quinta-feira, março 01, 2018

A cruz às costas

Por Frei Luis de la Palma, “História da Sagrada Paixão”, p. 243-253.
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1. O governador proclamou a sentença contra o Salvador, um dos seus ministros a registrou, e Ele a aceitou por obediência ao seu Pai, com a mesma humildade e caridade com que a aceitara desde o momento em que fora concebido, e disse as palavras que em seu nome foram escritas: Meu Deus, eu quero cumprir a vossa vontade, e dentro do meu coração tenho a vossa lei (Sl 39,9).
Nesse salmo também está escrito sobre o Salvador: Não quiseste sacrifícios e oblações, mas abriste-me os ouvidos (Sl 39,7), ou, como disse São Paulo: Tu não quiseste sacrifício e ofe­renda, mas me formaste um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não foram do teu agrado. Por isso eu digo: Eis-me aqui – no rolo do livro está escrito a meu respeito – eu vim, ó Deus, para fazer tua vontade (Hb 10,5-7).
Assim, não se pode duvidar de que, nesse momento, o coração do Senhor estava cheio de fervorosos afetos, profunda obediência e ardente caridade para com Deus e os homens; e Ele certamen­te dizia: “Meu Pai, para isso nasci e para isso vim ao mundo, não para buscar descanso ou a minha glória, mas sim a Vossa glória e a salvação das almas que me confiastes. Os homens eram os réus, os acusados e os que seriam condenados em Vosso justíssimo tri­bunal; e, para livrá-los da justa e rigorosa sentença que receberiam, Eu me apresentei como réu e culpado no injusto tribunal dos homens, para ser condenado por eles. Recebei, Pai Eterno, essa sentença no lugar da que daríeis contra eles; que Eu, ino­cente e justo, seja condenado por eles, e que eles sejam liberta­dos e absolvidos por Mim, mesmo sendo culpados e pecadores”.

2. Pilatos, tendo cumprido o seu ofício, retirou-se para sua casa, e os soldados começaram a execução da sentença. Os sacer­dotes deram a ordem de como o julgamento deveria ser anuncia­do para toda a cidade, para as cidades vizinhas e aos forasteiros que estavam em Jerusalém para celebrar a Páscoa: que o gover­nador, depois de receber muitas informações, convencera-se dos embustes e dos delitos de Jesus, e ordenara que o crucificassem com outros dois ladrões. Por isso, havia uma quantidade extra­ordinária de pessoas na casa do governador, pois todos deseja­vam testemunhar esse notável acontecimento. Como o juiz já se ausentara, os soldados encarregaram-se do réu sentenciado, conforme relata o evangelho: Susceperunt autem Iesum – Eles to­maram Jesus (Jo 19,16), ou seja, os que executariam a sentença apoderaram-se Dele, conforme está escrito no salmo: Susceperunt me, sicut leo paratus ad praedam – Receberam-me como um leão prestes a devorar a sua presa (Sl 16,12).
A primeira coisa que fizeram foi tirar a púrpura (Mt 27,31; Mc 15,20) com a qual o tinham vestido para zombar Dele, e, caçoan­do, descobriram outra vez o seu corpo virginal, ensanguentado e marcado com muitos hematomas. O Senhor quis dar-nos a tú­nica com a qual foi desonrado, marcada pelo seu sangue, como uma rica herança, para que nós fossemos honrados com ela, “de­sejando sofrer as injúrias, os falsos testemunhos e as afrontas, e sermos considerados loucos por parecer e imitar de alguma ma­neira o nosso Criador e Senhor Jesus Cristo”. Isso é “vestir as suas vestes e trajes, as quais Ele vestiu para nosso proveito espi­ritual, dando-nos o exemplo para que, em tudo o que for possível, mediante a sua divina graça, desejemos imitá-lo e segui-lo; pois Ele é o caminho que conduz os homens à vida”.
O Evangelho não diz se retiraram a coroa de espinhos; assim, provavelmente o Senhor permaneceu com ela, para seguir co­roado, como vítima agradável a Deus, para o altar da cruz. Não havia razão para tirar a coroa daquele que era Rei eterno e por todos os séculos. A capa vermelha foi retirada para vestir e hon­rar o seu corpo místico, mas a coroa deveria permanecer Nele, pois Ele é a cabeça desse corpo.
