quinta-feira, agosto 09, 2018

A vida do cristão é interior

Por Cardeal D. J. Mercier, “Aos meus seminaristas”, pág 29 a 32.
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Da glória que conquistaria a Igreja escrevera o salmista que ela seria toda interior, “com toda a glória é levada para dentro” (cf. Sl 45/44, 14-15); o mesmo Isaías que ao cabo de sua profecia vibraria de comoção diante dos triunfos conquistadores de Cristo, d’Ele dissera que reinaria silenciosamente: “Eis aqui o meu servo, – assim fala o Senhor –, é o meu escolhido, n’Ele pôs a minha alma as suas complacências; sobre Ele derramei o meu espírito e promulgará a justiça às nações. Não clamará, nem a sua voz se ouvirá nas praças.” (Is 42, 1-2).
Não é, de fato, neste religioso silêncio que vamos encontrar em Nazaré o Menino Jesus? Depois de ocultar nove meses na obscuridade do seio de sua Mãe e após haver acolhido em silêncio na gruta de Belém adorações de pastores e homenagens de reis, ei-Lo durante trinta anos numa oficina ignorada não tendo outra companhia habitual senão a de José – nome que desperta em toda alma cristã a ideia de gravidade, modéstia e paz – e a de sua Mãe cuja característica era, no dizer de São Lucas, o recolhimento e a meditação: “Maria conservava em seu interior”, diz o evangelista, “as palavras que ouvira e se comprazia o seu coração em repassá-las no silêncio” (Lc 2, 51).
Acaso ponderastes já, bastante, este fato extraordinário e paradoxal a nossas vistas humanas, da vida oculta de Jesus numa oficina humilde de Nazaré? Refleti: é o Verbo de Deus, imagem resplendente e consubstancial do Pai Eterno, que reveste a natureza humana para se aproximar de nós e lançar entre os homens sementes de graça e de verdade. Ele viera trazer luz e redenção a todos os povos da terra; mas para inaugurar a missão abençoada não dispõe, segundo o plano divino, de senão cerca de trinta e três anos de vida terrestre. Ora, eis o fenômeno e o paradoxo: destes trinta e três anos reservará três ou quatro apenas para a pregação pública, quanto que os trinta primeiros, tê-los-á passado em recolhido silêncio, a sós com sua Mãe e Pai nutrício, dando-se ao trabalho manual e à íntima união com seu Pai Eterno!

Se alguma coisa no mundo nos pudera capacitar de preço da solidão interior, não seria porventura este espetáculo, em tão viva contradição com as nossas inquietas solicitudes e agitações ordinárias?
Compenetrai-vos, caros Amigos, da eloquência decisiva destas lições. O que mais que tudo importa no cumprimento da divina vontade não é o movimento e o estrondo, menos ainda a agitação febril; não são os atos que ferem no exterior os olhos; mas é o preparar-se a alma tranquila e refletidamente para a ação, é o sujeitar a vontade às comunicações divinas com o fito de assegurar, estreitar e consolidar mais fortemente a nossa união com Aquele em quem temos vida, movimento e ser.
Contemplemos o nosso divino Salvador, como conserva os seus hábitos de Nazaré ainda em sua vida pública: ao cair da tarde, Ele se afasta da multidão rumorosa e, por tomar descanso das fadigas do dia, passa as noites mergulhado em oração a Deus, “passando a noite em oração a Deus” (cf. Lc 6, 12).
Aliás, não Lhe fora prelúdio do ministério público, o retiro de quarenta dias no deserto?
E quando soou a hora dos acontecimentos supremos, já instituída a Santa Eucaristia e antes de se iniciar o drama de sangue da sua paixão, Ele se retira da sala do Cenáculo, aparta-se do colégio apostólico apenas retendo consigo aos três diletos; atravessa em sua companhia a torrente de Cedron e depois, ansiando por solidão mais completa, deixa-os ainda a eles, seus tão diletos, e avança a distância de um lanço de pedra. Então, completamente só, lança-se joelhos em terra e trava o último com bate da vontade robustecida pela graça contra a rebelião tumultuosa da natureza que não sofre morrer; purpureia-lhe a fronte o suor de sangue que lhe corre pela face; não recebe outra consolação que a do anjo enviado pelo Pai; entanto, no seu absoluto recolhimento, Ele bebe toda a energia sobre-humana que pode dar a graça e para logo experimenta coragem bastante a executar o mais sublime ato de caridade: “Não se faça, ó Pai, minha vontade, senão a tua” (cf. Lc 22, 42).
Jesus no Jardim das Oliveiras; Jesus rejeitado dos homens e aparentemente abandonado por seu Pai sobre a cruz, lançando para o céu o clamor confiante da vontade que supera o desespero das aspirações inferiores: “Meu Pai, meu Pai, por que me abandonaste?” (cf. Mt 27, 46); Jesus descido a um túmulo e três dias encerrado num sepulcro; Jesus, enfim, desde então e para sempre até o fim dos séculos, buscando uma derradeira morada no mistério dos véus eucarísticos do pão e do vinho, deixando-se depositar no cibório e encerrar num tabernáculo, e contudo a viver sempre em comunicação inefável com o Pai, a implorar sem tréguas por nós, pois “ele vive para sempre intercedendo por nós” (cf. Hb 7, 25). Eis, caros Amigos, qual é Jesus, o modelo de vida cristã e, por título especial, o modelo dos que estamos onerados da missão de O ensinar ao mundo e de O fazer amar!

(...)

Acaso não é o próprio Salvador divino quem nos oferece este ensinamento? Condição indispensável para ter boa oração é procurar o recolhimento e o silêncio: “Tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6, 6). E em prática familiar com as irmãs de Lázaro, Ele nos lembra dois gêneros de vida: a primeira, correta e irrepreensível, é a de Marta; melhor a outra e preferível, é a de Maria. Marta é ativa, multiplica-se em mil ocupações exteriores, compreendendo a custo como se pode a alma conservar em silêncio aos pés do Mestre a receber sua doutrina.
Maria não tem mais que um pensamento, e só vive de oração.
O divino Mestre não condena a primeira, mas suas preferências abertamente se declaram pela segunda: “Maria escolheu a melhor parte, a qual não lhe será tirada” (Lc 10, 42).

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