quinta-feira, janeiro 04, 2018

Viktor Frankl – um esboço biográfico

Por Rafael de los Ríos, “Quando o mundo gira enamorado: esboço biográfico”, 
p. 11-21.

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Senhor, a aula terminou

Viena. Março de 1938. As tropas de Hitler entram na Áustria. Viktor Emil Frankl, psiquiatra, de trinta e três anos de idade, está dando uma aula naquela fatídica tarde. De repente, a porta da sala abre-se com um estrondo e irrompe a figura de um homem vestido com o uniforme nazista, com a intenção de atrapalhar a explicação. Os alunos surpreendem-se, até que os olhos negros e experientes de Viktor Frankl pousam no militar.
O soldado compreende que não são uns olhos quaisquer. Amáveis, sim; mas também com um magnetismo e uma capacidade de persuasão fora do comum. Ignora, evidentemente, que se trata de olhos de raça judaica. Desconhece ainda que as pupilas desse especialista em Psiquiatria, nascido em Viena no dia 26 de março de 1905, aprenderam a hipnotizar perfeitamente aos 15 anos. Na verdade, o homem de uniforme nazista não consegue compreender o que lhe está acontecendo.
Mantém-se simplesmente de pé sob o batente da porta, envolvido pelo olhar suave do professor de cabelo escuro e gravata flamejante. Parece-lhe inclusive que está ouvindo as notas de uma valsa: o Danúbio Azul, de Johann Strauss, hino não oficial da Áustria. Ele não sabe, claro, que o doutor Frankl nasceu e mora no número 6 da rua Czernin, do outro lado do edifício onde Johann Strauss compôs a famosa valsa.
Recebeu a ordem terminante de pôr fim à aula, mas algo superior às suas forças o impede. Sente que os tacões de suas botas se cravaram no piso de madeira. E sobretudo estranha esse desejo de prestar atenção às palavras do doutor Frankl:
– Como estava dizendo, conheci pessoalmente Sigmund Freud, criador da Psicanálise e fundador da Primeira Escola Vienense de Psicologia – a voz de Viktor Frankl soa alta e persuasiva. – Segundo Freud, o motor de todos os atos do homem é o “afã de prazer”. Mas eu não estou de acordo. – Os olhos do professor Frankl sorriem enquanto continuam fixos no homem de Hitler.
– Pertenci também à Segunda Escola Vienense de Psicologia – prossegue o doutor Frankl. – Abandonei-a há dez anos. Para ser exato, expulsaram-me, porque me opus às ideias de seu fundador: sabem quem é, Alfred Adler. Em sua opinião, o motor de todos os atos do homem é o “afã de poder”. E eu, naturalmente, tampouco estava de acordo com isso do “afã de poder”. – Quase sem perceber, os alunos voltam-se para o soldado nazista. Viktor Frankl permite-se o luxo de elevar ainda mais a voz:

– Como se pode estar de acordo com a ideia de que o homem se move só pelo instinto de poder? Que barbaridade! Não se pode pensar assim nem sequer sob o influxo da hipnose.
Suas palavras tornam-se então mais íntimas e convincentes:
– O afã de prazer e o afã de poder podem, efetivamente, mover algumas pessoas, especialmente quando estão doentes ou se tornaram totalmente loucas.
Olha o relógio. Chegou de fato a hora de terminar a aula do dia.
– O que realmente move a pessoa é a busca de sentido da vida – afirma solenemente o psiquiatra judeu. – Porque o homem sente-se frustrado ou vazio quando não encontra uma tarefa a realizar ou alguém a quem amar, inclusive alguém por quem sofrer. Dentro de alguns anos, se Deus quiser, esta nova via – a logoterapia, quer dizer, a cura a partir do espírito (logos, em grego) – ter-se-á convertido na Terceira Escola Vienense de Psicologia. De qualquer forma, lembrem-se sempre de que a única coisa que não se deve reprimir é a busca do sentido da vida. E, quando chegar o momento, claro, do sentido da morte.
Finalmente Viktor Emil Frankl aponta as palmas das mãos em direção ao soldado nazista e diz-lhe:
– Senhor, a aula terminou.[1]

