quinta-feira, agosto 02, 2018

O Deus da riqueza, da generosidade e do amor

Por Romano Guardini, “Introdução à vida de oração”, pág 72 a 74.
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A essência de Deus é inesgotável. Ao espírito contemplativo e à experiência religiosa revelam-se constantemente novos aspectos, e para cada um deles o coração responde com uma atitude apropriada. Deste modo, a doutrina sobre Deus é quase por si mesma uma doutrina sobre a oração. Contudo, não será possível neste livro, que pretende ser somente uma introdução à vida de oração, desenvolver por completo as propriedades de Deus. No entanto, consideraremos ainda um último grupo de atributos: Deus é poderoso e rico, está sempre pronto para ajudar e para dar alegria, preocupa-se com os homens, e respeita-os e ama-os. A este conjunto de propriedades divinas orientam-se também duas formas de oração: a petição e a ação de graças.
Há representações de Deus que tornam impossível dirigir-lhe um pedido ou render-lhe graças, quando, por exemplo, nós o concebemos somente como a ordem sagrada do universo, a ideia do bem ou o mistério do ser. A um Deus assim
o coração do homem não pode se dirigir com as suas misérias. Diante Dele, a petição seria tão insensata quanto a ação de graças; as únicas atitudes possíveis seriam o respeito ou a admiração. Mas a Revelação diz-nos que Deus é um poder vivo, que é a força de vontade e de ação, é uma pessoa que pode ouvir e responder.
Deus é espírito, e não apenas no frio sentido de lógica pura ou de força ordenadora que o termo espírito adquiriu em muitos casos. Deus é espírito no sentido que lhe dá a Sagrada Escritura, quando fala do “Deus vivo”. Ele é o Criador e o inesgotável, é o que está próximo, o que é bom. É o Deus rico, como dizem os autores espirituais, que não se contenta com a sua própria riqueza, mas está disposto a comunicá-la. Deus é um doador infinito que nunca empobrece, pois nenhuma doação diminui a sua riqueza; é um doador que nunca se cansa ou se decepciona, pois a sua doação não depende da resposta do homem. Ele dá criando... A este Deus, o coração do homem pode se dirigir.

Deus não vive em uma sublimidade olímpica, bem-aventurado em si mesmo e indiferente aos problemas da existência humana. Se assim fosse, não seria possível fazer-lhe um pedido verdadeiro; podemos dizer de antemão que estaria destituído de esperança e de dignidade. Mas a Revelação diz-nos que Ele se preocupa com o homem e o ama; toda a Sagrada Escritura está cheia da revelação do amor de Deus. Toda a existência de Cristo é uma manifestação desse amor. É uma verdadeira revelação, pois manifesta algo que não pode ser conhecido a partir do homem e do mundo: o amor de Deus pelos homens.
O amor de Deus que a Revelação atesta não significa apenas que Deus quer o bem da sua criatura. Ele a ama de verdade, com uma seriedade comprovada pela encarnação, de tal maneira que o próprio Deus se entregou por inteiro a esse amor e, se assim podemos dizer, fez dele o seu destino. Este amor começa revelando-se na criação; torna-se mais nítido na orientação de toda a história da salvação que conduz a Cristo; e culmina nele, no seu espírito e na sua vida. De Cristo, expande-se através do tempo e do espaço, derrama-se na providência e em tudo o que acontece, na formação do novo homem e na vinda do reino de Deus.
A origem desse amor encerra um profundo mistério, e faz com que o homem não encontre uma resposta definitiva para a pergunta “por que Deus ama o homem?”. Esse amor é uma contingência gratuita, uma pura dádiva cujo fundamento criador é ele próprio. Temos que acrescentar, porém, um segundo aspecto que não podemos esquecer, se não quisermos formar uma imagem falsa e perigosa. Esse amor deve ser digno de Deus; e, para isso, deve também ser digno do homem, na sua qualidade de pessoa. Isso exige que Deus respeite o homem. Como Deus quis que o homem fosse uma pessoa dotada da dignidade de um ser livre e responsável, dirige-se a ele conforme a essência de sua pessoa. Isso não significa que o homem tenha algum valor em si mesmo que mereça o respeito de Deus. Tudo o que o homem é, a sua existência e dignidade enquanto pessoa, foi-lhe dado por Deus, mas de forma real e sincera, e por isso Ele leva-o a sério. Por causa de sua própria dignidade divina, Deus respeita a dignidade humana.
Devemos insistir muito neste ponto, pois há uma maneira de considerar a soberania de Deus e a dependência do homem que não é digna nem de Deus, nem da sua criatura. Não se pode honrar a Deus desonrando o homem. É verdade que somos apenas criaturas abatidas e profundamente feridas; porém não somos um nada ou algo sem valor. O homem possui um profundo significado diante de Deus, quando o ama.

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