quinta-feira, janeiro 18, 2018

A sede do amor de Deus

Por São Francisco de Sales, “Tratado do amor de Deus”, p. 82-87.
Ensinamentos dos Doutores da Igreja

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Quando o homem pensa atentamente na Divindade, sente logo uma doce comoção que atesta que Deus é o Deus do cora­ção humano; nunca a nossa inteligência tem maior prazer do que ao ocupar-se de Deus, e o menor conhecimento d’Ele, como diz o príncipe dos filósofos[1], vale mais do que o maior conheci­mento das outras coisas. O menor raio do sol é mais luminoso que o maior raio da lua ou das estrelas, e mesmo mais do que a lua e as estrelas juntas. Se qualquer acontecimento assusta o nosso coração, este recorre logo à Divindade, confessando que, quando tudo lhe é funesto, só Deus lhe é propício, e quando está em perigo, só Ele, como soberano bem, o pode salvar e proteger.
Este prazer, esta confiança que o coração humano tem natu­ralmente em Deus, não pode proceder senão da conformidade perfeita que existe entre a divina Bondade e a nossa alma. É uma conformidade ao mesmo tempo grande e oculta; conhecida por todos e entendida por poucos; conveniência que não se pode negar, mas também não se pode penetrar. Com efeito, fomos criados à imagem e semelhança de Deus[2]; e que quer dizer isso, senão que temos uma extrema conformidade com a sua divina majestade?
A nossa alma é espiritual, indivisível, imortal; é capaz de conhecer e de querer, e de livremente julgar, raciocinar, saber e ter virtudes; nisto se assemelha a Deus. Reside toda em todo o corpo, e toda em cada uma das partes dele, assim como a Divin­dade está toda em todo o mundo, e toda em cada parte do mundo.
O homem se conhece e se ama a si mesmo por meio de atos produzidos e expressos pelo entendimento e pela vontade; e, embora o entendimento e a vontade sejam distintos um do outro, o conhecimento e o amor ficam inseparavelmente unidos na alma e nas faculdades de onde procedem. Assim também, em Deus, o Filho procede do Pai, como a expressão do conhecimento deste; e o Espírito Santo é como a expressão do amor procedente do Pai e do Filho; são três pessoas distintas entre si, e contudo inse­paráveis e unidas numa única, simples e indivisível Divindade.

Mas, além dessa conformidade de semelhança, há uma cor­respondência admirável entre Deus e o homem, para a sua recí­proca perfeição. Não que Deus possa receber qualquer perfeição do homem; mas, como o homem não pode ser aperfeiçoado senão pela divina Bondade, assim também a divina Bondade não pode, de certo modo, exercer melhor a sua perfeição, fora de si mesma, do que socorrendo a nossa humanidade. O homem tem grande necessidade e capacidade de receber o bem; e Deus tem imensa abundância e inclinação para dar o bem. Nada é mais oportuno para um pobre do que encontrar um rico liberal, nem há nada que cause mais prazer ao liberal do que deparar com uma misé­ria para socorrer. E quanto mais abundante é o bem, maior é o seu desejo de se dar e comunicar. E quanto mais necessitado é o indigente, tanto maior a sua vontade de receber, assim como o vácuo anseia por encher-se de ar. É, pois, um agradável e dese­jável encontro este da abundância com a indigência, e quase não se poderia dizer quem tem maior prazer — se o que possui, dando, ou se o que necessita, recebendo — se Nosso Senhor não tivesse afirmado que “é mais feliz quem dá do que quem rece­be”[3]. Ora, onde há mais felicidade, há mais satisfação; a divina Bondade tem, pois, mais prazer em distribuir as suas graças, do que nós em recebê-las.
Quando as mães têm os peitos cheios e transbordantes, não podem esperar muito tempo para amamentar; e, embora os filhos suguem com avidez e com prazer, premidos pela fome, maior é a satisfação da mãe ao amamentar, premida por sua abundância.
A esposa sagrada tem fome do beijo de união, e quer receber do esposo o alimento do amor que supera o sabor e o perfume dos melhores vinhos[4]. Como o vinho novo, que se aquece e ferve pelo poder de sua excelência e já não pode conter-se nos tonéis, também o amor de Deus já não pode conter em si mesmo a sua abundância, e por isso se derrama e transborda do seu divino coração para saciar a fome dos homens, exalando, para atraí-los, um perfume superior a todos os outros perfumes.
Assim, Teótimo, a nossa indigência necessita da abundância divina por penúria e carência, enquanto a abundância divina só necessita da nossa pobreza pela excelência de sua perfeição e bon­dade. Aquele que dá de sua abundância nada recebe a mais do que já tem, mas a nossa indigência permaneceria carente e miserá­vel, se Deus não a socorresse com a abundância de sua bondade.
A alma, considerando que nada a contenta por completo, e que a sua capacidade não pode ser preenchida por coisa alguma que exista no mundo, vendo que o seu entendimento anseia por saber sempre mais, e que a sua vontade procura insaciavelmente o amor e o bem, tem razão de exclamar: “Ah! não sou feita para este mundo! Existe algum bem supremo de que dependo, e algum ser infinito que imprimiu em mim este interminável desejo de saber e de amar, essa fome que não pode ser saciada; importa, pois, que eu me encaminhe e me dirija para ele, para me unir e ligar à sua bondade, à qual pertenço”. Tal é a conformidade que temos com Deus.

