quinta-feira, dezembro 28, 2017

Para ter um coração agradecido

Por Romano Guardini, “Introdução à vida de oração”, p. 77-84.


Ação de graças. Também esta jorra naturalmente do coração. É assim que respondemos aos dons de Deus. Contudo, não devemos fazê-lo apenas quando um pedido é satisfeito, mas sempre. O nosso coração deve responder constantemente, agradecido, à benéfica ação do Deus previdente que nos ama. Essa resposta significa que sabemos que tudo o que somos e temos, que tudo o que nos acontece, provém de Deus; e, ao mesmo tempo, que lhe somos gratos por isso.
O apóstolo São Paulo adverte: “E sede agradecidos (...). Tudo o que fizerdes, em palavras ou em obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3,15.17). Algumas palavras nascidas do coração de Deus manifestam claramente como é grave se esquecer de agradecer: quando os dez leprosos foram curados e só um deles, um samaritano, voltou para agradecer, Jesus exclamou: “Não ficaram curados todos os dez? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse e desse glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” (Lc 17,11-19). Essas doloridas palavras do coração divino recordam as queixas que tantas vezes saíram da boca dos profetas, quando o povo, a quem o amor de Deus fizera grandes coisas, o esquecia.
O que acontece de forma natural não é objeto de agradecimento. Se conheço as leis naturais e vejo que a uma determinada ação se segue um efeito correspondente, não sinto gratidão, por mais que eu seja beneficiado. É algo que deve acontecer necessariamente. Também não há gratidão, no sentido estrito, quando compro uma mercadoria e ela se torna minha. Somente quando uma pessoa, de forma livre e cordial, me faz um favor sem que tivesse necessidade ou obrigação de fazê-lo, desperta em mim o sentimento belo, íntimo e espontâneo que leva a dizer: “Muito obrigado!”.

Nesse momento, porém, é importante reconhecer — não apenas com a razão, mas com o coração — que, no fundo, não há nada que aconteça de forma natural. Há coisas no mundo que, como vimos antes, parecem sê-lo; mas, quando consideramos o mundo no seu conjunto, a naturalidade cessa. Vivemos no mundo, recebemos dele a substância e as forças da nossa existência, estamos unidos a ele por mil laços de causas e efeitos. Por isso, o mundo nos parece simplesmente “dado”, e nem nos vem à cabeça a ideia de que não pudesse existir. Esse mundo é a “natureza”, que constitui o pressuposto de tudo o mais. Mas é incrível pensar assim, pois, na verdade, não é natural que o mundo exista. Ele não é necessário, e podia não existir. Existe porque Deus o quis, e Ele simplesmente o quis. Aqui terminam as razões e começa a pura liberdade. O mundo surgiu da liberdade divina, e essa liberdade é amor. Por isso, dar graças a Deus por Ele ter criado o mundo é um ato elevado, cheio de autenticidade e de verdade. Também não é natural que eu exista. Encontro-me em mim mesmo, vivo em mim mesmo, sou eu próprio, e por isso o meu ser me parece, ainda mais que o ser do mundo, simplesmente “dado”, e que é o pressuposto de tudo o mais que há ao meu redor. No entanto, eu sei perfeitamente que poderia não existir...
Nós utilizamos duas vezes a expressão “simplesmente dado”, a qual possui um duplo sentido bastante profundo: significa que o que existe é o pressuposto de tudo o mais; mas também quer dizer que se trata de uma dádiva, algo que não existe de modo natural, nem por necessidade ou por direito, mas sim que procede de um ato de benevolência. Dessa maneira, devo sentir no meu íntimo, com o coração, que eu recebo o meu ser constantemente como uma dádiva que procede da mão criadora e generosa de Deus.
Em geral, designamos com a palavra “graça” aquilo que não procede das possibilidades que nos oferecem as coisas ou os homens, mas que provém de Deus como um favor que nos ilumina, ajuda e santifica. Nesse sentido, opomos a graça à “natureza”. Contudo, podemos ainda empregar esta palavra em um sentido mais lato, para designar a origem de tudo quanto não existe por necessidade, mas por puro dom de Deus. Nesse caso, trata-se do mundo, do homem, de mim mesmo, de tudo quanto existe, à exceção de Deus. Tudo é dado, e dado por Ele, que é o doador por excelência. 
