quinta-feira, maio 17, 2018

Pentecostes


Por Maurício Meschler, “O Dom de Pentecostes”, pág. 11 e 15-17.
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Pentecostes é a festa de gala da natureza. O céu, na realidade, espalhou sobre a terra o espírito de vida. A vida expande-se em torrentes de luz e de calor, ondula-se nas espigas douradas das colheitas, balança-se nos ramos carregados de frutos; faz brotar na verde folhagem “rosas de Pentecostes” cujo escarlate assemelha-se a línguas de fogo caídas do céu. A terra amadurece seus tesouros, prepara uma esplêndida festa; por toda parte desenfreia a vida. A passarada toda, inclusive os rouxinóis, gorjeiam; as árvores da floresta inclinam-se ao sopro da vida, sussurram e parecem falar como num sonho. É a natureza que celebra a Festa de Pentecostes.
Pentecostes é também a festa de gala do Ano Eclesiástico.
Através do horror e das tempestades do inverno, o Sol da Justiça nos apareceu; na Páscoa, mostrou-se na sua glória; na Ascensão, chegou ao apogeu, e agora recebemos o fruto de sua exaltação e de sua atividade: envia-nos o Espírito Santo, para que fique conosco e termine a sua obra. Sim, a descida do Espírito é o fruto maravilhoso da vida e dos sofrimentos de Jesus, é a realização e a consumação de todas as promessas divinas; sua obra é de recolher as colheitas dos campos da nova vida, que o Salvador semeou e cultivou. A última época do mundo pertence ao Espírito Santo.

(...)

O nome do Espírito Santo


A pomba que repousou sobre o divino Salvador no dia do seu Batismo no Jordão, a nuvem luminosa que envolveu o Tabor durante o mistério da Transfiguração, as línguas de fogo que durante o Pentecostes se espalharam sobre os Apóstolos reunidos no Cenáculo, são as primeiras manifestações visíveis do Espírito Santo neste mundo: não são, porém, o começo da sua morada sobre a terra, e muito menos ainda o princípio da sua vida. Não: a pátria do Espírito Santo não é a Terra Santa, não é o mundo; a sua pátria não existe no tempo nem no espaço: é a insondável Eternidade, a inacessível luz da Divindade. “Como podemos pensar no Espírito Santo sem pensar imediatamente no Ser Supremo... no Ser infinito, imutável, com quem nenhuma criatura se pode comparar?”[1]
O Espírito Santo é Deus; eis o seu nome e a sua natureza. É esta a primeira verdade que devemos crer e da qual nos devemos compenetrar, se em nosso peito queremos acender uma sólida devoção para com Ele. Não omitamos portanto coisa alguma de tudo o que possa avivar em nós esta verdade que nos ensinaram na infância. Examinemos as provas da divindade do Espírito Santo; tiremos dela as devidas conclusões.
Instruídos pela Sagrada Escritura e pelo Tradição, acreditamos num Ser Supremo, eterno, puramente espiritual, divino e infinito; nessa essência una e divina, distinguimos três Pessoas, cada uma possuidora e portadora da mesma natureza divina, todas três distintas entre si e não obstante absolutamente iguais
na unidade de uma mesma essência e de um mesmo poder, como muito bem o diz o Símbolo de Santo Atanásio: “Adoramos um só Deus na Trindade e a Trindade na Unidade, sem confundir as Pessoas, nem dividir a substância”. Com o Pai e o Filho, uma destas três Pessoas é o Espírito Santo.
Devemos crer, portanto, que Ele, com o Pai e o Filho, é verdadeiramente Deus, é Pessoa divina, dotada de inteligência e vontade. É verdade de que não podemos duvidar, visto que a Revelação divina Lhe chama Deus, Lhe concede os atributos divinos, e a Tradição cristã nas suas palavras e nos seus atos O reconhece como Deus.
Mais de uma vez a Sagrada Escritura dá ao Espírito Santo o nome de Deus. O Antigo e o Novo Testamento estão de acordo neste ponto.
O Apóstolo das Nações (At 28,25-26), em Roma, transportado de um santo zelo, diz aos judeus que não conseguiu convencer da verdade do cristianismo: “Foi com muita razão que o Espírito Santo, falando a nossos pais pelo profeta Isaías, disse: “Vai a este povo e dize-lhe: Ouvireis e não compreendereis, vereis com vossos olhos e não percebereis”. E quem falava assim ao profeta? Ensina-nos o texto de Isaías: “É o Senhor, diante de cujo trono cantam os Serafins com a face velada: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos, toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6, 2-3.9-10); é o Deus verdadeiro e vivo.
Na primeira epístola aos Coríntios, exorta São Paulo os fiéis à pureza e à castidade, dizendo-lhes: “Não sabeis que sois o templo de Deus?” (1Cor 3, 16). E completa o pensamento, quando no decurso da mesma epístola afirma: “Vosso corpo é o templo do Espírito Santo.” (1Cor 6, 19). Só em honra de Deus se erigem templos: logo o Espírito Santo é nosso Deus. São Pedro não se exprime menos claramente, quando censura a Ananias a sua mentira: “Como pôde Satanás induzir teu coração a mentir ao Espírito Santo? Não foi aos homens que mentiste,
mas a Deus.” (At 5, 3-4).
Nestes diversos textos, o Espírito Santo é chamado simplesmente Deus; ora, segundo Santo Irineu, existe uma regra na interpretação da Sagrada Escritura pela qual só o verdadeiro Deus recebe este nome simplesmente, sem acrescentamento de outro qualquer.
Da mesma forma a Sagrada Escritura reconhece ao Espírito Santo os atributos da Divindade. A origem divina: procede do Pai (Jo 15,26); logo é necessário que seja da mesma essência. Sonda as profundezas da Divindade (1Cor 2,10); é o Espírito de verdade, conhece o futuro e anuncia-o (Jo 16,13); logo possui a ciência divina, a ciência que só a Deus pertence. É Verdade infalível, a Verdade absoluta; ora, a Verdade infalível, absoluta, é Deus.


[1] São Basílio, Lib. de Spir. S, c.  9.

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