quinta-feira, fevereiro 01, 2018

A meditação, por São Boaventura

Por São Boaventura, “Escritos Espirituais”, p. 11-20.
Ensinamentos dos Doutores da Igreja

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Todas as ciências trazem em si a marca da Trindade; mas de todas, a que melhor a conserva é a que se aprende na sagrada Escritura. Dela disse o Sábio que foi por três formas ensinada, por causa dos três sentidos espirituais que encerra: o moral, o alegórico e o anagógico (ou místico). Os quais correspondem aos três atos hierárquicos da vida espiritual: a purificação, a iluminação e a perfeição. A purificação produz a paz, a iluminação conduz à verdade e a perfeição realiza a caridade.
Estes três atos, frequentemente praticados, dão a felicidade à alma e, quanto melhor praticados, mais lhe aumentam os méritos. No conhecimento desses três atos é que se funda a ciência de toda a sagrada Escritura, e dele é que depende o merecimento da vida eterna.
Três são os exercícios que facilitam a sua realização: a meditação, a oração e a contemplação.

Da meditação, pela qual a alma é purificada, iluminada e aperfeiçoada

2. Comecemos por examinar o que é a meditação. Saibamos que existem em nosso espírito três faculdades pelas quais se exercem aqueles três atos da vida espiritual: a consciência, a inteligência e a sapiência.
Portanto, quem quiser se purificar, dirija contra si o aguilhão da consciência; quem precisar de se iluminar, recorra à luz da inteligência; e quem desejar tornar-se perfeito, aqueça-se ao calor da sapiência. É o que aconselhava a Timóteo o bem-aventurado Dionísio[1].

§ 1. Da purificação da alma e do seu tríplice exercício


3. Para que o aguilhão da consciência seja convenientemente empregado, deve cada um primeiro suscitá-lo, depois aguçá-lo e, enfim, retificá-lo. Suscita-o a recordação dos pecados; aguça-o o exame de si mesmo; retifica-o a consideração do bem.
4. A recordação dos pecados tem por fim repreender a alma nas suas múltiplas negligências, concupiscências e malevolências; pois que todos os nossos defeitos e pecados, tanto os atuais como os habituais, podem reduzir-se a esses três:

I. Com respeito às negligências examine cada um:

Em primeiro lugar, se foi negligente na guarda do coração, no emprego do tempo, e na direção das ações. Esse tríplice exame deve ser rigoroso, pois que cada um deve sempre e com o máximo cuidado guardar puro o seu coração, empregar utilmente o seu tempo e dirigir todas as suas ações para o fim devido.
Em segundo lugar, verifique se foi negligente na oração, na leitura espiritual e na execução das boas obras. Nesses três propósitos deve se exercitar com diligência e aplicação quem deseja produzir bons frutos no tempo adequado. De resto, nenhum deles pode ser eficazmente praticado se os outros não o forem conjuntamente.
Em terceiro lugar, pesquise se foi negligente em fazer penitência, em resistir ao mal e em progredir no bem; porque é dever de cada homem arrepender-se do mal cometido, repelir as tentações diabólicas e progredir de virtude em virtude até chegar à terra da promissão.

II. Acerca das concupiscências, inquira cada qual se existem em sua alma desejos de voluptuosidade, de curiosidade ou de vaidade, nos quais se enraízam todos os males. Deseja as voluptuosidades quem deseja o que é delicado, o que é deleitoso e o que é carnal, isto é, quem deseja vestuários graciosos, alimentos saborosos, prazeres luxuriosos. Sendo repreensível consentir em tais desejos, é dever do homem reprimi-los logo que apontem. A curiosidade se manifesta em quem deseja saber o que é secreto, ver o que é formoso, possuir o que é precioso. Tudo isto denuncia um ânimo cheio de cobiça e condenavelmente indiscreto.
Deseja vaidades quem deseja receber favores, elogios ou honrarias, que são vaidades e tornam o homem vão. De todas essas ambições deve cada um arguir-se com severidade.

