quinta-feira, janeiro 11, 2018

O que é a alma humana?

Por São Francisco de Sales, “Tratado do amor de Deus”, p. 73-79.
Ensinamentos dos Doutores da Igreja

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 As partes da alma humana
Temos apenas uma alma, Teótimo, e esta é indivisível, mas há nela diversos graus de perfeição, pois ela é viva, sensível e racio­nal, e segundo esses diversos graus ela apresenta também diver­sidade de propriedades e de inclinações, pelas quais é levada a fugir ou a unir-se às coisas.
Em primeiro lugar, assim como vemos que as vinhas não se dão bem com as couves, pois uma prejudica a produção da outra, enquanto, ao contrário, a vinha se dá bem com a oliveira, vemos também que há um natural antagonismo entre o homem e a serpente, de sorte que a simples saliva de um homem em jejum pode matar uma serpente[1], enquanto o homem e o cordeiro, ao contrário, convivem perfeitamente e apreciam a companhia um do outro. Essa inclinação ou repulsão não procede do conheci­mento sobre a nocividade daquele que nos é contrário ou sobre a utilidade daquele com quem nos damos bem, mas sim de uma propriedade oculta e secreta que produz essa repulsão e antipa­tia ou essa inclinação e simpatia.
Em segundo lugar, temos em nós o apetite sensitivo, por meio do qual somos levados a buscar ou a fugir de muitas coisas graças ao conhecimento sensitivo que delas temos, assim como, entre os animais, alguns apreciam um tipo de alimento e outros pre­ferem outro, segundo o seu instinto lhes diz que tais alimentos os beneficiam ou prejudicam. Nesse apetite reside ou dele pro­vém o amor que chamamos sensual, e que não é propriamente amor, mas simplesmente apetite.
Em terceiro lugar, sendo seres racionais, temos uma vontade, pela qual somos levados a procurar o bem, segundo aquilo que a inteligência, acertadamente ou não, nos apresenta como sendo um bem. Ora, na alma racional existem manifestamente dois graus de perfeição, que o grande Santo Agostinho[2], e depois dele todos os doutores, chamaram as duas partes da alma, a inferior e a superior; a inferior é a que raciocina e tira suas conclusões pela experiência e conhecimentos fornecidos pelos sentidos; e a superior é a que raciocina e tira suas conclusões pelo conheci­mento intelectual, que não se baseia na experiência dos sentidos, mas no discernimento e juízo do espírito. Esta parte superior é normalmente chamada espírito e parte mental da alma; a infe­rior é conhecida como sentido ou sentimento e razão humana.
A parte superior (o espírito) pode adquirir conhecimentos por duas espécies de luzes: ou pela simples luz natural, como fize­ram os filósofos e os sábios que dominavam a ciência, ou pela luz sobrenatural, como fazem os teólogos e cristãos quando baseiam os seus conhecimentos na revelação divina, e de forma especial aqueles cujo espírito é guiado por inspirações e iluminações celestes. Como diz Santo Agostinho, a parte superior da alma é aquela pela qual aderimos e obedecemos à lei eterna.