Por vezes, temos o sentimento profundo de como é inconcebível e perturbador o fato de existirmos. E apesar de toda a maldade e de todas as dificuldades da vida, é, na verdade, uma grande graça o fato de podermos respirar e sentir, de podermos pensar, amar e agir; em suma, de podermos existir. É uma grande graça que as coisas existam: um copo que está sobre a mesa, a árvore que está no campo, a paisagem que nos rodeia e o sol acima de tudo. E também que os homens existam: uma pessoa a quem amo, outra por quem me preocupo... Quão profundamente compreendemos assim que nada é natural, que tudo existe como obra da liberdade feliz da benevolência divina, e que por tudo devemos, ou melhor, podemos dar graças!
Também não é natural que existam outras pessoas, conforme acabamos de dizer. Quando a nossa sensibilidade espiritual está adormecida, aceitamos a existência de outros como algo óbvio, mas, assim que acorda, abre-se para a verdade. As relações humanas importantes dividem-se em duas categorias. A primeira baseia-se no encontro. Alguém veio de algum lugar. Sempre se vem “de algum lugar”, um local que não conhecemos plenamente, por mais que acreditemos conhecê-lo. Afinal, que sabemos nós das raízes da pessoa que pensamos conhecer perfeitamente? Nós nos encontramo, e assim surgiu o que chamamos amizade, camaradagem ou amor. Esse acontecimento parece responder a uma necessidade interior, pois, quando ocorre, temos a impressão de que não poderia ter sido de outro modo. No entanto, o encontro é “casual”, porque, da mesma maneira, poderia não ter surgido.
Outras relações se formam pelas próprias exigências da vida. Assim, por exemplo, o filho procede da vida dos pais e por isso está ligado a eles e aos irmãos. Esta forma de pertencer não deriva de nenhum encontro, mas da própria formação. Esse vínculo pode parecer algo natural e necessário, mas não o é, porque os pais e os filhos, o irmão e a irmã são pessoas dotadas de liberdade. Em certo sentido, essas relações, para serem autênticas, precisam ser assumidas e reafirmadas livremente. Isso significa que esse vínculo possui a mesma insegurança interior que a mencionada a propósito do encontro. Por conseguinte, toda pessoa com a qual possuímos algum vínculo também nos é “dada”, e por isso devemos agradecer pela sua existência.
O mesmo podemos dizer de tudo o que acontece. As ciências naturais, a tecnologia e o domínio da vida nos acostumaram a considerar que todas as coisas estão submetidas às leis imutáveis. Acreditamos que as coisas acontecem porque assim exige a sua natureza, ou porque assim deve ser de acordo com as condições que nós mesmos estabelecemos. Tudo perdeu o caráter de mistério. Tudo foi “desencantado”, como disse alguém. Diversos autores, porém, afirmam que não devemos pensar desse modo, não somente porque assim se perdem muitos aspectos belos do real, mas porque não é verdade. Em um determinado momento abrem-se os nossos olhos e tanto as coisas como os acontecimentos nos apresentam uma feição completamente diferente. Deixam de se mostrar como algo perfeitamente natural, explicável porque cumpre as condições postas pela natureza, e submergem no mistério.
Assim, o homem compreende que as coisas e os acontecimentos dependem de um poder superior, de forma que as leis naturais e os planos humanos são simples normas externas de ordenação, e possuem, por isso, o caráter de “graça”. Tudo quanto acontece realiza-se segundo as leis da natureza e do espírito, mas essas leis são apenas um instrumento nas mãos livres e criadoras de Deus e a expressão da firmeza dessa criação. Tudo o acontece nos é dado como um dom, e, por isso, podemos e devemos dar graças por tudo.
 Devemos falar agora de algo que demanda a nossa gratidão acima de tudo: o poder de Deus que de forma constante nos governa, guia, ilumina e santifica. Quando falamos da oração de petição, vimos que não devemos apenas pedir o que é necessário para viver e solicitar ajuda em situações difíceis, mas principalmente abrir-se à energia que vem de Deus, graças à qual vivemos e existimos. A nossa existência é como um arco: um extremo se apoia em nós mesmos, e o outro, o mais importante e decisivo, apoia-se em Deus. A oração de súplica deve ser, portanto, o rogo constante para que esse arco santo chegue até Deus, e a ação de graças é a resposta por esse arco vir sem cessar até nós, que pode ser dita assim: “Dou-te graças, meu Deus, por subsistir por Ti. Dou-te graças por conhecer com a Tua luz, por agir com a Tua força, por ser santificado pelo Teu amor!”.
A partir dessa perspectiva, as nossas relações com os homens, com as coisas e com os acontecimentos adquirem o verdadeiro sentido. Todas as coisas chegam até mim não apenas como uma parte do mundo, ao qual eu também pertenço, mas como mensageiras e formas do poder amoroso de Deus. O que o cristão deve pedir, antes de tudo, é que a vontade de Deus no mundo se realize de modo cada vez mais livre e puro, e a sua ação de graças deverá residir, essencialmente, em saber receber tudo, de uma maneira cada vez mais consciente e mais íntima, como um dom de Deus. 
