quinta-feira, setembro 06, 2018

A vida interior refina a pureza de intenção

Por Dom J. B. Chautard, “A alma de todo apostolado”, pág. 94 a 95.
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O homem de fé aprecia as obras de um ponto de vista inteiramente diferente do homem que vive exteriormente, pois ele vê nelas não tanto o aspecto aparente, mas sim o papel que desempenham no plano divino e nos resultados sobrenaturais.
Dessa forma, considerando-se um simples instrumento, vai alimentando na alma o horror por qualquer complacência nas próprias aptidões, pois coloca a esperança dos bons êxitos sobre o conhecimento da sua própria impotência e sobre a confiança exclusiva em Deus.
Assim ele se fortalece no estado de abandono. Em meio às dificuldades, como é grande a diferença entre a sua atitude e a atitude do homem apostólico que não tem uma intimidade com Jesus! Além do mais, esse abandono não diminui o ardor por qualquer empreendimento, uma vez que trabalha como se o bom êxito dependesse unicamente de sua atividade, quando na verdade o espera unicamente de Deus[1]. Não lhe custa subordinar todos os projetos e esperanças aos planos incompreensíveis desse Deus que, para o bem das almas, com mais frequência se serve dos reveses que dos triunfos.
Daí resulta para a alma um estado de santa indiferença pelos bons ou maus êxitos das suas iniciativas. Ela está sempre pronta a dizer: “Vós, ó meu Deus, não quereis que se acabe a obra começada. Preferis que eu me limite a trabalhar com generosidade e sempre em paz, do que me esforce para atingir um resultado, mas deixando de lado o cuidado de vos deixar decidir se vos dará mais glória o bom êxito da atividade ou o ato de virtude que um fracasso me dará ocasião de praticar. Mil vezes bendita seja a vossa santa e adorável vontade. Oxalá, com o auxílio da graça, seja possível tanto abafar os mínimos sintomas de vã complacência, se abençoardes meus projetos, quanto humilhar-me, se a vossa providência julgar conveniente reduzir a nada o fruto de minhas fadigas”.

Certo é que o coração do apóstolo sangra quando contempla as tribulações da Igreja; mas a maneira como ele sofre é completamente diferente da do homem não animado pelo espírito sobrenatural. A melhor prova disso vemos na conduta e na atividade febril deste quando aparecem as dificuldades: as suas impaciências e abatimento, o seu desespero, e às vezes até o seu aniquilamento perante ruínas irreparáveis. O verdadeiro apóstolo, por sua vez, utiliza todos os triunfos e reveses para aumentar a esperança e dilatar a alma em um abandono cheio de confiança na providência. Tudo no seu apostolado lhe serve de motivo para fazer atos de fé. Qualquer momento do seu trabalho perseverante lhe é um pretexto para praticar atos de caridade, porque, pelo exercício da guarda do coração, chega a ponto de agir em tudo com uma pureza de intenção cada dia mais perfeita e, pelo abandono, a tornar a sua atividade cada vez mais impessoal.
Dessa forma, todas e cada uma das ações se vão impregnando cada vez mais dos caracteres de santidade. E como o amor pelas almas — que no início estava mesclado de muitas imperfeições — aos poucos vai se purificando, o verdadeiro apóstolo acaba por não mais ver essas almas senão em Jesus, por não mais amá-las senão em Jesus, e assim, por Jesus, as conquista para Deus: Filhinhos meus, por quem eu de novo sinto as dores do parto até que Cristo se forme em vós (Gl 4,19). 




[1] Santo Inácio.

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