quinta-feira, setembro 13, 2018

Hedonismo

Por Pe. Francisco Faus, “A conquista das virtudes”, pág 49 a 53. 
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O hedonismo paralisa o amor de Deus

O hedonismo, como o orgulho, infiltra-se em tudo, infecciona o sangue da alma. É uma virose progressiva, generalizada. Afeta gravemente as relações com Deus e as relações com o próximo. Vamos ver, com apenas algumas pinceladas, esse efeito paralisante.
Em primeiro lugar, as relações com Deus.
— Com a mística do prazer, Deus é deixado fora da vida como um obstáculo que atrapalha, com seus mandamentos, a liberdade de viver conforme as próprias vontades. “Deus exige? Então não serve!”. “Eu é que devo exigir de Deus que Ele me sirva, que me ajude a não sofrer, a me sentir bem, a ganhar dinheiro, e, se for do meu interesse, a ficar com a mulher do próximo”.
— A religião é vista pelo hedonista como um produto de supermercado ou de shopping. O mercado das religiões, hoje, está bem abastecido. As gôndolas estão repletas, para cada qual escolher a sua religião “à la carte”. Para muitos, a Verdade não interessa; não interessa nem a Palavra nem a Vontade de Deus. Interessa só um tipo de religião que aprove todos os meus caprichos, pecados e erros; que me faça cafuné na cabeça e me tranquilize, oferecendo-me cultos, pregações, cânticos e orações com efeitos semelhantes aos da sauna, da ioga ou da dança do ventre.
Uma religião, em suma, sem outro amor que o “amor a mim mesmo”, amenizado por umas pinceladas de caridade “gostosa” e uma pitada de alguns dias de voluntariado para tranquilizar a consciência.
É evidente que esse tipo de religiosidade é paralisante, e não levará nunca à realização no amor, à plenitude da vida.
Nunca levará ao Deus vivo.

 O hedonismo paralisa o amor ao próximo


Lembro-me de umas palavras expressivas da Carta às famílias de João Paulo II, em que falava de: «uma civilização das “coisas” e não das “pessoas”; uma civilização em que as pessoas se usam como se usam as coisas... A mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os filhos um obstáculo para os pais, a família uma instituição embaraçosa para a liberdade dos membros que a compõem».
A mentalidade hedonista de um casal, por exemplo, nota-se na decisão relativa a ter ou não ter filhos, a ter mais ou menos filhos. É um assunto complexo, que exige ponderar diversos fatores objetivos (saúde, por exemplo). Mas, em grande número de casos, o fator decisivo é o hedonismo: o comodismo, a aversão ao sacrifício, o desejo de não ter trabalho, de gozar demais liberdade para fazer o que se quer. Onde estão aí as virtudes da família e do lar?
A mentalidade hedonista é — como diria o Papa Francisco — uma “mentalidade de descarte”. Em nome do prazer e do direito de ser feliz, o marido descarta a mulher, a esposa descarta o marido, ambos descartam os filhos, que sempre sofrem as consequências da separação. “Foi inevitável”, dizem, “será melhor para eles”. Será? Fora casos pontuais, normalmente, teria sido muito melhor para os filhos conviver com os defeitos... e as virtudes que os pais deveriam e poderiam ter vivido se se decidissem a amar mais, a “dar-se” mais.
De fato, se quisermos conhecer os motivos da maioria dos divórcios, o casal e o advogado nos darão uma lista. Mas a verdadeira “lista”, aos olhos de Deus, em grande parte das crises, são as virtudes que faltaram e levaram aquela família a desmoronar, como um edifício sem estacas nem pilares: falhou o sentido de vocação e de missão, a entrega generosa ao ideal familiar, a abnegação, a compreensão, a dedicação prestativa e alegre, a paciência, o espírito de serviço, o espírito de perdão, e tantas outras mais.
Coisas análogas se poderiam dizer do egoísmo no relacionamento com os parentes, colegas e amigos, pois também é o hedonismo o que determina, com frequência, a exclusão dos idosos e dos doentes (que o Papa Francisco não se cansa de denunciar); a abdicação das responsabilidades dos pais na educação dos filhos (já estão numa boa escola); o relaxamento e a trapaça nos compromissos e obrigações profissionais e sociais, a corrupção na vida pública, etc.

O hedonismo paralisa o amor a nós mesmos

Finalmente, umas poucas palavras para que não esqueçamos que o hedonismo destrói, em primeiro lugar, a vida de quem o adota como bússola para a vida.
De fato, o hedonismo avilta o sexo, rebaixando-o ao nível do consumo material. A parceira ou o parceiro — mesmo quando se trata de marido e mulher — desce ao nível da lata de cerveja que, uma vez consumida, se joga fora.
Assim, a sensualidade egoísta torna-se vício tirânico, obsessão, compulsão. O viciado em “liberdade sexual” (em libertinagem) torna-se um pobre escravo da pornografia, da Internet, das redes sociais, da TV noturna, dos desvios da sensualidade. Diz: “Faço o que quero”, mas deveria dizer: “Faço o que não consigo mais deixar de fazer”. Atolou, sem forças para sair, num brejo de que só Deus o pode tirar.
A mesma coisa acontece com a liberdade, tão “atual”, de consumir álcool desde a pré-adolescência; de experimentar drogas brandas; de passar logo depois para a experiência de drogas fortes, até cair numa escravidão progressiva, que pode não ter retorno. Será que esses pobres viciados são um modelo da liberdade que tanto os motivou? Sobre o pano de fundo dessas desgraças, entende-se melhor a tremenda importância desta afirmação: «Onde não há mortificação, não há virtude» (Caminho, n. 180).
Antes de sair dos porões, gostaria de terminar este capítulo com um apelo vibrante: «Não gostaríeis de gritar à juventude que fervilha à vossa volta: — Loucos! largai essas coisas mundanas que amesquinham o coração... e muitas vezes o aviltam..., largai isso e vinde conosco atrás do Amor?» (Caminho, n. 790). Medite nisso!

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