Temos uma inclinação natural para amar a Deus sobre todas as coisas

Se houvesse hoje homens que conservassem a integridade e retidão originais que Adão possuía quando foi criado, mesmo que não recebessem de Deus nenhuma outra assistência além daquela que Ele oferece a todas as criaturas a fim de que possam executar as ações que lhes são próprias, eles não somente teriam em si a inclinação para amar a Deus sobre todas as coisas, mas estariam naturalmente capacitados para seguir essa inclinação tão justa; pois, assim como o divino autor e senhor da natureza coopera e empresta sua força ao fogo para elevar suas chamas, às águas para correr em direção ao mar e à terra para permane­cer no solo, assim também, tendo ele mesmo colocado no cora­ção do homem uma inclinação natural especial, não apenas para amar o bem em geral, mas para amar particularmente e acima de tudo a sua divina bondade, que é superior e mais digna de amor do que todas as coisas, a excelência de sua soberana providên­cia também o levou a dispensar a esses homens bem-aventura­dos todo o socorro que fosse necessário para colocar em prática essa inclinação natural. E esse socorro, por um lado, seria natu­ral, como inerente à natureza que tende para o amor de Deus por ser Ele seu criador e soberano, e por outro lado seria sobre­natural, por corresponder, não à simples natureza do homem, mas à natureza adornada, enriquecida e honrada com a justiça original, que é uma qualidade sobrenatural, fruto de um favor especial de Deus. Mas o amor a Deus sobre todas as coisas, que
seria praticado graças a essa ajuda, seria chamado natural, pois as ações virtuosas são denominadas segundo os seus objetos e motivos, e é pela simples luz natural que Deus é reconhecido como autor, senhor e fim soberano de toda criatura, e, portanto, digno de ser amado sobre todas as coisas por uma inclinação e propensão natural.
Ora, ainda que o estado atual da natureza humana já não seja dotado da perfeição original que o primeiro homem pos­suía em sua criação, e embora estejamos profundamente depra­vados pelo pecado, ainda assim a inclinação para amar a Deus sobre todas as coisas conservou-se em nós, como também a luz da inteligência pela qual sabemos que Ele é bom e amável sobre todas as coisas. Por isso, quando alguém concentra o seu pensa­mento em Deus, mesmo utilizando apenas a razão natural, não pode deixar de sentir um certo impulso de amor, suscitado no coração pela secreta inclinação de nossa natureza, e pelo qual, ao primeiro vislumbre desse primordial e soberano objeto, a von­tade se sente movida a comprazer-se nele.
Entre as perdizes, acontece com frequência que umas roubam os ovos das outras para chocá-los, seja por sua avidez de serem mães, seja pela incapacidade de reconhecer os próprios ovos; entretanto, é sabido que o filhote, ao ouvir a voz de sua verda­deira mãe, logo corre para ela, mesmo tendo sido chocado e ali­mentado por outra ave, porque existe entre o filhote e sua mãe uma correspondência vital, ainda que tenha permanecido oculta e como que adormecida no fundo da sua natureza, até que, subi­tamente despertada pelo encontro com o objeto que lhe corres­ponde, produz logo o seu efeito, levando-o para onde pertence.
O mesmo acontece, Teótimo, com o nosso coração; porque, embora ele seja acalentado, nutrido e educado no meio das coi­sas corporais, inferiores e transitórias, e, por assim dizer, sob as asas da natureza, todavia, ao primeiro olhar que lança a Deus, ao primeiro conhecimento que dele recebe, a inclinação natural e original de amar a Deus, que estava como que adormecida e imperceptível, acorda num instante, e de repente aparece como uma centelha que sai de entre as cinzas, e que, movendo a nossa vontade, lhe transmite um impulso do amor supremo que é devido ao soberano e primeiro Princípio de todas as coisas.



[1] Aristóteles, De part. Animal., L. I, c. v, initio.
[2] Gn 1, 26.
[3] At 20, 35.
[4] Ct 1, 2.

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