quinta-feira, junho 28, 2018

Os Paradoxos da Sinceridade


Por Marta Braga, “Crônicas de Gustavo Corção”, pág. 33 a 35.
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 ... Ora, meu amigo, é muito fácil dizer que devemos agir segundo nossos sentimentos ou nossas convicções interiores. O meu problema primeiro não vem propriamente da perplexidade de minhas convicções ou da ambiguidade de meus sentimentos. Há muita coisa em que penso ora de um modo ora de outro; há muita coisa em que sinto ora o amargo ora o doce.
Mas não é nessas indeterminações do objeto que reside a principal dificuldade; é antes na indeterminação do próprio sujeito. Serei eu, eu mesmo, fulano de tal, que sente o que sente e pensa o que pensa, ou será o elo cromossômico, a natureza, o clima, o café que este polimorfo conjunto acabou de tomar?
... Curioso paradoxo o da sinceridade erigida em suprema virtude! Fruto sazonado da civilização individua lista, chegou ao apogeu no momento exato em que se arruinou. De Nietzche a Freud o fundamento da sinceridade individualista, procurada na singularidade sensível, procurada no eu carnal, passa do máximo ao mínimo, do fulgurante ao humilhante. Se o centro da pessoa humana tem de ser marcado com critérios ditados pelo empirismo, se o sentir é mais autenticamente pessoal do que o pensar, se é nas profundezas da individualidade, nos abismos da sensibilidade que devemos procurar aquilo que verdadeiramente sentimos, então, ai de nós, somos as mais desgraçadas criaturas. Sim, mais do que desgraçados, somos ainda escarnecidos pelos escalões supremos que governam a farsa cósmica, pois além de sermos joguete de impulsos, temos a requintada infelicidade de não o sabermos, e de termos levado tanto tempo a nos supormos alguma coisa, humilde embora, mas enfim digna, ou merecedora, ou lá que outro termo inventemos, da misericórdia divina.

... Chega-nos agora o psicólogo com a sua psicopatologia dos atos cotidianos, e nos explica que não só nós não fazemos o que queremos como nem sabemos o que queremos. E tudo se torna supremamente ridículo, sim, ridículo, porque o personagem que era digno de dó por causa da farpa que trazia na carne, tornou-se de repente um personagem essencialmente enganado, substancialmente enganado, metafisicamente enganado, coitado!
... A moralidade dessa história é relativamente fácil de compreender: a procura do centro da pessoa, com os critérios materiais do empirismo, só podia chegar a essa confusão, a essa dispersão, a essa anulação da pessoa.
... Muita gente resiste ao ensinamento, à palavra de Deus e à palavra do bom senso humano, com um curioso sentimento de dignidade ofendida, julgando que é mais marcada a personalidade que menos recebe de fora e mais fabrica seus próprios conceitos. Ora, é esse crispado e orgulhoso personagem que mais fraca personalidade possui [...]

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