quinta-feira, fevereiro 15, 2018

A “santa inveja”

Por Francisco Ugarte, “Inveja má, inveja boa, p. 76-79.
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“SANTA INVEJA”

       Ao tratar da competição como fonte de inveja, também foi dito que ela poderia ser valiosa pelos benefícios que pode trazer, se focada acertadamente. Quando isto acontece, costuma-se falar de uma “competição sadia”, que convida à superação pessoal, sem que isso gere o mal-estar diante do triunfo do outro, típico da inveja.
        Em certas ocasiões, escuta-se a expressão “tenho uma santa inveja de você”, seja para justificar ou adoçar a inveja que se experimenta, querendo considerá-la como boa, mesmo que no fundo continue sendo puramente inveja; seja porque realmente se trate de algo positivo, ao reconhecer – sem tristeza nem desgosto – o bem alheio e desejar obtê-lo. Neste segundo caso, é claro que não existe propriamente inveja, e por isso se entende que se lhe atribua o qualificativo de “santa”. Entretanto, propriamente falando, a expressão “santa inveja” não é adequada por encerrar uma contradição: a inveja não pode ser santa devido a toda a malícia que encerra, conforme foi visto. Felizmente, existe um termo que responde àquilo que se tenta significar com essa expressão. E ele é emulação.


O QUE É A EMULAÇÃO

     Emular significa imitar ações de valor, realizações, qualidades e bons exemplos dos outros, procurando igualá-los ou até mesmo superá-los, sem que gerem mal-estar na pessoa que deseja imitá-los. Aristóteles estabeleceu com clareza a diferença em relação à inveja, quando especificou que a emulação é honrosa e digna de gente de honra; o invejar, ao contrário, é vil e próprio de espíritos mesquinhos; é que, enquanto uns se dispõem por meio da emulação a alcançar os bens, os outros se propõem, pela inveja, que o próximo não os possua.[1]

   Segundo ele, a emulação será própria dos espíritos magnânimos – contrários aos mesquinhos –, para os quais as realizações alheias se convertem em motivações que os impulsionam a dar o melhor de si mesmos. Peñalosa o expressava com acerto quando observava: “Se a inveja é um freio que retrai, a emulação é um acelerador que move a imitar, igualar e, se possível, superar as qualidades e conquistas dos outros. A inveja é egoísta, passiva e amarga; a emulação é generosa, ativa e alegre”[2]Com isto se compreende melhor o valor da competição sadia que, em lugar de produzir inveja, pode ser um motor que desempenhe importante papel no desenvolvimento e no crescimento das pessoas.

EMULAÇÃO E ÂNSIA DE SUPERAÇÃO

    A emulação está intimamente ligada à ânsia de superação, que é como sua motivação imediata. Além disso, a emulação gera uma espécie de círculo virtuoso, pois, como adverte o adágio latino, aemulatio aemulationem parit, “a emulação gera emulação”. Para aquele que reage uma vez de modo positivo diante da realização de outrem, será mais fácil que, na próxima oportunidade em que observe algo semelhante, reaja da mesma maneira, e assim sucessivamente. Entretanto, deve-se assinalar que a autêntica emulação que aperfeiçoa a pessoa exige que sua motivação seja reta, por exemplo, que não tenha como finalidade a exaltação do ego.

A EMULAÇÃO A PARTIR DO PRÓPRIO TALENTO

     Existem pessoas que possuem qualidades inatas excepcionais e, além disso, têm uma forte inclinação a destacar-se sobre os demais para satisfazer seu próprio ego. Essas pessoas com talentos especiais encontram sua motivação principal no próprio processo de superação e nos resultados que vão obtendo. Em interessante artigo publicado em The Financial Times sobre a gestão dos futebolistas com talento por parte dos treinadores[3], destaca-se que o grande talento de um jogador profissional costuma vir associado a um grande ego (“big talent usually comes with a big ego”), e que esses jogadores talentosos não necessitam ser motivados pelo treinador, porque motivam a si mesmos devido à sua ânsia de destacar-se. Explica-se, então, que quando não possuem na vida metas transcendentes orientadas para os outros, essas pessoas se centrem em si mesmas e desenvolvam um grande ego.
     Ocorre também que uma pessoa tenha grandes qualidades naturais, mas tenha aprendido a orientá-las para o serviço de outros e não só de si mesma, por exemplo, ao saber trabalhar em equipe e buscar o resultado do grupo antes que o seu próprio resultado, ou porque canaliza sua atividade de maneira a ajudar os outros. Neste caso, a emulação surgirá espontaneamente a partir do talento pessoal, mas com uma orientação não egocêntrica. Quando essas pessoas se desenvolvem em um ambiente competitivo, não apenas não causam inveja, mas potencializam sua inclinação para a emulação.

A EMULAÇÃO A PARTIR DO EXEMPLO DOS OUTROS

    Ao contrário, naqueles que possuem qualidades e capacidades ordinárias, o detonador para mirar mais alto costuma ser, muitas vezes, o exemplo de alguém que atingiu metas valiosas. Isto é, nestes casos não é tanto o talento pessoal o que move a emular, mas o modelo que provocou a mudança de atitude. Isto acaba facilitado quando se adquiriu a disposição de aprender com os outros e admirar seus valores, então convertidos em estímulos que impelem a dar sempre mais nos diversos domínios da vida.
    No terreno humano, procura-se chegar o mais longe possível, desenvolvendo as próprias capacidades e pontos fortes, e melhor ainda se estão orientados para o serviço dos outros. E no terreno espiritual, onde o objetivo mais alto a que se pode aspirar é a santidade – que implica dar o melhor de si mesmo por amor a Deus e ao próximo –, ajuda muito contar com o exemplo daqueles que alcançaram essa meta e são reconhecidos como santos: suas vidas incluem realizações e fracassos, qualidades e defeitos, fortalezas e fraquezas, mas, acima de tudo, souberam secundar a ação de Deus em sua conduta e por isso alcançaram a meta. Essas pessoas são motivo de emulação para quem deseja orientar sua vida em sentido transcendente. E esta é a razão pela qual são canonizadas pela Igreja.
   Para concluir, é preciso afirmar que a emulação é um caminho positivo para evitar ou superar a inveja. Em lugar do mal-estar causado pelo bem alheio e, em consequência, da pretensão de arrebatá-lo, ao contrário as realizações alheias são valorizadas e se convertem em fortes motivações para a própria superação pessoal, tanto no plano humano quanto no espiritual.




[1] ARISTÓTELES, Retórica, II, 11, 1388 a 35-39.
[2] PEÑALOSA, Joaquín Antonio, El mexicano e los siete pecados capitales, México; Paulinas, 1994.
[3] KUPER, Simon e Mike FORDE, “Game of talents: management lessons from top football coaches”, The Financial Times, 2015, publicado em http://www.ft.com/cms/s/2/054e2602-f9ae-11e4-97b2-00144feab7de.html (consulta pela última vez em 14/07/2016).

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