quinta-feira, março 08, 2018

A caminho do Calvário

Por Cardeal Newman, “Via sacra – meditações sobre as estações da Cruz”, p. 23-28.

 
O encontro com Sua Mãe
Jesus se levanta. Embora ferido por sua queda, continua o caminho com Sua Cruz ainda sobre os ombros. Ele curvou-se, mas em determinado local, ao olhar para cima, Ele vê sua Mãe. Por um instante apenas, eles se entreolham. Ele segue adiante.
Se fosse possível, Maria escolheria ter passado ela mesma por todo o sofrimento Dele, do que ignorar quais eram por não Lhe estar próxima. Ele também ganhou um alívio, como que vindo de um sopro de ar, prazeroso e tranquilizante, ao ver o triste sorriso da Mãe em meio aos olhares e ruídos que O rodeavam. Ela o conhecia belo e glorioso, com o frescor da paz e da Divina Inocência em seu semblante. Agora, ela o via tão diferente e deformado, que mal o reconheceria, não fosse o olhar agudo, comovente e tranquilizador que Dele recebeu.
Entretanto, agora Ele carregava o fardo dos pecados do mundo e, embora Santo, trazia a imagem destes em sua própria face. Ele parecia um pária ou um bandido sobre o qual pesava uma grande culpa. Ele foi feito pecado por nós, aquele que não conheceu pecado; não um aspecto, não um membro, mas a expressão mesma da culpa, de uma maldição, da punição, da agonia.
Oh! Que encontro entre Mãe e Filho! Havia um mútuo consolo, pois havia uma mútua compaixão. Jesus e Maria. Conseguiriam, pela eternidade, esquecer-se do momento da Paixão?

Simão de Cirene

Finalmente Sua força lhe falta por completo e Ele é incapaz de prosseguir. Os carrascos param perplexos. O que farão? Como Ele chagará ao Calvário? Logo veem um estranho que lhes parece forte e ágil, Simão de Cirene. Eles o agarram e o obrigam a carregar a Cruz com Jesus. A visão do Sofredor penetra no coração daquele homem. Ó que privilégio! Ó feliz alma eleita por Deus! E com alegria toma a parte a ele atribuída.
Isso veio por intercessão de Maria. Ele orou, não por si mesmo, mas apenas para poder beber inteiro o cálice do sofrimento e fazer a vontade do Pai. Mas ela mostrou-se Mãe com suas orações, já que não podia ajudá-Lo de outra maneira. Então ela enviou esse estranho para auxilia-Lo. Foi ela quem levou os soldados a perceber que estavam sendo por demais violentos.
Doce Mãe, faça o mesmo por nós. Rogai por nós, sempre, Santa Mãe de Deus, rogai por nós qualquer que seja nossa cruz, enquanto percorrermos o nosso caminho. Rogai por nós, e embora tenhamos caído, nos levantaremos novamente. Rogai por nós quando a tristeza, ansiedade ou a doença recair sobre nós. Rogai por nós quando estivermos prostrados sob o poder da tentação, e nos envia um de vossos servos fiéis para nos socorrer. E no mundo do porvir, se formos dignos de expiar nossos pecados na prisão ardente, envia um anjo bom para nos dar um tempo de restauração. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.

O véu de Verônica
Enquanto Jesus avança penosamente colina acima, coberto com o suor da morte, uma mulher abre caminho por entre a multidão e enxuga Seu rosto com um lenço. Como recompensa por sua piedade, o pano retém em si a impressão de Sua Sagrada Face.
O alívio assegurado pela ternura de uma Mãe não foi tudo o que Maria fez. Suas orações enviaram Simão, bem como Verônica. Simão para fazer o trabalho de um homem, Verônica para fazer a parte de uma mulher. A serva devota de Jesus fez o que pôde. Assim como Madalena durante a ceia derramou-Lhe o perfume, Verônica lhe ofereceu este lenço em Sua paixão. “Ah!” ela disse, “se eu pudesse fazer mais! Por que não tenho eu a força de Simão para tomar parte no fardo da Cruz? Entretanto, agora que Ele está celebrando o solene sacrifício, apenas os homens podem servir ao Sumo Sacerdote”. Ó Jesus! Deixa-nos a todos e a cada um sermos Teus ministros de acordo com nossas posições e poderes. E assim como Tu aceitastes o conforto de Teus seguidores na Tua hora de provação, dá-nos o suporte da Tua graça quando formos pressionados por nosso Inimigo. Eu sinto que não tenho forças contra as tentações, o cansaço, o desânimo e o pecado.

Eu digo a mim mesmo: qual a vantagem de ser crente? Eu cairei, Ó meu querido Salvador, eu certamente cairei, a menos que Tu renoves meu vigor, como ao de uma águia, e sopre a vida em mim com a suave aplicação e toque dos Santos Sacramentos por Ti ordenados.

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