2. O jogo de um dedo

Outubro de 1944. Em plena Guerra Mundial, um dos famosos trens de guerra alemães transportava mais de 1.500 pessoas: homens, mulheres e crianças. Todos judeus. Tinham saído vários dias antes de um campo de concentração chamado Theresienstadt, situado a oeste da Tchecoslováquia[2]. Não tinham certeza se seu destino seria outro campo de concentração ainda mais terrível: Auschwitz.
Os vagões estavam tão abarrotados que todos tinham que se deitar em cima das próprias malas, e só estava livre a parte superior das janelinhas. Amanhecia. Com seu olhar de águia, Viktor Frankl deu uma olhada rápida[3]. O psiquiatra judeu percebeu logo que o trem já havia deixado a Tchecoslováquia e estava entrando na Polônia.
– Deixamos para trás os pinheirais negros – disse virando-se para sua esposa – e há uma camada alta de neve. Ao sul estão os Cárpatos. Estamos na Silésia, Tilly.
Apesar da sede, do frio e da falta de sono, Tilly teve forças para sugerir:
– E Auschwitz está na Silésia, não é?
Tilly não esperava mesmo uma resposta. Todo mundo sabia que o campo de concentração de Auschwitz estava na Silésia, ao sul da Polônia. Com seus olhos grandes e claros, olhou com intensidade a Viktor. Depois sorriu-lhe abertamente, deixando transparecer um sorriso branco e generoso. Era uma mulher que impressionava pela beleza.
– Receio que sim – respondeu Viktor. – Embora, considerando que depois de amanhã você completa vinte e quatro anos, eu preferiria pensar que não. Em todo caso, você deveria ter permanecido no campo de Theresienstadt. Não sei como pôde apresentar-se como voluntária para vir comigo. Theresienstadt era inclusive suportável para alguns prisioneiros...
– Não esqueça que o único prisioneiro que eu realmente devo vigiar é você – brincou Tilly. – Tenha em conta que você é um prestigioso psiquiatra e que isso sempre atrai olhares furtivos. Não é verdade, doutor Plautus?
– Não se preocupem! – O doutor Plautus, sempre disposto ao otimismo, subiu à parte alta da mesma janelinha. Sei que voltaremos para casa. – E celebraremos a festa de retorno com vinho novo. Convidarei a todos. Não é em vão que sou médico voluntário[4] em Viena e todos me chamam o anjo de Ottakring.
– Gostaria de compartilhar seu otimismo – confessou o psiquiatra.
– Voltaremos a Viena – insistiu o doutor Plautus. – E então o senhor me ensinará a hipnotizar meus pacientes, estimado colega: assim eu os ajudarei a relaxar.
– Muito bem, meu querido anjo! – sorriu Tilly.
À luz cinzenta do amanhecer, o apito da locomotiva emitiu um som misterioso. Aproximavam-se da estação principal. E, de repente, um grito escapou de suas gargantas angustiadas:
– Há uma placa, Auschwitz!
Tilly empalideceu durante breves segundos. Procurou depois acalmar-se e pediu a outros passageiros que a ajudassem a pôr em ordem as bagagens espalhadas.
O nome de Auschwitz evocou em Viktor Frankl tudo o que havia de horror no mundo.
– Câmaras de gás, fornos crematórios! – exclamou. – Isso é o que nos espera, querido doutor Plautus.
– Cale-se, Viktor. Insisto em que voltaremos a Viena.
O tenaz doutor Plautus entoou uma canção dirigida a Baco, deus romano do vinho, mas Viktor e Tilly notaram que os olhos de seu amigo enchiam-se de lágrimas.
O trem avançava muito devagar, como que indeciso. À medida que ia amanhecendo, tornavam-se mais visíveis os perfis de todos os campos de concentração, uns quarenta, que se agrupavam sob o atroz nome de Auschwitz. Viktor observou várias fileiras de arame farpado, torres de vigilância, focos de luz potentes e intermináveis colunas de figuras humanas esfarrapadas. Sua imaginação levou-o a ver forcas com pessoas pendendo delas. Estremeceu de horror. E sua mente de psiquiatra experiente não andava enganada.
Passado algum tempo, entraram na estação. Ouviram-se vozes de comando, ásperas e estridentes. As portinholas do vagão abriram-se de repente e um pequeno grupo de prisioneiros entrou vociferante. Todos tinham a cabeça raspada e usavam uniforme listrado. Falavam diferentes línguas. Pareciam ter algum bom humor.
– Os prisioneiros têm bom aspecto – comentou Tilly. – Não parecem mal alimentados.