3. Depois de retirar a capa vermelha, cobriram-no novamente com as suas próprias vestes (Mt 27,31; Mc 15,20), para desonrá-lo ainda mais e para que o reconhecessem quando fosse levado ao suplício. A capa foi retirada com facilidade, pois, conforme dis­semos, possuía uma abertura na frente; mas a sua túnica era sem costuras e fechada, e era preciso vesti-la pela cabeça. Quem po­derá dizer com quanta crueldade e falta de piedade o terão ves­tido aqueles verdugos? A túnica teria ficado presa nos espinhos, e eles, com estirões, tentariam fazê-la passar, causando agudas dores ao mexer neles e fincá-los novamente na cabeça do Senhor. Tudo isso deve ter acontecido no pátio do pretório, onde os sol­dados zombaram Dele; e à porta estava a cruz, grande e alta, pois grande era o homem que seria posto nela e elevado da terra, (Jo 12,32), conforme Ele mesmo tinha dito.
4. Barrabás fora libertado, um ladrão, homicida e revoltoso (Lc 23,25), mas outros dois ladrões que mereciam a morte permanece­ram presos, e decidiram crucificá-los junto com o Salvador; pro­vavelmente isso foi uma exigência dos judeus, que o governador concedeu de boa vontade. Os primeiros, dessa forma, queriam tornar mais solene esse ato de justiça e propiciar ao povo que os acompanhava um espetáculo ainda mais notável; e o segundo, para desonrar ainda mais o Salvador e assim disfarçar melhor a malícia e insensatez com que fora julgado, equiparando-o a dois ladrões para que todos pensassem que o Senhor fora condenado de forma tão justa quanto eles. Mas Deus serviu-se de suas más intenções para tornar ainda mais ilustre a humildade de seu Filho, e, conforme disse São Marcos (Mc 15,28), para cumprir a profecia de Isaías, que disse: Et cum sceleratis reputatus est – E foi conta­do entre os malfeitores (Is 53,12). Talvez o cárcere público ficas­se junto às casas do governador, e trouxeram os ladrões para o pátio do pretório, onde o Salvador os aguardava. Ele olhou-os e recebeu-os com a mesma compaixão com que sempre recebera os pecadores, mas principalmente compadeceu-se deles porque seriam seus companheiros na desonra e tormento. Talvez desde esse momento eles já tenham começado a blasfemar contra o Se­nhor, impacientes por causa da pena, e com desdém e desprezo, pois somente para desonrá-lo é que seu castigo era antecipado, e seriam sentenciados em um dia tão solene, em sua companhia.
5. Tudo isso acontecera diante dos olhos da Virgem, que conhe­cia com detalhes tudo o que se passava. Ela ouvia o barulho e os gritos das pessoas, e via tudo o que era possível ver de um lugar mais afastado. As santas mulheres que a acompanhavam, vendo a resistência de Pilatos diante dos sacerdotes e do povo, e os meios que ele buscara para libertar o Senhor, tiveram esperanças de que tudo poderia acabar bem. Quem poderá descrever a dor que senti­ram em seus corações e as lágrimas que voltaram a correr de seus olhos ao ver o juiz rendido e a sentença dada e publicada, e sendo já executada? Mas a Virgem Santíssima, que sabia melhor do que elas o que aconteceria e estava preparada para esse difícil momen­to, tão cruel e rigoroso, não fez e nem disse coisa alguma que não fosse de suma magnanimidade e modéstia; ela recebera forças do Espírito Santo, que a atendia conforme a necessidade da situação. Embora estivesse atravessada por uma agudíssima dor, fora preve­nida pela divina graça e orientada por Deus. Ele guiava-a ao santo monte para que ela pudesse acompanhar com mais proximidade as afrontas e os tormentos de seu Filho, e ela decidira ficar em um lugar de onde pudesse vê-lo e ser vista por Ele quando passasse. Assim, movida por sua maravilhosa perseverança, adiantou-se com as santas mulheres e pôs-se no lugar que desejava.
6. Fora da cidade havia uma pequena colina, situada entre a parte setentrional e a ocidental do monte Sião, do lado esquerdo de quem sai pela porta da Cidade chamada Judiciária, também localizada na parte ocidental da cidade. Esse lugar era destina­do à condenação dos malfeitores, e por isso ficava fora da cidade, para que os corpos mortos dos condenados não causassem hor­ror aos moradores; mas não muito longe (Jo 19,20), para que as pessoas pudessem, sem muita dificuldade, presenciar os castigos dos malfeitores, para que servissem de exemplo a todos.
