem quero, mesmo neste mundo, fazer penitência pelas minhas próprias faltas. Quisestes que eu fosse aqui na terra, mas sobretudo no céu, durante a interminável eternidade, vosso amigo íntimo, e eu não o quero ser, contentando-me em ser um dos vossos servos. Vós perdereis, pois eu não vos renderei a glória que esperáveis de mim. Eu perderei, e as almas perderão também, pois eu não farei o bem que poderia fazer, mas pouco me importa.
Para corresponder aos vossos desígnios, seria necessário fazer-me violência, mortificar o meu corpo, os meus gostos, reprimir a minha imaginação, conter as minhas palavras, renunciar-me constantemente. Custa-me demais, prefiro viver suavemente e não me constranger tanto. Seria preciso, quando viessem as provações, as contradições, as humilhações, aceitar tudo por amor; pois bem, eu não tenho essa coragem. Deixar-me-ei levar pela irritação ou pelo abatimento, cedendo à minha natureza de preferência a combatê-la em obediência à graça. Embora aqueles que negligenciam as graças de Deus não pronunciem tais palavras, seus atos falam por eles, e toda a sua conduta revela semelhante linguagem.
Que loucura nos privar dessas vantagens eternas que Deus nos oferece para darmos à natureza satisfações passageiras, ou não querer constrangê-la e impor-lhe o incômodo, ou o sofrimento de um instante!

Sim, loucura e culpa, que Deus castiga sempre, como sempre recompensa a fidelidade. E a primeira recompensa da fidelidade à graça é um acréscimo de graça, enquanto o primeiro castigo da resistência à graça é uma diminuição de graça. Falando dos pagãos que haviam abandonado o verdadeiro Deus para cair na idolatria, S. Paulo nos diz três vezes que Deus os entregou ao mal, ao mal que eles amavam: Tradidit eos in desideria cordis eorum: Entregou-os aos desejos de seus corações (Rm 1,24) Tradidit eos in passiones ignominae: Entregou-os às paixões indignas. Tradidit eos in reprobum sensum: Entregou-os ao vício condenado. Que desgraça! As paixões as mais degradantes se encontram sempre no fundo da alma humana, e basta que Deus retire em parte suas graças, e diminua a sua proteção, para a alma cair no lodo. É porque castiga o pecado pelo próprio pecado, e recompensa a virtude por um acréscimo de virtude. Demais, não é justamente o que desejam, e o pecador e o justo? A alma fiel deseja cada vez mais conhecer a Deus, conhecer-lhe as perfeições, os benefícios, os meios de servi-lo e de amá-lo sempre mais; deseja também conhecer-se a si mesma, para humilhar-se e corrigir-se; deseja crescer em virtude e em amor. A alma infiel não aprecia esses conhecimentos que lhe indicam um caminho que ela não quer seguir, e lhe apontam defeitos que não quer perceber e dos quais não quer corrigir-se. Deus é, pois, justo, concedendo graças aos bons, e graças tanto maiores, quanto mais fiéis são. E é justo retirando essas mesmas graças aos pecadores e retirando-as na medida de sua obstinação. Sem dúvida, se a justiça é temperada pela misericórdia, não é, porém, aniquilada. A bondade de Deus o incita a conceder graças aos próprios pecadores; a justiça, porém, obriga-o a diminuí-las e a punir o pecado, deixando-o produzir, ao menos em parte, seus funestos efeitos.
O mau emprego das graças lhes acarreta, pois, a diminuição. Isso se dá não somente com os pecadores que rejeitam a graça para permanecerem em seus vícios, mas também, guardadas as devidas proporções, com as almas boas, porém negligentes, que correspondem imperfeitamente às inspirações divinas. Essas almas, é verdade, obedecem o mais das vezes aos chamados de Deus, e, portanto, continuam a receber numerosas graças, mas as graças de escol, que lhes estavam reservadas, não recaem mais sobre elas em tão grande abundância.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...