quinta-feira, maio 10, 2018

A boa vontade em si mesma

Por José Schrijvers, “A Boa Vontade”, pág. 7-10
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Para santificar-se, a alma precisa apenas de boa vontade.
Guardá-la intacta e desenvolvê-la sem cessar, tal deve ser o fim constante e único de sua vida. “A boa vontade, dizia Santo Alberto Magno, supre tudo, está acima de tudo”[1].
A boa vontade entrega o homem totalmente a Deus por um ato muito simples de amor: abandona o passado à Sua misericórdia, confia o futuro à Sua bondade e conserva para si apenas o presente, para santificá-lo.
A boa vontade é uma orientação, em tudo, do homem para seu Deus, uma coordenação de todas as faculdades para Ele, uma restauração da harmonia entre a criatura e o Criador, uma retorno amoroso do filho para seu Pai celeste.
É uma resolução generosa da alma, de se consagrar à glória do divino Mestre e de procurar o bem do próximo na medida de suas forças. É uma renúncia completa a tudo que está em desacordo com a ordem divina, é um sacrifício de todo interesse próprio, um esquecimento inteiro e uma despreocupação constante de si mesmo.
Essa boa vontade conserva-se a mesma tanto na aridez e na penúria como na consolação e na abundância, tanto na tribulação e na inquietação como na paz e na tranquilidade, tanto nos embaraços e na multiplicidade de ocupações como na doçura e nos gozos da oração. Seu ato é um simples movimento do coração que se entrega por completo, disposto a tudo aceitar, a tudo sofrer, a tudo cumprir, desde que o divino beneplácito lhe seja manifestado.

A boa vontade permanece sincera, não obstante as fraquezas e as inconstâncias da alma, as faltas veniais passageiras, as quedas ofensivas do amor próprio. A alma não se santifica em um dia, ao contrário, a vida inteira lhe é concedida com este fim. Depois de cada recaída, a vontade se entrega com simplicidade a Deus, mais uma vez se abandona humildemente a Ele, até que se encontre aderida definitivamente a Ele.
A boa vontade não depende da vivacidade da imaginação, da penetração da inteligência, das qualidades naturais do coração, das vantagens da fortuna, da situação ou do nascimento.
Ela é um ato essencialmente espiritual da livre vontade, um movimento simples para Deus, um olhar amoroso para Ele.
Está no poder de todo homem que tem uma vontade livre e que é ajudado pela graça.
A santidade é acessível a todas as almas. Para alcançá-la é suficiente amar a Deus e agir sempre por amor. Ora, quem não pode amar? O amor é a respiração da alma. Se ela quiser, cada um de seus movimentos pode atrair a Deus e submergi-la no próprio Deus.
A santidade está ao alcance das almas mais simples e mais ignorantes. Deus não quereria que um coração sincero não pudesse encontrá-lO. Uma misteriosa atração inclina-O para as almas retas. Quando descobre uma dessas almas, reserva-a para Si e faz dela Sua morada de predileção. Conta, assim, almas de elite em todas as condições, sobretudo na classe dos humildes e pequenos.
Essas almas puras têm sobre o Deus de infinita pureza um poder irresistível: prendem e obtêm tudo que desejam. Se, para primeira arte lhes agradar, o Senhor tem que fazer milagres, fá-los. Disse um dia a Santa Teresa: “Se eu não tivesse instituído a Eucaristia, hoje a instituiria para ti”. E, assim, do mesmo modo procederia para cada alma pura.
Deus não quis que o caminho que conduz à santidade fosse coberto de obstáculos e repleto de dificuldades. Quanto mais uma coisa é necessária à vida natural do homem, mais esta mesma coisa lhe é dada em abundância. O que é mais necessário do que o ar que respiramos ou a terra que pisam nossos pés, mas, ao mesmo tempo, o que de mais comum? O que há mais indispensável do que a respiração, porém, o que há de mais fácil?
A vida da alma é bem mais importante do que a do corpo, e por isso Deus a torna inteiramente acessível. O ar que nossa alma respira é a graça, que nunca é negada a quem a pede; a terra em que pisa é a divina vontade, que se não esconde nunca sob seus passos; sua respiração é o ato de amor, que brota espontaneamente da boa vontade.
Neste amor, Deus resumiu toda a perfeição. “Toda a nossa perfeição, diz Santo Afonso, consiste no amor de nosso Deus infinitamente amável”[2].
É a caridade que une a alma à Santíssima Trindade, que para Ela orienta todas as faculdades do homem, com todos os seus atos, até o menor, até o último, que comunica a todas as ações sua grandeza, sua nobreza e seu mérito: Acima de tudo, revesti-vos de caridade, que é o vínculo da perfeição (Cl 3,14).
Somos almas de boa vontade? Quem não gostaria de fazer parte deste nome? Neste caso, prestemos atenção à voz do Senhor, esqueçamos nosso povo e a casa de nosso Pai (cf. Sl 11), quer dizer, desapeguemos nossos corações das coisas da terra e sigamos a Jesus Cristo.
Perguntemos-Lhe humildemente: Mestre, onde habitais? (Jo 1,38). E ele nos responderá: Vinde e vede. Ele nos introduzirá na sua própria habitação, no santuário de seu amor, nos admitirá no conhecimento de seus inefáveis segredos e nos ligará por laços tão suaves e tão fortes que nos será impossível quebrá-los.



[1] De adhrerendo Deo, cap. VI. 
[2] Opúsculo Conformidade com a Vontade de Deus.

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