quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Uma história da família de Nazaré

Por Jan Dobraczynski, “A sombra do Pai – A história de José de Nazaré”, p. 241-248.
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Logo estavam empacotados os objetos mais necessários: um pouco de roupa, alguma comida, umas poucas ferramentas de carpinteiro. José pegou o burrinho, pôs-lhe os arreios. Enquanto isso, Miriam vestia Jesus. Despertado de improviso no meio da noite, o Menino chorava e resmungava. O Pequeno costumava chorar pouco, parecia-se com sua mãe, alegre e sossegado. Miriam falava com ele enquanto o envolvia em uns panos. Queria dar-lhe de comer antes de saírem, mas o Menino se recusava a comer.
A noite era fria. Apenas um pedaço de lua vagava no céu entre uma franja de nuvens dispersadas pelo vento. Aqui e ali, brilhavam fracamente algumas estrelas.
Antes de pôr-se a caminho, José deteve-se um momento para refletir sobre a direção que devia tomar. A estrada para o Egito acompanhava a beira do mar. Para chegar a essa rota, precisava descer do altiplano da Judeia para a planície costeira. A passagem mais próxima entre os desfiladeiros rochosos era extremamente difícil. Ninguém passava por esse caminho. Os viajantes preferiam estender a viagem e seguir o caminho que ia de Jerusalém a Gaza, passando por Emaús. Eles, porém, não poderiam fazê-lo, pois, se saíssem em sua perseguição, iriam encontrá-los imediatamente nessa rota. Tinham de evitar os caminhos comuns e seguir por trilhas utilizadas normalmente pelos escravos fugidos e pelos ladrões.
Na própria saída de Belém, abria-se na rocha uma grande fenda, em cujo centro corria a água das montanhas em tempo de chuva. Descendo pelo barranco escavado pelas águas, chegava-se diretamente a Azoto. Não podiam aparecer em Azoto, porque logo seriam descobertos. Tinham de evitar Azoto e atingir Ascalon. Em Ascalon, José conhecia um homem a quem havia ajudado em outra época, e estava convencido de que ele lhe devolveria o favor, lhes daria abrigo para que pudessem descansar antes de prosseguir viagem. A partir de Ascalon, o rio da fronteira não estava muito longe. Depois do rio começava o reino dos Naboteus, cujo soberano era aliado de Herodes. Só se sentiriam seguros depois de atravessar esse reino. Mas precisamente ali começava o perigoso deserto que chegava até as próprias portas do Egito. Tinham pela frente uma viagem longa e perigosa.

 — Temos de ir por ali  apontou a direção com a mão.
Miriam aceitou sua indicação sem dizer uma palavra. Não perguntava, não discutia. Ia montada no burrinho, sustentando nos braços a Jesus, que voltara a dormir. No começo, o caminho era plano; por ali passava a estrada de Hebron. Mas o abandonaram na primeira curva. Apesar da escuridão, encontraram um trilho pouco utilizado que levava até as rochas. Chegando a elas, viram uma fenda parecida com um grande canal. Acima da fenda abria-se o céu, tinham as estrelas a seus pés. O espaço parecia infinito. Detiveram-se, pois até o asno fincou no chão as quatro patas e se negava a dar um único passo. Dava a impressão de que inevitavelmente iriam cair no abismo.
Mas a trilha conduzia ao vale exatamente por essa quebrada. Primeiro, era preciso passar por uma estreita plataforma; em seguida, saíram no meio de uma grande torrente, como em um rio. A senda ziguezagueava entre pedregulhos e riachos de cascalhos. Ela desaparecia em certos momentos e, então, era fácil extraviar-se.
José caminhava à frente, levando o burrinho, que bufava de medo, tropeçava e a todo momento sentava-se nas patas traseiras, assustado. Miriam o seguia, levando Jesus nos braços. O Menino ia apertado contra sua mãe e dormia. Tinham de andar com extremo cuidado e muito devagar.
Do fundo da fenda soprava um forte vento do mar. Era recebido lá em cima com satisfação, como um agradável refresco, sobretudo depois de um dia tórrido. Mas no fundo do barranco o vento causava calafrios com sua fria umidade. Não sabiam se os misteriosos sussurros ouvidos ao seu redor eram produzidos pelo vento. Tinham a impressão de que alguém ia se aproximando deles rapidamente, e que entre as rochas esmagadas ouviam-se passos rápidos e nervosos.