III. Enfim, a respeito das malevolências, examine cada um se sente ou já sentiu em si as emoções más da cólera, da inveja, da preguiça. A cólera se esconde na intenção ou se descobre nos gestos e nas palavras; isto é, passa do coração ao rosto e à voz, revela-se nos desejos, nos ditos, nos atos. A inveja consiste em entristecer-se pela prosperidade de
outrem; regozijar-se pelo seu infortúnio, recusar-se a socorrê-lo nas suas necessidades.
A preguiça ou acídia, que é o tédio e o aborrecimento do esforço espiritual, enche o coração de suspeitas maldosas, de pensamentos blasfemos, de detrações malignas. Todas essas maldades são detestáveis.
O resultado desses três exames, triplicados pelo modo indicado, deve ser a excitação e estímulo da consciência a fim de que a alma, pela recordação dos pecados, se encha de amargura e de arrependimento.
7. Depois de haver suscitado o aguilhão da consciência é preciso aguçá-lo pelo exame da própria alma. Três coisas devem ser lembradas neste exame: o dia da morte, sempre iminente; o sangue de Cristo, sempre recente; e a face do Juiz, sempre presente.
Primeiro, o dia da morte é indeterminável, inevitável, irrevogável. Se entendermos bem este pensamento, trataremos com a maior diligência, enquanto tempo nos é dado, de nos purificarmos de toda negligência, de toda concupiscência, de toda malevolência. Quem quererá conservar-se em estado de pecado, se não está certo de ter o dia de amanhã para se arrepender?
Segundo, o sangue de Cristo foi derramado na cruz a fim de lavar todos os corações dos seus pecados, restaurar a graça nas almas e fertilizar a aridez dos espíritos. Por outro modo, o seu efeito é sanear os corações, purificar as almas, fecundar os espíritos. Quem deixará permanecer em si a mancha das negligências, das concupiscências ou das malevolências se refletir que para lavá-las é que foi derramado aquele preciosíssimo sangue?
Terceiro, a face do Juiz em que devemos pensar é a de um juiz infalível e irrefutável. Nada escapa à sua ciência, nada abranda a sua justiça, ninguém foge à sua vingança. Para esse Juiz, do mesmo modo que nenhuma boa ação ficará sem recompensa, também nenhum mal ficará sem castigo. Quem, em tal pensamento, deixará de combater em si toda tendência para o mal?
8. Vejamos agora como se há de retificar, pela consideração do bem, o aguilhão da consciência. Três são as qualidades cuja aquisição contribui para retificar a consciência: o zelo, que corrige a negligência; a austeridade, que combate a concupiscência; e a benevolência, que se opõe à malevolência.
Quem possuir essas três qualidades, possui uma consciência boa e reta. É o que diz o Profeta Miqueias (6,2): “Vou te ensinar o que é bom e o que o Senhor exige de ti: pratica a justiça, ama a misericórdia e procede cuidadosamente com Deus”. O mesmo ensinou o Senhor pelo Evangelista S. Lucas (12,35): “Tende cingidos os vossos rins e nas vossas mãos lâmpadas acesas; e sede semelhantes a homens que esperam o seu amo na volta das bodas para que lhe abram a porta logo que ele chegar e bater. Bem-aventurados os servos que o Senhor, ao chegar, encontrar vigiando”.
9. Primeiro, o zelo é a qualidade que precede as outras. Pode ser definido: certa energia da alma, inimiga de qualquer negligência, e que instiga a fazer todas as obras de Deus com atenção, com confiança e com discernimento.
Segundo, a austeridade é certo rigor de espírito que refreia as concupiscências e habilita o homem a amar o que é árduo, pobre e vil.
Terceiro, a benevolência é certa brandura da alma, contrária à malevolência e que a inclina à benignidade, à tolerância e à alegria espiritual.
Termina nesta fase a purificação que se alcança por meio da meditação porque uma consciência pura se conserva sempre alegre. Quem deseja se purificar examine, portanto, sua consciência como foi dito acima. Esse exercício pode começar por qualquer dos atos que descrevemos. Mas, de um se passará a outro somente depois de o haver praticado com demora e depois de sentir a alma perfeitamente tranquila e serena, porque são estes os frutos da alegria espiritual e os incitamentos para prosseguir avante e acima.
Iniciado, deste modo, pela amargura da consciência, o trabalho da purificação da alma, finaliza-se no sentimento da alegria espiritual; e o que foi começado com dor, é acabado com amor.

