quinta-feira, março 22, 2018

A entrada em Jerusalém

Por Santo Afonso Maria de Ligório, “A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo”, p. 136-142.
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Diz Santo Agostinho não haver coisa mais útil para conseguir a salvação eterna do que pensar todos os dias nos tormentos que Jesus sofreu por nosso amor. E já Orígenes tinha escrito que o pecado não poderia certamente imperar na alma que meditasse continuamente na morte de seu Salvador. Além disso, revelou o Senhor a um santo anacoreta não haver exercício mais apropriado para acender num co­ração o amor divino do que meditar na Paixão de nosso Redentor. Por essa razão dizia o Pe. Baltasar Álvarez que a ignorância dos tesouros que possuímos em Jesus, na sua paixão, é a ruína dos cristãos, e por isso repetia a seus penitentes que não pensassem ter feito coisa algu­ma se não tivessem ainda conseguido ter sempre fixo no seu coração Jesus crucificado. As chagas de Jesus, dizia São Boaventura, ferem os corações mais duros e inflamam as almas mais frias.
Ora, como adverte sabiamente um douto escritor, não há coi­sa melhor para nos descobrir os tesouros recônditos na Paixão de Je­sus Cristo do que a simples narração dessa mesma paixão. Basta para inflamar uma alma fiel no amor divino a narração feita pelos santos evangelhos e considerar com olhos cristãos tudo o que o Salvador sofreu nos principais teatros de sua Paixão, isto é, no horto das Oli­veiras, na cidade de Jerusalém e no monte Calvário. São belas e boas as muitas considerações feitas e escritas por autores piedosos sobre a paixão de Jesus; mas certamente faz maior impressão a um cristão uma só palavra das Sagradas Escrituras do que cem ou mil conside­rações e revelações escritas ou feitas a algumas pessoas devotas, pois as criaturas nos afiançam que tudo o que elas nos referem é certo e tem uma certeza de fé divina.
Para tal fim quis, em benefício e para consolação das almas que amam a Jesus Cristo, pôr em ordem e referir simplesmente (ajuntando apenas algumas breves reflexões e afetos) o que nos dizem da paixão de Jesus os sagrados evangelistas, os quais nos oferecem matéria de meditação para cem e até mil anos, capaz de inflamar ao mesmo tempo os nossos corações em amor para com nosso amantíssimo Redentor.

Ó Deus, como é possível que uma alma que tem fé e considera as dores e ignomínias que Jesus Cristo sofreu por nós não arda de amor por Ele e não tome firmes resoluções de fazer-se santa para não ser ingrata para com esse Deus tão amoroso? É preciso fé; do contrário, se a fé não nos desse a certeza, quem poderia aceitar o que Deus fez em verdade por nós? “Ele se aniquilou a si mesmo, assumindo a con­dição de escravo” (Fl 2,7). Quem poderia crer que Jesus é o próprio ser supremo que é adorado no céu, vendo-o nascer num estábulo? Quem o vê fugindo para o Egito, para livrar-se das mãos de Herodes, crerá que Ele é onipotente? Quem o vê a agonizar de tristeza, no horto, o julgará felicíssimo? Vê-lo preso a uma coluna, pendente de um patí­bulo e crê-lo Senhor do universo?
Que espanto ver um rei que se fizesse verme, que se arrastasse pelo chão, que habitasse numa cova de barro e daí desse leis, criasse mi­nistros e governasse o reino. Ó santa fé, revelai o que é Jesus Cristo, quem é esse homem que parece tão vil como todos os outros homens: “O Verbo se fez carne” (Jo 1,14). São João nos atesta que Ele é Verbo eterno, é o Unigênito de Deus. E qual foi a vida que passou na terra esse Homem-Deus? Ei-la, referida por Isaías: “Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores” (Is 53,3). Ele quis ser o ho­mem das dores e não houve um instante em que Ele estivesse livre de dores. Foi o homem das dores e o homem dos desprezos. Desprezado e como o último dos homens, sim porque Jesus foi o mais desprezado e maltratado, como se fosse o último e o mais vil de todos os homens.
Deus! Preso por guardas como um malfeitor! Deus flagelado como um escravo! Tratado como rei da burla! Deus morre pendente num lenho infame! Que impressões não devem causar estes prodígios em quem tem fé? E que desejo não deverão infundir de padecer por Je­sus Cristo? Dizia São Francisco de Sales: “As chamas do Redentor são outras tantas bocas que nos ensinam como devemos padecer por Ele. Esta é a ciência dos santos, sofrer constantemente por Jesus, e assim tornaram-se depressa santos. E como não nos abrasaremos em amor à vista das chagas do Redentor? Que ventura podermos ser abrasa­dos pelo mesmo fogo em que se abrasa o nosso Deus, e que alegria de sermos unidos a Deus pelas cadeias de amor”.
Mas por que então tantos fiéis contemplam Jesus Cristo na cruz com olhos indiferentes? Assistem até na Semana Santa à solenidade de sua morte, mas sem nenhum sentimento de ternura ou gratidão, como se se tratasse de uma coisa irreal ou que nada tivesse conosco. Talvez não saibam ou não creiam no que dizem os evangelhos sobre a Paixão de Jesus Cristo? Respondo e digo que muito bem o sabem e creem, mas não refletem nisso. Pois quem o crê e nisso pensa não po­derá deixar de se abrasar no amor de Deus, que tanto padeceu e mor­reu por seu amor.
“O amor de Cristo nos constrange” (2Cor 5,14), escreve o Apósto­lo. Quer dizer que na paixão do Senhor não devemos considerar tan­to as dores e os desprezos que Ele padeceu, mas o amor com que os suportou, pois se Jesus quis sofrer tanto, não foi unicamente para sal­var-nos, já que para isso bastava uma simples oração sua, mas para nos patentear o amor que nos consagra e assim ganhar os nossos co­rações. E de fato, se uma alma pensa neste amor de Jesus Cristo, não poderá deixar de amá-lo: “O amor de Cristo nos constrange”. Ela se sentirá presa e obrigada quase por força a dedicar-lhe todo o seu afeto. Por esta razão Jesus Cristo morreu por nós todos, para que não vivamos mais para nós, mas exclusivamente para esse amantíssimo Redentor, que por nós sacrificou sua vida divina.
Oh! Felizes de vós, almas amantes, que meditais continuamente na paixão de Jesus, porque “tirareis com alegria águas das fontes da sal­vação” (Is 12,3). Vós tirareis águas perenes de amor e confiança des­sas fontes felizes que são as chagas de vosso Salvador. E como poderá duvidar ainda da divina misericórdia qualquer pecador, por maiores que sejam os seus pecados, se ele se arrepende de suas culpas, à vis­ta de Jesus crucificado, sabendo que o Pai Eterno carregou sobre esse seu Filho dileto todos os nossos pecados, para que Ele satisfizesse por nós a justiça divina? “O Senhor fez recair sobre ele o castigo das fal­tas de todos nós” (Is 53,6). Como poderemos temer que nos negue al­guma graça, ajunta São Paulo, “aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou?” (Rm 8,32). 139