À medida que desciam, a falha fazia-se mais profunda. De ambos os lados, as paredes rochosas mostravam-se mais abruptas.
 Por favor... Vamos descansar um pouco...  ouviu José às suas costas.
Deteve-se prontamente. Ocupado em procurar pelo caminho, esquecera-se por completo de que Miriam levava o Menino nos braços. Voltou até ela. Apoiada em uma grande rocha, ela respirava com dificuldade.
 Que estúpido sou eu!  disse-lhe.  Esqueci-me inteiramente de que levavas o Menino.
 Mas tu estás procurando o caminho. E levas o burrinho. Vou recuperar o fôlego e continuo em seguida.
 Eu pegarei Jesus agora.
 Não, não...
 Claro que sim. Eu o levarei. Tem de ser assim. Estais sob minha proteção, tu mesma o disseste.
Sem discordar, ela entregou o Menino. Instantes depois continuaram. José ia adiante com o Menino nos braços. O asno seguia atrás, puxado por Miriam. Agora o barranco era muito estreito. Parecia um túnel por onde corria um rio de pedras. Não havia trilha. José descia por ali, convencido de que voltaria a encontrá-la mais abaixo. Os pés afundavam na areia grossa. O asno afundava muito mais. Tentando retirar a pata presa entre as pedras, o animal caiu. Desequilibrada pela queda, a massa de cascalho deslizou para baixo com um grande estrondo.
“Que problema teremos se ele quebrou a pata!”, passou pela cabeça de José. Mas deteve-se em tempo para não manifestar seu pensamento em voz alta. Quis retroceder para ajudar o animal a livrar-se do acúmulo de pedras. Miriam adiantou-se a ele. Com sua ajuda, o asno voltou a pôr-se de pé.
 Não houve nada com ele  disse ela, como se pressentisse a preocupação de José. Já voltou a andar.  Está apenas abatido, o coitado!
O barranco se alargou de novo e já não descia de modo tão abrupto. A trilha voltou a aparecer. José teve a impressão de que a respiração de Miriam se tornava arquejante e penosa.
 Ficaste cansada?  perguntou-lhe.
Ela não respondeu nada, de momento, e em seguida disse:
 Não te preocupes comigo. Mesmo que eu me canse, tu és mais forte... Jesus tem que...
José pôs a mão no ombro dela.
 Não posso suportar o pensamento de que isto recaia sobre ti agora... Eu não entendo...
Ela o interrompeu:
 A cada pessoa foi dada a sua própria medida. Pensa em quantas mulheres têm de levantar-se durante a noite e fugir para salvar seu filho...
 Mas tu...
 Por que haveria eu de ser mais protegida que as outras? Isto não me agradaria. Anda, vamos!
De novo puseram-se a caminho. Iam devagar, mas sem parar. Jesus continuava dormindo. José sentia seu rostinho quente contra a face e as mãozinhas enlaçadas em seu pescoço. A noite chegava ao fim. Apagavam-se as estrelas, o espaço se enchia de uma bruma acinzentada e úmida. Lá atrás deles, por trás da colina, despontava o dia. Mas sua claridade ainda demoraria muito a mostrar-se no barranco que desciam.
 Não iremos muito mais longe  disse José.  Quando houver mais luz, procurarei algum lugar entre as rochas para nos protegermos. Vamos esconder-nos durante o dia...
 Creio que tens razão.
A claridade aumentava paulatinamente. O vento parou de soprar. Por cima deles, as rochas desenhavam uma linha nítida sobre o fundo do céu.
De repente, as pedras fizeram um ruído mais forte às suas costas. Ouviu um grito abafado. José voltou-se bruscamente.
 O que aconteceu?
 Nada. Pisei de mau jeito.
Viu Miriam com o pé levantado.
 Não podes pô-lo no chão?  perguntou com voz de preocupação.
 Sim, vou pô-lo daqui a pouco. Não precisa ter medo. Já não está doendo. A mulher  disse ela  enviada por seu marido durante a noite em busca de uma ovelha perdida, precisa ir mesmo que sinta o cansaço...
 Eu não te enviaria a lugar algum!
 Eu sei disso. Mas quero ser como as outras.