Da iluminação da alma e do seu tríplice exercício

10. Depois dos exercícios de purificação seguem-se os de iluminação da alma, para o que é preciso recorrer à luz da inteligência. Essa luz primeiro se dirigirá sobre os pecados perdoados, se estenderá, em seguida, sobre os benefícios recebidos, e, enfim, se fixará sobre as recompensas prometidas.
A luz da inteligência há de se dirigir sobre os pecados que Deus já perdoou, porque foram numerosos os que cometemos e tão grandes quanto os males a que estávamos afeiçoados e os bens de que merecíamos ser privados. O assunto da meditação precedente foi semelhante a este; mas agora precisamos considerar não só o mal que fizemos, mas também o que teríamos feito se Deus tal houvesse permitido.
À medida que refletirmos sobre isto com atenção, as trevas da nossa alma serão dissipadas pela luz da inteligência e começaremos a sentir por Deus uma calorosa gratidão, sinal certo de que essa iluminação procede verdadeiramente do céu, fonte, ao mesmo tempo, da claridade e do calor.
Esta é a ocasião própria para render graças a Deus pela remissão dos pecados que cometemos ou que possivelmente teríamos cometido em consequência da fraqueza ou da perversidade do nosso próprio querer.
11. A luz da inteligência deve se estender, em seguida, sobre os benefícios recebidos. Estes são de três gêneros: uns dizem respeito à natureza, outros à graça, e outros à superabundância de ambas. Quanto aos dons que dizem respeito à natureza, temos de agradecer a Deus a integridade do corpo, a saúde do organismo; a nobreza do sexo; sentidos aptos ao seu uso como a vista perspicaz, audição aguçada, língua discreta; e, também, qualidades espirituais, como inteligência clara, juízo reto, ânimo benigno.
12. Os auxílios que dizem respeito à graça são, primeiro, os que Deus nos proporcionou pelo batismo, que suprime a culpa, restitui a inocência e confirma na justiça, tornando-nos dignos da vida eterna. Depois, os que nos dá pelo sacramento da penitência, o qual nos é concedido no tempo conveniente, quando a alma o requer, e condignamente à grandeza da religião.
Por último, os que confere pelo sacerdócio, o qual estabelece os autênticos administradores da doutrina, do perdão e da Eucaristia, pelas quais nos é comunicada a vida sobrenatural.
13. Enfim medite-se a respeito da superabundância de dons que Deus nos concede: primeiro, os que o universo todo encerra, no qual os seres inferiores se destinam ao nosso serviço, os iguais ao meritório exercício das nossas faculdades, e os superiores ao nosso auxílio. Segundo, os que a descida à terra do seu próprio Filho representa, o qual, pela Encarnação, se tornou nosso irmão e amigo, pela Paixão, o preço do nosso resgate e, pela Eucaristia, o nosso alimento cotidiano. Terceiro, os que o Espírito Santo transmite que nos dão a certeza de sermos agradáveis a Deus, nos confere o privilégio da sua adoção e a aliança da sua amizade, e assim torna a alma cristã amiga, filha, esposa de Deus. Tais dádivas são inestimáveis e a sua meditação deve inspirar à alma grande admiração e gratidão por Deus.
14. Resta-nos explicar como a luz da inteligência, refletindo-se sobre os bens que nos foram prometidos, reverte à origem de todo bem, que é Deus.
Por isso é preciso, com frequência e atenção, considerar que Deus nunca mente (Tg 1,2). E aos que nele creem e amam prometeu a extinção de todos os males, a companhia de todos os santos e a satisfação de todos os desejos. Dando-se Ele próprio, que é a origem e o fim de todos os bens e bem tão grande que excede a todos os anelos, a todos os cálculos, a todas as esperanças dos homens.
Desse bem insuperável Deus nos quer julgar dignos desde que o amemos e o desejemos acima de todas as coisas e só por amor dele mesmo. A Ele, pois, devemos tender com todos os impulsos, todos os afetos, todas as forças da nossa alma.

