quinta-feira, abril 19, 2018

O dependente das diversões


Por Rafael Llano Cifuentes, “Deus e o sentido da vida”, pág. 99 a 103.
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Também no terreno humano — não só no físico — existe o “horror vacui”. E este horror ao vazio que muitos sentem — essas autênticas neuroses de vazio — , tentam superá-lo não apenas com o trabalho mas também com a diversão e todas as suas variantes: o jogo, a bebida, as drogas, as relações fúteis, as festas e reuniões superficiais, os espetáculos, a boa mesa, as sofisticações sensuais, o tumulto da música, a embriaguez da velocidade, as viagens que os levam a ver tudo sem se deter em nada..., o tempo perdido inutilmente “navegando” na “internet”..., a vontade quase irracional de mudar de lugar, de sentir sempre novas experiências.
Saem de uma fuga — o trabalho —, para entrar em outra, a diversão. Ou melhor: enchem o vazio com um vazio mais denso ainda. Quão acertado é este pensamento de Pascal: “A única coisa que nos consola é a diversão que, entretanto, é a maior das nossas misérias. Porque é o que nos impede de pensar em nós mesmos, e, insensivelmente, nos vai perdendo. Sem isso sentiríamos tédio, o que nos levaria a procurar um meio mais eficaz para dele sairmos. Mas a diversão nos recreia e nos faz chegar insensivelmente à morte”[1].
A necessidade de diversões é como a dependência das drogas: a dose tem que ser cada vez mais forte, mais alucinante, até que se chega a uma compulsão desatinada: multiplicam-se as experiências eróticas, deixam-se dominar pela trepidação da música e da velocidade, ficam “bêbados” de fantasias, de vaidades e de requintes sensuais... e alguns acabam perdendo a vida por qualquer tipo de “overdose”.

Vivemos em um mundo esvaziado de valores profundos. Parece que o que atrai é o que consegue distrair os sentidos. Cada vez utiliza-se menos o pensamento, o raciocínio, no sentido mais genuíno da expressão. Na palavra do insigne professor da universidade de Chicago Allan Bloom, “falta grandiosidade”: a nobreza própria do espírito humano[2]. Vive-se no “império da trivialidade” no dizer de Hutchins, Reitor da Universidade de Harvard[3]. Esta situação cultural leva aparentemente a um tipo de vida suave, “soft”, a um comportamento descontraído, leve, “light...” e, no entanto, conduz, de uma maneira imperceptível mas direta, a uma verdadeira neurose de vazio.
Assim o declara Viktor Frankl: “Nós os psiquiatras, mais do que nunca, nos encontramos com pacientes que se queixam de um sentimento de futilidade o qual atualmente desempenha um papel ao menos tão importante como o sentimento de inferioridade na época de Alfred Adler. Permitam-me citar uma carta que faz pouco recebi de um jovem estudante americano: ‘Tenho 22 anos, um diploma, carro, previdência social e a disponibilidade de mais sexo do que necessito. Agora apenas preciso explicar a mim mesmo qual o sentido de tudo isto’. Entretanto, essa pessoa não só está se queixando de uma sensação de falta de sentido, mas também de vazio, e é por isso que descrevi esse estado em termos de vácuo existencial”[4].
O vácuo existencial tem efeitos desastrosos, como mostra o próprio Frankl e nós mais tarde indicaremos: a depressão que pode levar ao suicídio, à dependência de drogas, à agressividade e à violência.
No fundo dessa síndrome da diversão, que pode levar ao vácuo existencial, pode estar presente uma espécie de “filosofia do mal menor”, que também se poderia denominar de “sabedoria do cinismo”: “é certo, tudo termina. Este é o nosso destino. Não alimentes muitas ilusões a respeito de nada. Ou melhor: não queiras esperar em nada para por nada te desesperar. A paz de espírito é a condição mental resultante de haver aceitado o pior. Aceitaste a morte. Todavia vives ainda. Sim, ainda vives! Então, esquece-te do resto. Assume uma atitude céptica diante de todos os “idealismos” — são muito grandes para ti — não pretendas entendê-los, e agarra-te fortemente a qualquer prazer que se te apresente. Não o deixes escapar! Aproveita-te de todas as sensações agradáveis e voluptuosas. É só o que tens. Aspira o perfume de todas as flores, arranca-as, e, se isto te der gosto, destrua-as entre as tuas mãos. Mastiga-as. Nada sacrifiques aos “princípios”. Não tenhas coração de herói.
Embriaga-te com o presente. Assim te gastarás e morrerás, sem dúvida. Não terás futuro. Mas a vida é assim. Aceita-a como é. Vamos, a que vêm esses pensamentos negros? “Diverte-te!”
Essa filosofia da diversão, do “comamos e bebamos que amanhã morreremos”, essa “sabedoria de glândulas e de hormônios” está bem desmascarada por outra Sabedoria, a divina, quando nos diz: “Nesciamente se disseram a si mesmos os que não raciocinam: curta e triste é nossa vida e não há remédio quando chega o fim do homem, nem se sabe que alguém tenha escapado à morte. Casualmente viemos à existência, e depois desta vida seremos como se não tivéssemos existido; porque é fumo o nosso alento, e o pensamento uma centelha do bater do nosso coração; extinto este, volta o corpo à cinza e o espírito se dissipa como simples ar. Nosso nome cairá no esquecimento e ninguém terá memória de nossas obras; e passará nossa vida como rastro de nuvens, dissipando-se como a neve ferida pelos raios do sol, que ao seu calor se desvanece. Pois a passagem de uma sombra é nossa vida, e sem retorno é o nosso fim. Vinde, pois, gozemos dos bens presentes, apressemo-nos em desfrutar de tudo em nossa juventude”...
Essa postura apresentada pelo livro da Sabedoria, do Antigo Testamento, bem poderia ser a expressão de um baixo existencialismo que parece muito novo e, no entanto, é muito velho. Uma moda que já passou de moda há vários milênios.
“Estes são seus pensamentos — prossegue o texto — mas se equivocam porque os cega a maldade. E desconhecem os misteriosos juízos de Deus, e não esperam a recompensa da justiça nem estimam o glorioso prêmio das almas puras. Porque Deus criou o homem para a imortabilidade...” (Sb 2,1-4).


[1] Pascal, B., “Pensées”, n.º 171, Paris, 1930, pág. 56.
[2] Bloom, A., “El Cierre de la Mente Moderna”, Ed. Plaza e Janes, Barcelona, 1989, pág. 347.
[3] Hutchins, R., “La Universidad de Utopia”, Ed. Endebar, Buenos Aires, pág. 23.
[4] Frankl, V. “Presença Ignorada de Deus”, Ed. Sinodal, São Leopoldo – RS, 1985, pág. 82.

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