– Eu já o dizia! – respondeu o doutor Plautus. – As faces rosadas e os rostos redondos são a melhor mostra de que voltaremos para casa.
Ninguém sabia então que aqueles prisioneiros eram um grupo especialmente selecionado para formar o “comitê de recepção”, a fim de surripiar o que houvesse de valioso na pouca bagagem.
A voz dos soldados alemães trovejou no interior do vagão:
– Todos para fora! E deixem as malas no trem!
Saíram ao mesmo tempo. Ordenaram-lhes fazer duas filas, uma de mulheres e outra de homens. No meio do tumulto de gritos, ordens e empurrões dos soldados, Viktor pegou as mãos de Tilly e, antes que os separassem, disse-lhe em tom muito firme:
– Tilly, permaneça viva a qualquer preço. Está ouvindo?
Tentava dizer-lhe que, se ela se encontrasse na situação de salvar a própria vida, não deveria pensar nele: o importante para Viktor era a vida de Tilly.
– Permaneça viva! – gritou Viktor enquanto um soldado arrancava Tilly de seus braços e de seus olhos.[5]
Fizeram depois os homens desfilarem, um a um, diante do oficial das SS, Joseph Mengele, um dos mais terríveis assassinos do holocausto judeu. Mengele decidia o destino de cada prisioneiro com um pequeno movimento do dedo: para a direita ou para a esquerda.
Embora eles o ignorassem, tratava-se de algo sinistro: a primeira seleção. E aquela palavra significava: ou trabalho nos campos de concentração ou então morte nas câmaras de gás. Bastava o jogo de um dedo.
Viktor teve a coragem de esconder sua mochila sob o casaco, mesmo sabendo que, se Mengele a localizasse, ele correria um imenso perigo. Por outro lado, oculto no forro da jaqueta, tinha algo que considerava muito valioso: o original de seu primeiro livro sobre Psicologia – quase duzentos fólios; acabava de escrevê-lo e desejava publicá-lo a todo custo, porque era como que seu filho espiritual. Atrás de Viktor, o doutor Plautus sussurrou-lhe:
– Disseram-me que, se o oficial das SS nos envia para a direita, isso significa trabalhos forçados; e que, se nos manda para a esquerda, então é para um campo de enfermos e incapazes de trabalhar. E, por Deus, doutor Frankl, o senhor está pendendo para o lado por causa dessa infeliz mochila! O senhor deve caminhar mais direito!
Chegou a vez de Viktor. Estava frente a frente com Megele. Era um homem alto e magro e usava um uniforme impecável. Segurava o cotovelo direito com a mão esquerda, em atitude de aparente descuido. Viktor fez um esforço para permanecer ereto: a mochila pesava como um saco de chumbo.
Mengele olhou-o de cima a baixo. Pareceu duvidar. Depois pôs a duas mãos sobre os ombros do psiquiatra e o fez girar para o lado esquerdo, quer dizer, para as câmaras de gás. Viktor não viu nenhum amigo seu desse lado. Então virou ele mesmo para a direita onde reconheceu alguns colegas, e começou a caminhar nessa direção, sem que o assombrado Mengele opusesse resistência.[6] Nunca soube por que lhe ocorreu tal ideia nem de onde tirou coragem. Quando se deteve, pôde olhar para trás: viu que o doutor Plautus tinha sido enviado para o lado esquerdo.
Terminada a primeira seleção, os guardas da SS, que portavam pesados fuzis, ordenaram aos presos que fossem rapidamente da estação até a cerca eletrificada. Entraram a seguir em um dos campos de concentração e foram colocados em um pavilhão para serem todos desinfetados, como se se tratasse de animais sujos e ensebados.
Enquanto esperavam na antessala da câmara de desinfecção, os homens das SS estenderam cobertores no chão.
– Joguem aqui tudo que têm! – Gritaram. – Relógios, medalhas e anéis: absolutamente tudo!
Viktor jogou sua mochila e o pouco que lhe restava, inclusive o que constituía seu orgulho e alegria: a carteirinha do clube alpino Donauland, que o acreditava como guia de montanha. Mantinha, porém, o livro na jaqueta. Então outro oficial das SS disse:
– Eu lhes darei dois minutos pelo meu relógio. Nesse tempo tirarão toda a roupa e colocarão tudo perto de vocês no chão. Não podem ficar com nada com exceção dos sapatos, do cinto e dos óculos. Vou começar a contar: agora!
Com rapidez, Viktor pegou o manuscrito de seu livro e aproximou-se de um dos antigos prisioneiros, o que aparentava mais idade.
