quinta-feira, março 15, 2018

O valor divino do sofrimento

Por Adolphe Tanquerey, “A divinização do sofrimento”, p. 63-66.
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Segundo um princípio universalmente aceito, nossas ações têm um valor proporcional à dignidade da pessoa. Com efeito, a pessoa é o complemento final de um ser, aquilo que dá o acaba­mento à natureza, aquilo a que chamamos o “eu”, porque consti­tui o nosso centro de unidade e de responsabilidade, o princípio que age e que, agindo, dá à ação o seu verdadeiro valor.
Para melhor compreensão, lancemos um olhar sobre esse ser complexo que é o homem: ao mesmo tempo corporal e es­piritual, ele reúne em sua pessoa o mundo dos corpos e o mun­do dos espíritos. Ele traz em si as características de um vegetal, de um animal e de um espírito. Como o vegetal, ele vive, cres­ce, alimenta-se. Como o animal, ele é dotado de sensibilidade, experimenta o prazer e a dor; conhece as coisas sensíveis e in­dividuais; experimenta emoções e paixões, amores e ódios. E, por fim, ele é espírito, dotado de uma alma simples, espiritual e imortal; ele percebe o universo, é capaz de abstração, ele ra­ciocina; conhece as verdades intelectuais e as verdades morais; tem uma consciência, uma vontade livre, e sabe escolher entre o bem e o mal. Numa palavra, ele é uma pessoa humana, tendo a seu serviço faculdades vegetativas, sensitivas e intelectuais.
Ora, quando ele age como homem, todas as suas ações, mesmo aquelas que procedem das faculdades inferiores, têm um valor humano. Quando ele come e bebe, não o faz como um animal, mas comunica a essas ações um valor, uma digni­dade humana; ele sabe, por exemplo, que o alimento é um meio de reparar suas forças e não somente uma experiência prazerosa que satisfaz o seu paladar; e se, como deve, ele subordina o prazer a um motivo razoável, seu ato é moralmente bom.

Apliquemos esses princípios à pessoa de Nosso Senhor. Ele é verdadeiramente homem, mas também é verdadeiramente Deus, e, consequentemente, suas ações são ao mesmo tempo humanas e divinas. Pois só há nele uma única Pessoa, a pessoa do Verbo (não há em Jesus um “eu” humano, embora haja nele uma natureza humana); o Verbo que, possuindo desde toda a eternidade a natureza divina, quis, no tempo, unir-se pessoalmente ou hipostaticamente à natureza humana. Quando ele anda, quando se alimenta, quando sente alegria ou tristeza, quando conhece a verdade por ciência experimental, por ciência infusa ou pela visão beatífica, todas essas ações são ao mesmo tempo humanas e divinas: humanas porque são realizadas na e pela natureza humana; mas divinas, porque são realizadas, em última análise, pela pessoa do Verbo que possui essa natureza humana e que se serve dela para agir. Eis porque todas essas ações têm um valor divino, já que é a pessoa do Filho de Deus que as realiza, que assume a responsabilidade por elas e lhes confere sua dignidade e seu valor moral. Quando Jesus andava e se fatigava nos caminhos da Judeia ou da Galileia, essas fadigas eram as fadigas de um Homem-Deus, e tinham uma dignidade, um valor moral infinito. Quando ele sentia frio no inverno ou sofria com a ingratidão dos homens, era um sofrimento divino. Quando ele trabalhava na oficina de Nazaré, esse trabalho tinha um valor infinito e contribuía para a nossa redenção. Quando ele evangelizava as cidades e aldeias da Galileia e da Judeia, era uma pregação divina. Quando se retirava para um monte, à noite, para rezar, sua oração era infinitamente agradável ao Pai, e, como tal, era sempre atendida.
Pela mesma razão, todos os seus sofrimentos – e nós vimos que estes, no fundo, nunca deixaram de existir – tinham um valor infinito, e cada um deles, por si só, teria bastado para nos resgatar, se Deus não tivesse decidido que, para operar a nossa salvação, eles fossem coroados pela crucifixão e pela morte.
Quão abundante e superabundante foi, pois, a nossa redenção! É o que declara o Papa Clemente VI: “Ele nos resgatou, não a preço de ouro e prata, bens corruptíveis, mas com seu sangue precioso, o sangue do Cordeiro sem mancha. Esse sangue, ele o derramou consentindo em deixar-se imolar, embora inocente, sobre o altar da cruz; não derramou somente uma gota – a qual teria, entretanto, bastado para nossa redenção em virtude da união hipostática com o Verbo –, mas derramou-o todo inteiro, com uma santa prodigalidade.” E acrescenta que, com isso, ele adquiriu um tesouro espiritual infinito.
Esse tesouro é infinito por causa da dignidade infinita da pessoa, que conferia a cada ação, a cada sofrimento do Salvador um valor infinito, de tal forma que cada um deles teria sido plenamente suficiente para resgatar o mundo inteiro. Se consideramos, pois, todo o conjunto de sua vida, e se não perdemos de vista que, em todas e em cada uma de suas ações, ele agia como Homem-Deus, podemos entrever até que ponto foi infinita a nossa redenção.
Acrescentemos ainda que Nosso Senhor tudo fazia com as mais perfeitas intenções, a glória de seu Pai e a salvação eterna das almas, e que agia com o mais perfeito fervor. Assim, suas ações, já infinitas por causa da dignidade da pessoa, recebiam ainda um acréscimo de valor, embora acessório.
Essa é uma doutrina muito reconfortante para nós. Essas ações e esses méritos nos pertencem, porque somos os membros de seu corpo místico. Temos, pois, o direito de nos apropriar desses méritos e de oferecê-los a Deus por nós e por nossos irmãos. Também ele se apropria de nossas boas obras e de nossos sofrimentos, e, fazendo-os seus, comunica-lhes um valor que, sem ser igual ao de suas próprias ações, ultrapassa em muito qualquer valor humano. Nossos sofrimentos, unidos aos de Nosso Senhor, não são divinos, porque conservamos nossa personalidade humana, mas são divinizados, no sentido em que nossa alma é dita divinizada pela graça santificante.

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