Da perfeição da alma e do seu tríplice exercício

15. Estudemos, agora, como poderemos nos aperfeiçoar aquecendo-nos ao calor da sapiência. Conseguir-se-á isto concentrando, avivando e elevando esse calor.
Primeiro, para concentrá-lo é preciso recolher e dirigir só para Deus o amor que dispersamos pelas criaturas. Nada mais necessário, porque o amor das criaturas geralmente não nos aperfeiçoa, e quando nos aperfeiçoa não nos descansa, e quando nos descansa não nos satisfaz, porque só Deus nos satisfaz por completo.
16. Segundo, para ativar esse calor é preciso uma conversão do afeto ao amor do esposo. Isto se faz comparando o amor consigo mesmo ou com o afeto dos santos do céu, ou com o próprio esposo. E dá-se quando se percebe que pelo amor pode ser suprida toda indigência, que pelo amor os bem-aventurados possuem toda a abundância de bens, que pelo amor assegura-se a posse do que é sumamente desejável. Essas são as coisas que inflamam o afeto.
17. Terceiro, para elevar o calor da sapiência é preciso subir acima de tudo o que é sensível, imaginável e inteligível. Diga a alma consigo que Aquele a quem ama não pode ser percebido pelos sentidos. Não pode ser visto, nem ouvido nem provado, nem tocado; não pode ser sentido e, entretanto, é sumamente desejável. Considere, também, que esse mesmo Ser não pode ser representado pela imaginação, porque não tem limites, nem feitio, nem número, nem superfície, nem idades. Não é imaginável e, entretanto, é imensamente desejável. Termine refletindo que o mesmo Ser não pode ser apreendido pela inteligência, pois que escapa a toda demonstração[2], a toda definição, a toda opinião, e toda avaliação, a toda investigação. Que, portanto, não é inteligível e, entretanto, é imensamente desejável.

Conclusão

18. É assim que, pelo exercício da meditação sobre os atos mais adequados à purificação, iluminação e perfeição da alma, se adquire a ciência que a sagrada Escritura encerra.
Esse exercício deve ser frequentemente repetido pelo modo indicado. Porque, na verdade, toda meditação bem conduzida há de versar: ou sobre as obras do homem (por exemplo: o que faz o homem, o que deve fazer, quais são os seus motivos de agir); ou sobre as obras de Deus (o qual, por exemplo, promovendo as obras da Criação, da Redenção e da Glorificação, criou todas as coisas do nada, tantos benefícios fez ao homem, tantos malefícios lhe perdoou e tanta felicidade lhe prometeu); ou sobre as fontes de ambas essas obras (isto é, a alma e Deus e as relações que devem ter entre si).
A isto é que se hão de dirigir todas as nossas atenções, porque o escopo de todo raciocínio e operação mental é formar pela experiência o conhecimento; nisto consiste a verdadeira sabedoria.
19. Tal meditação deve ser praticada com todos os recursos do espírito: razão, sindérese[3], consciência e vontade. A razão esquadrinha e formula o problema; a sindérese define e pronuncia o julgamento; a consciência testemunha e confirma; a vontade escolhe e resolve. Eis um exemplo: A razão indaga o que deve ser feito a um homem que violou o templo de Deus. A sindérese responde que deve ser condenado à morte ou à penitência para que o sofrimento o purifique.
A consciência, então, exclama: “Esse homem és tu mesmo. Tens de escolher: ou a danação ou os tormentos da penitência”. Enfim a vontade escolhe, e porque recusa a danação eterna, aceita os suplícios da penitência. Este exemplo diz respeito à fase da purificação; procedimento idêntico será aplicado às duas outras fases da vida espiritual, a iluminação e a perfeição.




[1] Mystica Teolog. c. 1, § 1.
[2] S. Tomás de Aquino apresentou, debateu e argumentou para demonstrar a existência de Deus a partir das criaturas, isto é, pelas vias dos conhecimentos humanos, sem necessidade dos dados da Revelação ou da Fé. (N. do R.)
[3] Sindérese é a atração natural das potências da alma, especialmente da inteligência, para o bem.

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