– Olhe, é o manuscrito de um livro científico – sussurrou ao mesmo tempo que mostrava os papéis. – Já sei o que você vai dizer: que devo estar agradecido por salvar a vida, que só isso é que devo esperar do destino. Mas não posso evita-lo. Tenho que conservar este manuscrito a todo custo. Meu livro supera a psicanálise de Freud. Trata-se da obra de minha vida! Compreende?
No rosto do prisioneiro veterano esboçou-se um trejeito, primeiro de piedade e depois mostrou– se zombador, insultante, até que rugiu:
– Merda!
E nesse momento pareceu a Viktor que toda sua vida anterior se apagava de sua consciência. Jogou no chão o livro e a roupa com uma rapidez incrível. Quando ficou só com os óculos e o cinto nas mãos, ouviu os primeiros estalidos do látego que açoitava corpos desnudos. A seguir, levaram-nos a outro cômodo para barbeá-los: rasparam-lhes não só as cabeças como não lhes deixaram nem um só pelo no corpo. E os empurraram para o local dos chuveiros. Viktor olhou para cima: e, com grande alívio, percebeu que do chuveiro saíam gotas de água de verdade...
Enquanto esperava que aumentassem a pressão da água, a nudez de todos tornou-se patente para ele: já não tinham nada, exceto seus próprios corpos, inclusive sem pelos. “Falando literalmente – pensou o psiquiatra – a única coisa que possuímos é nossa existência desnuda. Só isso nos resta de nossa existência anterior”. De repente a água começou a correr. E a água gélida golpeou seu corpo inteiro.
Dos chuveiros foram diretamente para fora, para a intempérie: no frio do outono, completamente nus e ainda molhados. Duas horas depois, apareceu um homem das SS acompanhado por prisioneiros veteranos. Traziam uniformes listrados. Deram a Viktor um de um prisioneiro que tinha sido enviado à câmara de gás. Eram roupas esfarrapadas.
Assim que se vestiu, pôs as mãos no bolso da jaqueta imunda, sonhando com o impossível: encontrar as muitas páginas de seu livro manuscrito. Para sua surpresa, o que encontrou foi uma única página arrancada de um livro de orações em hebraico, que continha a mais importante oração judaica, a Shema Yisrael (“Escuta, Israel”). Viktor Frankl leu-a lentamente: “Escuta, Israel: o Senhor é teu Deus, o Senhor é Um. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Que estas palavras que eu te dito hoje estejam em teu coração”.
O psiquiatra ficou pensando. “Como interpretar esta coincidência senão como o desafio para viver meus pensamentos em vez de limitar-me a pô-los no papel?”
Passou a seguir por mais várias seleções. A grande maioria de seu grupo, cerca de noventa por cento, tinha sido enviada, pelo jogo do dedo, para a esquerda. A ele sempre coube a direita. “Que terá sido do doutor Plautus?”, perguntava-se Viktor.
Entardecia em Auschwitz. Numa pausa entre idas e vindas, viu vários prisioneiros veteranos.
– Por favor – disse Viktor ansioso –, podem dizer-me para onde será que levaram meu amigo e colega, doutor Plautus?
– Mandaram-no para a esquerda? – perguntaram.
– Sim – replicou Viktor.
– Então pode vê-lo lá – disseram.
– Onde? Onde está o anjo de Ottakring?
Com as mãos indicavam a chaminé a umas centenas de metros e que lançava ao ar cinzento da Silésia chamas de fogo que se dissolviam em uma sinistra nuvem de fumaça.
– É lá que está seu amigo e seu anjo, elevando-se para o céu.[7]
E a partir de então, apoderou-se do psiquiatra vienense uma estranha sensação: curiosidade, uma fria curiosidade de saber o que aconteceria a seguir.




[1] . Cfr. Viktor Frankl Recollections. An Autobiography. Ed. Plenum Press, New York, 1997, p. 76. Daqui em diante, este livro será citado apenas como Autobiography.
[2] Atual República Tcheca (N. T.)
[3]. O esquema narrativo é baseado no famoso livro de Viktor Frankl, El hombre en busca de sentido (Em busca de sentido: um psicólogo em um campo de concentração).
[4] “Médico de beneficencia” no original castelhano (N. T.).
[5] Cfr. Autobiography, p. 90.
[6] Cfr. Autobiography, p. 93.
[7] . Cfr. Viktor Frankl, El hombre doliente, Herder, Barcelona, 1990, p. 267.

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