quinta-feira, agosto 30, 2018

A esmola

Por Alexandrino Monteiro, “Reflexões evangélicas”, pág 183 a 185


1. Aviso preliminar

Guardai-vos de praticar as boas obras diante dos homens para ser vistos por eles: de outra sorte não recebereis recompensa de vosso Pai que está no céu. Nestas palavras Jesus nos previne em nossas boas obras contra o escolho da vaidade, onde naufraga todo o merecimento. As boas obras que fazeis, como a esmola, o jejum, a oração, não as façais em presença dos homens com o fim de ser vistos e de captar a estima e o renome de virtuosos, de outra sorte serão obras perdidas que ficarão sem recompensa alguma da parte de vosso Pai que está no céu. Este preceito não é oposto ao que Jesus Cristo nos deu, de edificar o próximo com boas obras, quando disse: Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras, porque no homem virtuoso há muitas obras boas, que não se podem ocultar e edificam, e há outras que devem ficar ocultas e ter só a Deus por testemunha. Além de que nas obras que se fazem publicamente, para dar bom exemplo ou evitar escândalo, não se deve nelas procurar a própria glória, mas só a Deus e a edificação do próximo.
Ora, o meio mais eficaz para nos assegurarmos da reta intenção em nossas boas obras é praticá-las em segredo e longe das vistas dos homens. É por isso que diz Jesus Cristo:

2. Obrigação de dar esmolas

Quando deres esmola, não toques a trombeta diante ti como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados pelos homens; digo-vos em verdade, receberam já sua paga; tu, porém, quando deres esmola, não saiba a tua esquerda o que fez a direita, a fim de que tua esmola se faça em segredo e teu Pai, que vê o que é oculto, te dará a recompensa.

O preceito de dar esmola é-nos aqui lembrado por Jesus Cristo como já conhecido de todos: somente nos quer ensinar a cumpri-lo com proveito nosso. Antes de mais nada devemos considerar se o cumprimos, e como o cumprimos.
É Deus, nosso Pai, e Pai comum de todos os homens, que nos deu tudo o que temos. Ou seja muito ou pouco o que nos deu, ele quer que repartamos o que temos com nossos irmãos que têm ainda menos que nós ou estão na miséria. Se Deus nos cumulou de bens, não foi para os esbanjar no luxo, no jogo, nos prazeres e em mil coisas supérfluas, enquanto nossos irmãos estão na indigência. Quantas misérias, quantas dores, quantas lágrimas aliviaríamos, se a tantas despesas inúteis tirássemos um pouco para socorrer os pobres!
A esmola não fica sem recompensa. Deus vê o que damos, vê o bem de que nos privamos, vê a generosidade com que cerceamos do que é nosso para alívio do pobre. A recompensa é a bem-aventurança no céu, e na terra o aumento da fortuna.
Os gastos que fazemos por nós são perdidos: ninguém no-los restituirá. Todas as nossas riquezas, enfim, perecerão e não conservaremos delas senão o que dermos a Deus e ao pobre, por amor de Deus.
Pratiquemos, pois, essa obra cristã tão meritória e do agrado de Deus, e induzamos outros à sua prática. Sobretudo, se devem acostumar os filhos desde a infância a esta obra de misericórdia.
Suas tenras mãos não são ainda capazes de outras obras, e seu coração é nesta idade mais susceptível do sentimento de compaixão pelas misérias do próximo. Formar-lhes o coração para a caridade é deixar-lhes uma herança mais preciosa que as riquezas, pois é ensinar-lhes o uso delas mais glorioso e mais útil.

3. Como se deve dar esmola

E como se deve dar a esmola? Sem procurar a estima e o aplauso dos homens. Comprar a estimação dos homens, à fama de esmoleres, pelo preço e valor da esmola, é dar o céu pela terra, e trocar a bem-aventurança eterna pela glória efêmera que nos granjeia a fama de esmoleres. Assim é que o veneno da vaidade nos corrompe obra tão santa e agradável a Deus, como é a esmola.
Para nos livrar deste escolho da vaidade e aplausos dos homens, Jesus Cristo nos ensina que até a nossos próprios olhos devemos ocultar a esmola e todas as boas obras, não refletindo nelas com vanglória, esquecendo-as, ou, se pensamos nelas, seja para depurá-las das imperfeições, ou para nos repreender do mal que fizemos. Não procuremos para testemunha de nossas ações senão aquele que será o seu Juiz. Que as veja agora ocultas este Pai celeste a cujos olhos nada escapa, a fim de que as torne conhecidas de todo o universo no juízo universal.

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