Jesus entra em Jerusalém
“Eis que teu rei vem a ti cheio de mansidão, montado numa jumenta, num jumentinho, filho da que leva o jugo” (Mt 21,5). Nosso Redentor, avizinhando-se o tempo de sua Paixão, parte de Betânia para entrar em Jerusalém. Que humildade de Jesus Cristo em querer entrar nes­sa cidade sentado sobre um jumento, sendo Ele o rei do céu. Ó Jerusa­lém, contempla o teu rei, como ele vem humilde e manso. Não temas que Ele venha para reinar sobre ti e apossar-se de tuas riquezas; não, Ele vem todo amor e cheio de compaixão para salvar-te e trazer-te a vida com sua morte. Entretanto, o povo, que já O venerava por causa de seus milagres e especialmente por causa da ressurreição de Láza­ro, vem ao seu encontro. Uns estendem suas vestes sobre o caminho em que devia passar, outros espalham folhagens de árvores para O honorificar. Quem diria então que esse Senhor, recebido com tantas honras, dentro de poucos dias teria de aparecer aí mesmo como réu condenado à morte com uma cruz às costas?
Meu caro Jesus, quisestes, pois, fazer essa entrada solene para que vossa paixão e morte fosse tanto mais ignominiosa quanto maior fora a honra recebida. Os louvores que agora vos dá essa ingrata cidade, em poucos dias serão transformados em injúrias e maldições. Ago­ra vos dizem: “Hosana ao Filho de Davi, bendito aquele que vem em nome do Senhor” (Mt 21,9). E depois levantarão a voz, dizendo: “Fora com ele! Fora com ele! Crucifica-o” (Jo 19,15). Agora despojam-se de suas próprias vestes, e depois vos despojarão das vossas para vos fla­gelar e crucificar. Agora cortam as palmas para as colocar debaixo dos vossos pés, e depois cortarão ramos de espinhos para com eles vos atravessarem a cabeça. Agora vos bendizem e louvam e depois vos encherão de insultos e blasfêmias. Ao menos tu, minha alma, dize­-lhe com amor e gratidão: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Meu amado Redentor, sede sempre bendito, já que viestes salvar-me: se não tivésseis vindo, estaríamos todos perdidos.
“Aproximando-se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e cho­rou sobre ela” (Lc 19,41). Jesus, ao se aproximar da infeliz cidade, a contemplou e chorou, pensando na sua ingratidão e ruína. Ah, meu Senhor, vós, chorando então sobre a ingratidão de Jerusalém, chorá­veis também sobre a minha ingratidão e a ruína de minha alma. Meu amado Redentor, vós chorais vendo o dano que eu mesmo me cau­sei, expulsando-vos de minha alma e obrigando-vos a condenar-me ao inferno depois de haverdes morrido para me salvar. Oh! Deixai que eu chore, pois é a mim que compete chorar ao considerar o mal que vos causei, ofendendo-vos e separando-me de vós, que tanto me amastes. Eterno Pai, por aquelas lágrimas que vosso Filho derramou sobre mim, dai-me a dor de meus pecados. E vós, ó amoroso e terno Coração de meu Jesus, tende piedade de mim, pois eu detesto acima de todos os males os desgostos que vos dei e estou resolvido a nada mais amar afora vós.
Jesus Cristo, tendo entrado em Jerusalém e se ocupado o dia in­teiro com a pregação e cura dos enfermos, pela tarde não encontrou ninguém que o convidasse a repousar em sua casa; viu-se por isso obri­gado a voltar novamente a Betânia. Meu amado Senhor, se os outros vos expulsam, eu não quero expelir-vos. Houve, é verdade, um tempo desgraçado em que eu vos expulsei de minha alma: agora, porém, estimo mais estar unido a vós do que possuir todos os reinos do mun­do. Ah, meu Deus, o que poderá jamais separar-me do vosso amor? 

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