Aqueles que mediram a Terra Santa dizem que esse monte fica a quinhentos passos da cidade, e a mil, trezentos e vinte e um passos da casa de Pilatos. Em hebraico, esse lugar chama-se Gólgota (Jo 19,17), e, em latim, significa Locus Calvarie, o lugar das caveiras. Para abreviar, nós o chamamos comumente de Cal­vário. O monte recebe esse nome, ou porque ali se degolavam os malfeitores, e, geralmente, não se enterravam as suas cabeças, ou porque ali ficavam os corpos dos condenados até que, consu­midos pelo tempo, restassem apenas os ossos. Por uma razão ou outra, esse lugar estava cheio de caveiras.
Não seria justo deixar de mencionar a tradição dos hebreus e a opinião de grandes autores e santos doutores: naquele lugar estaria enterrado o corpo do primeiro homem e pai de todos, Adão, e ali estaria a sua cabeça. E, por causa de sua importância, o monte todo foi chamado de Gólgota ou calvariae locus. Se isso é verdade – o que nem todos admitem – por mistério e particular providência de Deus, no mesmo lugar onde estava enterrado o primeiro homem, morreu o segundo Adão; no lugar onde estava o corpo daquele que foi a origem da nossa morte foi-nos dada a vida; e foi derramado o sangue do Filho de Deus sobre a cabeça daquele que, por ser do gênero humano, comunicou a todos os seus filhos o pecado original, que seria perdoado com esse sangue.
De qualquer maneira, o lugar era infame e considerado im­puro pelos judeus, e era abominável para todos. Nesse lugar de­cidiram crucificar o Salvador, castigando-o como se fosse um malfeitor, na companhia de outros ladrões, igualando em tudo o Senhor a eles, para que a sua desonra fosse maior. Levaram­-no pelas ruas públicas para o mesmo local onde costumavam executar os malfeitores. Conforme afirma São Paulo (Hb 13,11), assim se cumpriu um mandamento do Levítico: que o sangue do bezerro sacrificado por causa de algum pecado fosse levado ao tabernáculo e ao santuário, e o corpo fosse queimado fora do acampamento (Lv 16,27). Foi por isso que Jesus, para santificar o povo com o seu próprio sangue, sofreu do lado de fora da porta da cidade (Hb 13,12).
Et eduxerunt eum – Tomaram Jesus (Jo 19,16). Depois de tudo preparado, levaram-no para ser crucificado, com mais solenidade que de costume, por causa das circunstâncias particulares daquele momento. A quantidade de pessoas pelas ruas era extraordinária, pois o Senhor era muito conhecido por toda a terra, e porque Je­rusalém estava cheia de forasteiros por causa da Páscoa. Todos estariam falando sobre isso, por terem-no condenado com tanta violência e publicidade, e dariam vários pareceres, alguns defen­dendo e outros acusando o Salvador, concordando com a opinião dos magistrados e sacerdotes. Todos estariam muito agitados, e iam e vinham da casa do presidente com a notícia de que logo o Senhor seria levado para o Calvário, e todos desejavam ser o primeiro a vê-lo sair sob um aspecto tão miserável.
7. O Salvador saiu da casa do governador acompanhado por uma grande multidão, sob o poder dos verdugos e dos soldados, que o levavam com uma corda presa à sua garganta; e provavel­mente foi recebido pelas pessoas que estavam à porta e na pra­ça com muito barulho e vozerio, conforme costumavam fazer em situações semelhantes, olhando com curiosidade para o seu rosto e observando detalhadamente o seu aspecto e o seu sem­blante. E Ele estava tão diferente, por causa do sangue, golpes e cusparadas, que somente os que já tinham conversado com Ele conseguiriam reconhecê-lo.
A cruz do Senhor estava do lado de fora da casa de Pilatos, a uma distância de vinte e seis passos, espaço necessário para pôr em ordem a procissão. Dizem que a cruz teria quinze pés de altura, e o madeiro transversal, oito. A largura seria propor­cional ao seu tamanho, o quanto fosse preciso para sustentar um corpo de grande estatura. Essa cruz tão grande e tão alta seria a primeira coisa que o Salvador viu assim que saiu da porta, e nela reconheceu as armas de sua vitória, o cetro do seu reino, o tro­no de sua majestade, o tribunal de sua clemência e a chave com a qual abriria as portas do céu.