Jacó, pressionado pela fome de sua família, permitiu, a con­tragosto, que Benjamim partisse com seus irmãos para o Egito, como a história sagrada registrou[3]. E nessa ocasião manifes­tou duas vontades: uma inferior, pela qual desgostou-se com sua partida, e outra superior, pela qual se resolveu a enviá-lo mesmo assim. A razão pela qual se desgostou com sua partida era fundada no prazer que sentia em tê-lo perto de si e no des­gosto que lhe causava a separação. Já a resolução que tomou de enviá-lo era fundada na necessidade de sua família, para preve­nir uma fome futura.
Abraão, quando o anjo lhe anunciou que teria um filho, mani­festando uma certa desconfiança na parte inferior da alma, disse: Acaso poderá nascer um filho a um homem de cem anos?[4] Mas, com a parte superior da alma, Abraão creu em Deus e isto lhe foi computado como justiça[5]. Segundo a parte inferior, ficou sem dúvida muito perturbado quando Deus lhe ordenou que sacri­ficasse o seu filho[6]; porém, segundo a superior, determinou-se corajosamente a sacrificá-lo.
Todos os dias experimentamos muitas vontades contrárias. Um pai que envia seu filho para estudar longe de casa não deixa de chorar quando dele se despede, mostrando que, apesar de que­rer, segundo a parte superior, a partida de seu filho para vê-lo progredir na ciência e na virtude, todavia, segundo a parte infe­rior, sente desgosto por essa separação. Quando uma donzela se casa, embora seu casamento seja aprovado por seus pais, isso não os impede de chorar no momento de dar-lhe a bênção de despe­dida, o que mostra que a vontade superior consente na partida e a inferior mostra resistência. Isso, porém, não quer dizer que haja no homem duas almas ou duas naturezas, como julgavam os maniqueus: “Não”, diz Santo Agostinho[7], “mas a vontade, sedu­zida por diversos atrativos, pressionada por várias razões, parece estar dividida em si mesma, enquanto é pressionada pelos dois lados, até que, tomando livremente uma decisão, segue um ou outro”, porque então a vontade mais poderosa predomina, e, tor­nando-se vencedora, só deixa na alma o ressentimento pelo mal que a luta lhe causou, a que chamamos contragosto.
O exemplo do nosso Salvador é admirável a esse respeito, e, depois de bem o considerarmos, não resta mais nenhuma dúvida sobre a distinção entre a parte superior e inferior da alma. Jesus foi perfeitamente glorioso desde o instante de sua concepção no seio da Virgem, e, ainda assim, estava também sujeito às triste­zas, pesares e aflições de coração. E não se diga que ele sofreu só no corpo, ou mesmo segundo a parte sensível da alma, isto é, segundo os sentidos. Pois Ele próprio atesta que, antes de ter experimentado qualquer tormento exterior, antes mesmo de ter visto os algozes perto de si, a sua alma estava numa tristeza mortal[8], pedindo em seguida que o cálice da sua Paixão lhe fosse reti­rado. Com essas palavras Jesus exprime claramente o desejo da parte inferior da sua alma, que, pensando nos tristes e angustio­sos objetos da Paixão que lhe estava preparada e cuja imagem se apresentava vivamente em sua imaginação, como conclu­são muito racional desejou fugir e afastar-se daqueles objetos, fazendo essa súplica a seu Pai; por onde se vê claramente que a parte inferior da alma não é o mesmo que o seu grau sensitivo, nem a vontade inferior é a mesma coisa que o apetite sensual. Pois nem o apetite sensual, nem a alma no seu grau sensitivo são capazes de formular um pedido ou súplica, que é um ato da facul­dade racional; muito menos são capazes de falar a Deus, objeto inacessível aos sentidos.
Mas, tendo o Salvador manifestado assim a parte inferior de sua alma e mostrado que, segundo as considerações próprias dela, a sua vontade se inclinava a fugir às dores e às penas, mostrou também, depois, a ação da parte superior, pela qual, aderindo inviolavelmente à vontade eterna e ao decreto do Pai celeste, aceitou voluntariamente a morte, e, não obstante a repugnân­cia da parte inferior da razão, exclamou: Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice; não se faça contudo a minha vontade, mas a tua[9]. Quando ele diz: a minha vontade, refere-se à parte inferior; e, ao dizer isso voluntariamente, mostra que tem uma vontade superior.

