quinta-feira, abril 26, 2018

A Religião não proíbe as lágrimas, mas ensina a chorar cristãmente


Por Monsenhor Bougaud, “A dor”, pág. 44 a 47.
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Onde se viu que a religião proibia as lágrimas? A alma mais religiosa de todos os tempos, o tipo ideal de toda a vida celeste, no testemunho mesmo daqueles que não confessam a sua divindade, Jesus chorou. Ele perturbou-se, acabrunhou-se sob os golpes da dor. No Jardim das Oliveiras, banhado de suor e de sangue, disse: “Minha alma está triste como a morte”; e foi preciso que um anjo viesse auxiliá-lo a beber no cálice amargo. Na Cruz, Ele procurou consoladores; teve a necessidade deles, embora, desgraçadamente, não os achasse. No túmulo de Lázaro, derramou lágrimas ainda mais belas, pois eram do coração. Mas, que teriam sido essas lágrimas de Jesus, se Ele não tivesse tido, para consolar-se, o divino poder de restituir a vida ao seu amigo? Perturbação sagrada, santos frêmitos, emoção terna e divina, consolareis eternamente aqueles que sofrem! Lágrimas preciosas, a humanidade vos recolheu; ela vos encravou no ouro e na prata; ela vos adora, genuflexa perante vós, porque lhe ensinastes que, nos grandes infortúnios, podemos chorar e gemer, sem ofender um Deus, que também chorou!
É certo que falsos místicos cometeram o excesso de proibir as lágrimas aos que sofrem. Mas a Igreja os condenou e a humanidade deles desviou os olhos com horror, para os fixar, com uma admiração terna, nos verdadeiros heróis, seus modelos, aqueles que não ultrajavam a natureza humana sob o pretexto de honrar a Deus.
Primeiramente ao pé da Cruz, Maria, a mãe das dores, a mais pura, a mais forte, a mais magnânima das criaturas; mas, ali, fraca e desmaiada, segundo uns, em pé, segundo outros, e debulhada em lágrimas, conforme o testemunho de todos, e torturada pela dor:

Stabat mater dolorosa,
Juxta crucem lacrimosa[1]


Depois do Mestre, após a rainha, eis todos os santos. Observastes algumas vezes seus retratos autênticos? Há uma indizível emoção nos seus semblantes. Eles têm lágrimas nos olhos; e se lêsseis a sua história, veríeis que, com efeito, nem pais, mães, esposas e filhos foram mais humanos do que eles sob os golpes da dor. Quem não conhece, por exemplo, as lágrimas de Santo Agostinho, no leito de morte de Santa Mônica; os gemidos, os lamentos eloquentes de São Bernardo, por ocasião da morte de seu irmão? Quem não tem ainda nos ouvidos os gritos dilacerantes de Santa Isabel da Hungria, quando o seu jovem e caro esposo lhe foi arrancado dos braços? Vede nos autores do tempo as preocupações que se tomaram para anunciar-se a São Luiz a morte de sua mãe; e na plena resignação desse grande santo, os seus soluços, os seus desmaios que fizeram recear por sua vida, e que arrancaram aos assistentes este grito: “Senhor, Senhor, não queirais também morrer!”. É preciso recordar a carta e o pranto de São Francisco de Sales quando morreu sua mãe, a Santa Chantal escandalizando pela imensidade de sua amargura aqueles que a viram chorar? os falsos místicos de que falo não se contentaram com proscrever a sensibilidade e a ternura; como lhes eram necessários modelos, alteraram a história; fizeram santos falsos, irreconhecíveis, odiosos, santos de pedra e de mármore, sem coração, sem entranhas, sem amor. Eles julgaram torná-los maiores! Insensatos! Como aqueles que sob o pretexto de fazer triunfar a fé extinguem a razão e calcam aos pés o espírito humano. Eles não sabem que o encanto soberano das almas religiosas, o que eternamente seduzirá a humanidade nos santos, é esse misto de divino e de humano, de fraqueza e de força, de sensibilidade e de coragem, de gemidos na dor, gritos, desmaios pela morte dos entes amados; porém, gemidos sem murmúrios, gritos sem revoltas, torturas acompanhadas da mais completa e mais comovedora resignação.
Ousemos dizer o nosso pensamento inteiro: é esse dom divino que aumenta neles a essência humana. Pelo menos nunca vi na história, e jamais vejo na vida, gritos de dor semelhantes aos que acho na existência dos santos; e se admiro a intensidade deles, é que, primeiramente, me encantou e me extasiou a sua ternura.
A religião não proíbe as lágrimas. Nunca as proibiu. Proibiria antes que não as derramasses. Ela se surpreenderia de que, num momento de cruciante mágoa, uma lágrima não brilhasse em nossos olhos. Nisso a religião veria uma força que não provém dela. Não reconheceria desse modo o coração que ela procurou criar, o amor cuja beleza revelou ao mundo. Ela se afastaria inquieta, por não achar na face de um cristão o vestígio do semblante de Jesus junto ao túmulo de Lázaro, ou, nos olhos de uma cristã, o traço das lágrimas de Maria ao pé da Cruz. “Bem-aventurados os que choram”. É a palavra da natureza, mas é também a da religião.
Chorai, pois; derramai lágrimas. Eis a vossa vida que se dilacera; eis a metade da vossa alma e a melhor que vos é arrancada! Eis que os frutos do vosso amor caem dos vossos braços, como essas flores que juncam tristemente o solo, depois de bafejadas pelo primeiro sopro do inverno. Chorai; não vos deixeis consolar o homem não vos pode consolar e Deus não permite, Deus não quer essas almas que tão depressa se consolam; que, após a morte de um ente querido, tentam por todos os meios esquecê-lo. Ah! Não esqueçais nunca. “A lágrima, disse São Agostinho, atesta a dor; ela atesta o amor. É o sangue do coração que se desprende em torrente” (Homilia XXVII). Deixai que esse sangue do coração corra ao pé da Cruz, na fé, na esperança e no amor.


[1] “De pé, a mãe dolorosa/ junto da Cruz lacrimosa.” (N. do R.).

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