quinta-feira, julho 05, 2018

Meu Deus, Amo-Te

Por Leo, J. Trese, “Diálogo sobre o sacerdócio”, pág. 17 a 19.
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Qual é a nossa oração preferida, ao pé da cama, de manhã e à noite, no nosso genuflexório, no nosso escritório, durante os nossos trabalhos e ao volante do carro? É certamente aquela que, por ser pessoal, vem antes de todas as outras. Uma simples afirmação a exprime: “Meu Deus, amo-Te”, dita com sinceridade, contém todas as outras, de menor importância. Foi a que Jesus fez constantemente, por palavras e por ações, durante o seu ministério entre os homens. No céu, é a aspiração eterna e recíproca do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Não é fácil dizê-lo com toda a sinceridade. O amor exige muito do coração que ama. Quantas vezes, nos nossos sermões, não mostramos que ele não hesita em ir até ao extremo limite quando é verdadeiro. Pintamos o quadro da mãe que vela noites inteiras à cabeceira do filho doente. Prestamos homenagem ao trabalho dedicado do pai que ocorre às necessidades da família.
Referimos tocantes histórias de crianças que esvaziam os mealheiros para comprar flores à mãe ou um cachimbo ao pai.
Observamos aos nossos ouvintes que isso valia particularmente pelo amor de Deus. Avisamo-los de que não medissem o deles pelo sentimento. Expusemos-lhes que o amor de Deus é questão de vontade, não de emoção. Insistimos sobre a verdade de que a pedra de toque do nosso amor não é o sentimento mas o oferecimento que estamos prontos a fazer-lhe. A mensagem é sempre a mesma. Quem diz amor, diz sacrifício, sobretudo o mais dilacerante, o de nós mesmos, que a caridade fraterna exige tão amiúde de nós. Repetimos muitas vezes a palavra de S. João: “Aquele que não ama o seu irmão, que vê, como pode amar Deus, que não vê?” (1 Jo 4, 20).
Num intervalo do dia, lá exclamamos nós, levados por um impulso: “Meu Deus, amo-Te”. Depois, um movimento da graça sugere-nos que experimentemos o valor do nosso grito interior. “Sim, está bem – dizemos para nós – mas é que eu amo efetivamente a Deus? Que fiz eu ontem para o mostrar? E hoje?”
Não há dúvida que fiz pelo menos o mínimo, não cometendo pecado grave. A minha oração não é uma mentira flagrante. É um amor bem medíocre aquele que se contenta em ficar pelo mínimo! Não se imagina que um homem possa dizer à noiva ou um filho à mãe: “Irei até aí por ti, mas não mais longe”.

(...)

No meio do meu furor, o hábito readquiriu os seus direitos. Surpreendi-me a murmurar: “Meu Deus, amo-Te”. Mas parecia que as palavras me ficavam na garganta. Ao pensar no que dizia, compreendi que se tratava de uma mentira. Fui prontamente à igreja e fiz a via sacra. “Senhor, que discípulo mais covarde eu sou – confessei eu, seguindo a via dolorosa.
Pedi-Te tantas vezes que me deixasses partilhar a Tua cruz e estava tão seguro de mim que Te fiz imensas promessas. Quero aceitar e suportar por Ti as tribulações de toda a espécie que se abateram sobre mim, o sofrimento físico, os ultrajes, a desolação. E agora, meu querido Senhor e Mestre, onde estão as promessas que Te fiz? Onde estão a minha coragem fácil e as vitórias contadas antecipadamente?”
A luta foi dura, mas consegui vencer-me. O amor de Deus foi o poderoso dissolvente que fez desaparecer o ácido corrosivo do ódio incipiente que ameaçava invadir-me, ensombrar os meus dias e enchê-los de amargura. Ao pé do altar, consegui mesmo rezar pela administração episcopal que faz ouvidos de mercador, pelo meu paroquiano indiscreto e pelo meu confrade irrefletido. Deitei-me muito feliz nessa noite, repetindo: “Meu Deus, amo-Te”.
A pequena oração tinha um gosto suave. Deus sabia quão penosa fora a luta que tinha travado, para que as palavras fossem sinceras.
“Meu Deus, amo-Te”. Contanto que se tenha uma pontinha de boa vontade, a oração opera o que diz. É como um giroscópio espiritual que corrige constantemente a minha tendência para me desviar. É o aguilhão divino que impede que eu me contente com a mediocridade e que estimula o meu desejo de obter de novo a vitória sobre mim mesmo. Nenhum homem normal é capaz da hipocrisia que haveria em recitar a oração sem procurar dar um sentido válido às palavras que pronuncia.
“Meu Deus, amo-Te”. A piedosa afirmação é tão simples e tão fácil de repetir. Nunca a conseguiremos dizer bastantes vezes, se queremos agradar a Deus. Não há nenhuma outra que lhe seja tão agradável.

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