Diferentes graus de Razão

Havia três átrios no templo de Salomão: um para os gentios e estrangeiros, que vinham adorar a Deus em Jerusalém; o segundo para os Israelitas, homens e mulheres; o terceiro para os sacerdo­tes e levitas; e, por fim, havia ainda o Santuário ou casa sagrada, à qual somente o Sumo Sacerdote tinha acesso, uma vez ao ano[10].
A nossa razão, ou, melhor dizendo, a nossa alma enquanto racional, é o verdadeiro templo do Senhor, que nela reside mais particularmente. “Eu te procurava fora de mim”, diz Santo Agosti­nho[11], “e não te encontrava, porque estavas em mim”. Neste tem­plo místico há também três átrios, que são três diferentes graus de razão: no primeiro raciocinamos segundo a experiência dos sentidos; no segundo, discorremos segundo as ciências huma­nas; no terceiro, segundo a fé; e, além disso, há ainda uma certa eminência, cume superior da razão e faculdade espiritual, que não é guiada pelo raciocínio, mas por uma simples intuição do entendimento e um simples sentimento da vontade, pelos quais o espírito adere e se submete à verdade e à vontade de Deus.
Ora, esta extremidade e cume da nossa alma, este supremo ápice do nosso espírito, é representado com muita propriedade pelo Santuário ou casa sagrada. Porque: 1.º — No Santuário não havia janelas para iluminar; e neste grau do espírito não há racio­cínio que ilumine; 2.º — No Santuário, toda a luz entrava pela porta; e neste grau do espírito, nada entra senão pela fé, a qual produz, como sob a forma de raios, a visão e o sentimento da beleza e bondade de Deus; 3.º — Ninguém entrava no Santuário senão o sumo Sacerdote; e neste cimo da alma o raciocínio não tem acesso, mas somente o soberano e puríssimo sentimento de que a vontade divina deve ser soberanamente amada, aprovada e abraçada, não somente para alguma coisa em particular, mas em geral para todas as coisas; 4.º — O Sumo Sacerdote, ao entrar den­tro do Santuário, obscurecia ainda a luz que entrava pela porta, lançando muitos perfumes no seu turíbulo, cuja fumaça enco­bria os raios da luz que vinha pela abertura da porta; assim, toda a visão que se tem na suprema extremidade da alma é de certo modo obscurecida e coberta pelas renúncias e resignações que a alma faz, não querendo tanto considerar e ver a beleza da ver­dade e a verdade da bondade que lhe é apresentada, como abra­çá-la e adorá-la; de forma que a alma quereria quase fechar os olhos, logo que começa a ver a dignidade da vontade de Deus, para que, sem mais ocupar-se em considerá-la, possa mais pode­rosa e perfeitamente aceitá-la, unir-se e submeter-se a ela.
Por fim, 5.º — no Santuário estava a Arca da aliança, e nela, ou pelo menos junto a ela, estavam as tábuas da Lei, o maná dentro de um vaso de ouro, e a vara de Aarão, que floresceu e deu fruto numa noite[12]; e neste supremo cimo do espírito se encontram: a) a luz da fé representada pelo maná escondido no vaso, pela qual aderimos à verdade dos mistérios que não compreendemos: b) a utilidade da esperança representada pela vara florida e fecunda de Aarão, pela qual aderimos às promessas dos bens que não vemos; c) a suavidade da santíssima caridade, representada nos manda­mentos de Deus que ela abrange, e pela qual aceitamos a união do nosso espírito com o de Deus, união que quase não sentimos. Pois ainda que a fé, a esperança e a caridade distribuam o seu divino movimento por quase todas as faculdades da alma, tanto racionais como sensitivas, reduzindo-as e submetendo-as santa­mente à sua justa autoridade, é certo que a sua especial morada, a sua verdadeira e natural residência está neste supremo cimo da alma, do qual, como de uma excelente fonte de água viva, se espa­lham por diversos regatos, sobre as partes e faculdades inferiores.
Na parte superior da razão há dois graus, num dos quais se fazem os raciocínios que dependem da fé e da luz sobrenatural, e no outro se fazem as simples aquiescências da fé, da esperança e da caridade. A alma de São Paulo sentiu-se dividida entre dois desejos diversos: um era separar-se do corpo para ir ao céu estar com Jesus Cristo, e o outro, permanecer neste mundo para nele trabalhar pela conversão dos povos; um e outro desejo estavam sem dúvida na parte superior, porque procediam ambos da cari­dade; mas a resolução de seguir o último não se realizou pelo raciocínio, mas por uma simples visão e um simples sentimento da vontade de Deus, à qual aderiu o cume do seu espírito, sobre­pondo-se a qualquer conclusão que pudesse vir do raciocínio.
Mas se a fé, a esperança e a caridade se formam por esta santa aquiescência que acontece no cume do espírito, como é que a parte inferior pode desenvolver raciocínios que dependem da luz da fé? Assim como vemos que os advogados no tribunal dis­cutem com muitos argumentos sobre os atos e os direitos das partes, e que o Parlamento ou Senado resolve em última instân­cia todas as dificuldades por uma sentença, mas, mesmo depois de pronunciada esta, os advogados e auditores não deixam dis­cutir entre si os motivos que levaram o Parlamento a proceder assim, do mesmo modo, Teótimo, depois que a graça de Deus persuadiu o espírito a aquiescer e firmar o ato de fé em forma de sentença, o entendimento não deixa de discorrer de novo sobre essa mesma fé, já concebida, para considerar os motivos e razões dela; mas os discursos da teologia se fazem no recinto e no ple­nário da parte superior da alma, e as aquiescências no alto, no tribunal superior do cume do espírito. Como o conhecimento destes quatro diferentes graus da razão é altamente necessário para compreender todos os tratados das coisas espirituais, quis desenvolvê-lo amplamente.



[1] Esses termos de comparação são tirados das opiniões populares da época.
[2] In os., CXLV, § 5.
[3] Gn 43, 1-14.
[4] Gn 17, 17.
[5] Gn 15, 6.
[6] Gn 22, 2.
[7] Confissões, Livro VIII, cap. X.
[8] Mt 26, 38.
[9] Lc 22, 42.
[10] Hb 9, 7.
[11] Confissões, Livro X, cap. XXVII.
[12] Hb 9, 4.

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