quinta-feira, julho 12, 2018

Que devemos em nossas obras fugir do vício da vanglória

Por Padre Afonso Rodrigues, “Exercícios da perfeição cristã”, Tomo I, pág. 131 a 133
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Uma das coisas mais recomendadas e repetidas em nossas Constituições e Regras é que procuremos ter a intenção reta, em todas as obras, buscando sempre nelas a vontade de Deus, e a sua maior glória. A cada passo nos repetem aquelas palavras: Para maior glória de Deus ou olhando sempre ao maior serviço de Deus, que é o mesmo.
Tinha nosso bem-aventurado Padre Inácio tão impresso em seu coração este desejo da maior glória e honra de Deus, e tinha tanto uso e exercício de fazer todas as obras por este fim, que daí passou a dizer frequentemente: Da abundância do coração falam os lábios[1]. Este foi sempre seu brasão, a alma e vida de todas as suas obras, como se diz na sua história; e assim com muita razão lhe puseram em sua estampa aquela divisa: Ad maiorem Dei gloriam: “Para maior glória de Deus”.
Essas são as suas armas: esse o seu lema e brasão. Aí está cifrada sua vida e suas façanhas: não se lhe pode dar maior louvor em tão breves palavras. Pois essas também devem ser as nossas armas, o nosso lema e o nosso brasão, para que, como bons filhos, nos pareçamos com nosso Pai.
Com razão nos recomenda tanto isto, porque todo o nosso aproveitamento e perfeição está nas obras que fizermos. Quanto melhores e mais perfeitas forem, melhores e mais perfeitos seremos nós. Ora, as nossas obras valem tanto quanto mais reta e pura for a intenção, e mais alto e perfeito o fim a que as dirigimos. Isto é o que dá ser às obras, conforme o sagrado Evangelho: Os teus olhos são a luz do teu corpo. Se os teus olhos forem simples, todo o teu corpo será luminoso. Mas se os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas[2].
Pelos olhos entendem os Santos a intenção que olha e prevê primeiro o que quer; e pelo corpo entendem a obra que se segue logo à intenção, como todo o corpo segue aos olhos. Diz, pois, Cristo nosso Redentor que é a intenção o que dá luz e resplendor às coisas; e assim, se a intenção e o fim da obra for bom, também a obra será boa, e se for má, também será má; e se o fim for alto e perfeito, também o será a obra.

(...)

Para que procedamos nisto com boa ordem, trataremos primeiro da intenção menos reta de que devemos nos acautelar em nossas obras, não as fazendo por vanglória nem por outros respeitos humanos, e depois diremos do fim ou intenção reta e pura com que devemos fazê-las. Primeiro será sobre fugir do mal, e depois, de praticar o bem, conforme aquelas palavras do Profeta: Desvia-te do mal e faz o bem. Todos os Santos nos avisam que fujamos muito da vanglória, porque é, dizem, um ladrão muito sutil, que costuma assaltar e roubar as nossas boas obras, e entra tão oculta e dissimuladamente, que muitas vezes, antes de ser sentido e conhecido, já nos roubou.
Diz S. Gregório[3] que é como um ladrão disfarçado, que se junta ao viajante fingindo levar o mesmo caminho, e depois, quando este está mais descuidado e tranquilo, o mata e rouba. “Eu confesso”, diz o Santo no último capítulo dos Morais, “que quando paro para examinar minha intenção em escrever estes livros, parece-me que só pretendo agradar a Deus. Porém, quando me não vigio, acho que entra em mim e mistura-se um apetite de contentar e agradar aos homens, e um vão contentamento e complacência. Não sei como, mas o certo é que passados alguns instantes, vejo que não vai aquilo tão limpo de pó e palha, como no princípio; porque sei tê-lo começado com boa intenção, com desejo de agradar exclusivamente a Deus, e depois vejo que já não vai com a mesma pureza.
“Acontece como o comer: começamos por necessidade e entra logo em nós tão sutilmente a gula e a deleitação, que o que principiamos por necessidade, e para sustentar a natureza e conservar a vida, já o continuamos e acabamos por deleite e gosto. Aqui também é assim. Muitas vezes, tomamos o ofício de pregar e outros semelhantes para aproveitamento das almas, e depois nos vai entrando a vaidade, de forma que desejamos agradar e contentar aos homens e ser estimados. E se não acontece assim, parece que se nos abatem as asas, e o fazemos de má vontade.” 


[1] Mt 12, 34; Lc 6, 45.
[2] Mt 6, 22-23.
[3] Greg. c. ult. Mor. et lib. 9. c. 13.

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