Baixou o pé e pôs-se a andar. Mas ia devagar, coxeando, apoiando-se nas rochas. A luz se derramava mais e mais no barranco. José sentiu-se invadido pela ansiedade. Quase se esquecia de que Miriam mal podia andar. Disse sem se voltar:
 Temos de apressar o passo!
Ouviu os passos de Miriam, mas eles pararam em seguida.
Ó José! Não consigo...
Ele voltou para o lado dela. Estava outra vez com o pé levantado. A dor se refletia em seu rosto.
 Está doendo?
 Dói... Mas vou aguentar... Resistirei!
 Perdoa-me... Se pudesse, eu te levaria nos braços. Mas esta claridade me preocupa.
 Vou andar... Já vou...
Miriam coxeava, mas seguia adiante. José não podia olhar a expressão de dor que, a cada passo, se refletia no rosto dela.
 Ó Miriam  ele gemeu , por que o Altíssimo?...
Ela, também agora, não deixou de concluir:
 Ele quer que continuemos sendo pessoas comuns.
Caminharam um trecho em silêncio. Somente por sua respiração ofegante, José podia imaginar quanta dor lhe causava a torsão do tornozelo. Também o asno se arrastava machucado. Subitamente, José ergueu a cabeça. Uma das fendas iluminou-se acima de suas cabeças, como se tivessem acendido um archote na rocha. Uma luz vermelha, dourada, deslizava rapidamente pela rocha negra. Miriam também levantou a cabeça. E disse:
 O sol.
 Sim, o sol. Já é dia. Um esforço a mais. Temos de nos esconder.
Nesse mesmo instante, passaram umas pedras por cima de sua cabeça. José voltou-se horrorizado.
 Alguém vem atrás de nós!  disse com voz trêmula.  Parece que vem correndo. Ó Adonai!
Na penumbra que ainda envolvia o fundo do barranco não se distinguia ninguém. Mas alguém devia vir correndo atrás deles, porque se ouvia o ruído dos cascalhos deslocados por passadas rápidas.
 Só está vindo uma pessoa... Os passos são muito ligeiros...  observou ela.
 Assim parece. Mas aproximemo-nos das rochas. Talvez encontremos alguma saliência, algum barranco lateral onde nos escondermos.
Aproximaram-se da parede. Mas ainda não a tinham atingido quando ouviram, bem ao seu lado, um ruído de pedras deslocadas por passos ligeiros. Logo se ouviu a risada de Miriam.
 Ó José, olha quem vinha correndo atrás de nós!
Dando grandes saltos, com a língua toda de fora, apareceu um cão, o seu cão. Caiu aos pés de Miriam e, choramingando, esfregava seu corpo ao dela. Mordiscava-lhe a roupa de alegria. Estava muito feliz por tê-los encontrado. Miriam acariciava o lombo dele.
 Que valente! Ele nos achou  dizia ela.
Quando os magos chegaram, José pedira a Ata que levasse o cão para sua casa. Ficou ali pela noite, por isso não partira com eles quando foram embora.
Preocupado, José balançava a cabeça.
 Não terá mostrado o caminho para aqueles que vieram procurar-nos? De qualquer maneira, não podemos ir mais longe. Temos de parar e esconder-nos.
No paredão lateral, José enxergou uma fenda que formava uma espécie de estreita passagem. Por ali, mal podia passar uma pessoa. Deixando Miriam com Jesus nos braços, ele entrou. Seguindo a passagem estreita e tortuosa, chegou ao leito seco e rochoso de uma torrente. Mais ao longe havia um terreno de cascalhos, em seguida um pequeno prado e a boca escura de uma caverna. José voltou rapidamente, recitando uma berakâ de ação de graças. Era um excelente lugar para se esconderem.
À espera de sua volta, Miriam sentara-se no chão. Apoiou a cabeça contra um rochedo, fechou os olhos. Jesus dormia em seu regaço. Ela também adormeceu.
Assim ele a encontrou ao voltar. Despertou-a suavemente com a mão. Ela abriu lentamente os olhos.
 Um esforço a mais, Miriam  disse-lhe.  Encontrei um lugar seguro e cômodo.
 Vês como Ele é bom?  disse ela.
 Sim, é muito bom  concordou José , sempre ajuda... Jesus continua dormindo?  perguntou.
 Ele nos foi entregue para que possa dormir  disse ela, sorrindo sobre a cabecinha do Menino apoiada contra seu peito.

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