Há uma expressão com a qual a ação de graças alcança uma forma verdadeiramente sublime, e quase poderíamos dizer divina. Nós já nos referimos a ela quando falamos da oração de louvor a Deus. É uma atitude espiritual que nos leva a dar graças a Deus por Ele ser grande, por existir, viver e reinar sobre todas as coisas. Porém, como isso é possível? Nós afirmamos anteriormente que só poderíamos agradecer por aquilo que não nos é dado por natureza, que não é necessário e que não se baseia em um direito. Mas, o que há de mais necessário que a existência de Deus? Quem possui o direito de existir, senão Aquele de quem se diz que, na sua essência, “é digno de receber a honra, a glória e o poder” (Ap 4,11)? Tudo isso é verdade, no entanto, a existência de Deus não é algo sem propósito. O mesmo podemos dizer sobre o mundo, embora com outro sentido. O mundo não existe necessariamente, pois procede da liberdade criadora de Deus. Deus tampouco existe desse modo, já que Ele é o mistério por excelência, Aquele que constitui em si mesmo o milagre da existência.
A palavra “mistério”, em seu sentido mais autêntico, não significa um fato que deveria ter sido explicado e não foi, mas o caráter próprio da essência de Deus. E “milagre” não significa algo que ultrapassa as possibilidades humanas, mas sim algo que recebe de Deus o seu sentido luminoso, que atrai o coração e se torna um “sinal”. Quem se aproxima de Deus sente o seu mistério e o seu poder de atração. Ele é o único real, o único essencial e necessário, mas, ao mesmo tempo, Aquele que desperta uma admiração sagrada. Ora, da admiração brota a gratidão...
Quando uma pessoa ama outra, quando a ama de verdade e não apenas sente por ela respeito, simpatia ou desejo, mas estabelece com ela uma relação de pertença íntima, de confiança e entrega de si mesmo — conforme pressupõe o amor —, experimenta diante da pessoa amada uma admiração sempre nova, e pode muito bem chegar o momento em que lhe diga com sinceridade: “Agradeço-te por seres assim; agradeço-te por existires”. A razão não pode compreender isso perfeitamente, mas o coração compreende. Entre os homens, esse mistério é apenas um esboço; a sua plenitude só se atinge em Deus. De tal maneira Deus é o mistério essencial e o milagre vivo que, quanto mais nos aproximamos Dele, mais pura é a gratidão que nos inspira. “Damos-te graças pela Tua grande glória”, diz-se no Glória da Santa Missa.
Por isso, é da maior importância que o homem aprenda a agradecer e a superar a indiferença diante das coisas que lhe parecem perfeitamente natural. Nada é natural; tudo é dádiva. Somente quando o homem compreende isso é que todos os seres se tornam livres, na medida em que deixam de estar voltados para si mesmos.
Pela manhã, ao sentir o frescor e a pureza da vida após o descanso da noite, é uma boa ocasião para dizer a Deus: “Dou-te graças por respirar e existir. Dou-te graças por tudo o que tenho e tudo quanto me rodeia!”. Depois das refeições, devemos dizer: “O alimento que recebi foi dádiva tua. Dou-te graças por isso!”. E, ao anoitecer, pode ser esta a nossa oração: “Por me teres permitido viver, trabalhar e sentir alegria; por ter encontrado esta pessoa, por ter comprovado a fidelidade daquela... dou-te graças por tudo!”.
Devemos dar graças a Deus pela fé; pelo mistério de termos renascido para a vida de Deus, pela santa relação que nos une intimamente a Ele. Devemos também nos esforçar para agradecer por tudo o que nos dói. O que exige mais valentia na Providência divina, mas também significa maior promessa, é a ideia de que tudo o que acontece, inclusive o que nos é custoso, amargo e incompreensível, é uma forma de graça.
Viver segundo a Providência é viver de acordo com a vontade de Deus, mesmo que esta vontade seja contrária aos nossos próprios desejos. Essa atitude de submissão manifesta toda a sua pureza na ação de graças. Assim, aceitamos receber da mão dadivosa de Deus inclusive o que é duro e aparentemente nocivo. Não é uma tarefa fácil, e não devemos nos entusiasmar. Avancemos apenas quanto for possível, porém, sempre podemos mais do que parece à primeira vista. Conduzidos pela fé, podemos agradecer também pelo que nos é difícil, e, na medida em que o conseguirmos, a dificuldade se transfigura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...