quinta-feira, maio 03, 2018

Inteligência musical


Por Íñigo Pirfano, "Ainteligência musical", Prefácio.
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O que faz com que a música desperte o interesse dos homens de todos os tempos?
Responder a essa pergunta é provavelmente uma tarefa fadada ao fracasso, pois obrigar-nos-ia a adentrar no reduto mais íntimo do ser humano: o núcleo onde pulsam suas necessidades e expectativas amorosas e poéticas. Assim, podemos apenas constatar, com admiração, as manifestações musicais presentes em todas as culturas, relacionadas fundamentalmente com as celebrações festivas e com os cantos sobre o amor e a morte. É curioso constatar como o homem constrói, ao mesmo tempo, armas e instrumentos musicais. Talvez isso ocorra porque ambos os tipos de objetos exprimem e asseguram o seu instinto de conservação: as armas constituem as ferramentas para caçar e defender-se, para conservar a vida diante de um inimigo físico; a música, por sua vez, é a grande aliada para preservar o espírito, o seu desejo de permanência – expresso no amor – diante do grande inimigo, que é a morte.
Hoje em dia, o fenômeno musical continua causando fascínio tanto no simples admirador, como no profissional da música. Nós, que temos o grande privilégio de dedicar todos os dias o melhor de nós mesmos a cultivar essa profissão, sabemos bem que há algo na música que não se reduz aos sons, às durações, aos silêncios, aos ritmos, aos pulsos e aos timbres; algo que está muito acima da sábia combinação de belos sons, em conformidade com as leis do contraponto e da harmonia. Esse algo que torna a música tão especial é o que poderíamos chamar de vida.

A música é – deve ser – algo vivo, algo que desperta da letargia da letra impressa para renascer em cada interpretação, brindando o ouvinte com um mundo que não é desse mundo.
A música dos grandes compositores do passado continua falando ao coração dos homens de hoje. Há alguns anos, tive a sorte de assistir a uma interpretação do oratório Jephtha de Haendel, na ocasião de um festival de música religiosa que ocorre anualmente em uma cidade castelhana.
O programa estava bastante atrativo, pois ali se encontravam alguns dos melhores intérpretes da música antiga do panorama internacional. A perfeição daquela atuação tirava o fôlego: afinação, delicadeza, estilo, gosto, leveza, graça, profundidade, unção, e não houve nem mesmo uma mínima queda de tensão durante quase três horas de duração do concerto. Depois de uma experiência como essa, custou muito voltar à realidade insipiente. Esse é o poder transformador e purificador da música. A música constitui uma autêntica via de conhecimento, cuja virtude reside no fato de poder fazer com que cada pessoa dê o melhor de si. Por isso, pode-se dizer com propriedade sobre a existência de uma inteligência musical.

(...)

Compreender e motivar – como notas determinantes da inteligência emocional – pertencem à natureza da prática musical.
Os músicos profissionais vivem-nas intuitivamente e, por que não dizer, de modo um pouco irreflexivo. Falamos de respirar, frasear, articular uns com os outros, sem estar plenamente cientes da importância que isso implica o próprio ato da interpretação musical possui uma natureza amorosa: o intérprete – o seu eu, a sua singularidade – deve desaparecer para conjugar o tu de uma interpretação rica e profunda.
E aí está o paradoxo: nesse ato de rebaixamento, de autonegação, de desaparecimento, a sua personalidade se enriquece com a força necessária para transmitir grandeza. Mas, para possuir essa grandeza, são necessárias a humildade e a inteligência. Este é o quid da interpretação musical, assim como do êxito em qualquer profissão, e da concretização de uma vida bem-sucedida.

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