Assim que se aproximou dela, os bárbaros soldados, que pa­reciam não possuir mais nenhum rastro de humanidade, man­daram que a colocasse sobre os seus ombros, e que a carregasse sozinho até o lugar onde seria crucificado. Oh! Que novo jeito de executar a sentença, fazendo com que o condenado leve sobre as costas a sua cruz, que aquele que irá morrer carregue o instru­mento de sua morte! Quando os homens perversos e delinquen­tes são levados ao suplício, escondem-lhes o instrumento que tirará a sua vida, para não os fazer sofrer ao vê-lo; e àquele que dá a vida a todos fizeram ver, abraçar e carregar sobre os seus ombros o madeiro de sua morte, no qual seria cravado. E era tão grande e tão pesada, que apenas um homem saudável e robusto poderia, com dificuldade, carregá-la; o que dizer então daquele que estava exausto e consumido!
8. Pode ser que, conforme dizem alguns, fosse costume fa­zer com que os condenados levassem a cruz com a qual seriam crucificados, e parece que a sentença do Salvador faz alusão a isso: Aquele que quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me (Mc 8,34; Mt 16,24). Por que nos mandaria Ele tomar a cruz, se não fosse costume levá-las os que seriam crucificados nelas? E, se era assim, demonstraram não somente uma grande crueldade ao fazer o Salvador levá-la e sustentar aquele peso, quando mal podia sustentar a si mesmo, mas também sumo desprezo, pois, se a cruz era algo tão infame e desprezível, e que somente os que seriam executados a carregavam, pensaram que não have­ria alguém mais vil e desprezível do que Ele que pudesse ou qui­sesse carregá-la. Não levaram em conta a sua fraqueza e nem o seu cansaço e fadiga, pois não se importavam com Ele. Queriam apenas levá-lo pelas ruas públicas à vista do povo, humilhado e ofendido, carregando um peso tão infame, e que pela cruz todos soubessem que Ele seria crucificado nela. O Senhor abraçou-a de boa vontade, vendo e considerando as maravilhas que realizaria por meio dela, e através dela carregou sobre os ombros o peso dos nossos pecados, o qual somente Ele conseguiria suportar; e levantou no alto o cetro do seu império, conforme disse Isaías: Carregou sobre seus ombros o seu reino e o seu império. E tomando sobre si a cruz, saiu para o lugar chamado Calvário (Jo 9,17).
9. Assim, o Senhor começou a caminhar pelas ruas públicas de Jerusalém. Adiante ia uma multidão, depois os sacerdotes, os anciãos e magistrados, os escribas e fariseus, muito conten­tes pela vitória que tinham alcançado, seguidos pelos soldados com as suas armas; pois, se os judeus tinham levado os soldados para prendê-lo, muito mais os levariam para crucificá-lo, temen­do sempre que os seus discípulos causassem algum alvoroço no povo; portanto, era preciso estar preparado para qualquer coisa que pudesse acontecer. Depois deles seguiam os verdugos e os encarregados da execução com os cravos, verrumas, cordas, mar­telos e os demais instrumentos necessários. Por último, iam os condenados, que eram três: os dois ladrões, e, depois deles, como o mais insigne, o Salvador com a sua cruz sobre os ombros, segui­do por uma multidão e por mulheres que choravam e se lamenta­vam (Lc 23,27), pois muitos lhe queriam bem e eram gratos pelos benefícios que Dele tinham recebido. Não faltaria nesse ato tão solene a voz do pregoeiro, que iria anunciando a razão pela qual Pilatos condenara aquele homem: pois tinha blasfemado contra Deus, era traidor de César e agitara o povo com os seus embustes e mentiras; e assim o povo concordaria com a sua rigorosa sen­tença. Os soldados faziam barulho com as armas e vociferavam para abrir espaço entre a multidão, que corria insistentemente entre as ruas e bloqueava o caminho, para ver o rosto do Salva­dor, que estava tão diferente do que conheciam. Dessa maneira, Caim, o irmão mais velho, levava Abel para o campo para tirar-lhe a vida.

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