quinta-feira, dezembro 21, 2017

O nascimento do Menino Jesus

Por Jan Dobraczynski, “A sombra do pai – História de José de Nazaré”, p. 181-185.

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José saiu da gruta. Deteve-se, correu o olhar em torno. Ainda era noite, o céu estava limpo e cheio de estrelas. Daquela multidão de pontinhos brilhantes, caía sobre a terra uma cascata de esplendor. O espaço estava entretecido por uma espécie de bruma prateada. Os montes apareciam à distância como pintados de prata. Um silêncio profundo estendia-se sobre as rochas e as planícies onduladas. Parecia a José que não era o mesmo silêncio noturno quando todos dormem. Tinha exatamente a sensação de que ninguém dormia, mas que todos, a terra, as pessoas e mesmo os animais, velavam sob uma estranha tensão. A terra inteira parecia compartilhar dessa espera.
O cão saiu da gruta atrás de José. Apoiado na perna dele, em vigilante expectativa, com as orelhas em pé e a cauda estendida. Fitava um ponto no espaço. Às vezes, voltava-se para José e emitia um ruído de compreensão. Apesar do frio, não ficou perto do fogo. Dava voltas, parecia que não encontrava sossego.
Ao sair da gruta, José notou que também não dormiam os outros animais. O boi respirava por cima da manjedoura, mas com os olhos abertos. O burro também, apesar do grande cansaço da viagem, mantinha a cabeça erguida.
Da gruta não saía nenhum ruído. Miriam não gritou uma única vez, nem ouviu sair de seus lábios a mais leve queixa. Quando acenderam o fogo com Ata e esquentaram a água, ela jazia sobre o leito de palha e cobria os olhos com as mãos. A seguir, ela pediu:
José, queres sair, por favor? O que vai acontecer será logo. Ata ficará comigo. Depois te chamarei.
Ele saiu sem trocar uma palavra. Ao deixar a gruta, respirou profundamente. A gruta estava cheia de fumaça. Não foi possível acender o fogo de imediato, porque a madeira e a palha estavam úmidas. A fumaça não saía da gruta, mas se juntava no teto rochoso. Ardia nos olhos. Em troca, porém, começou a fazer calor. Lá fora, ao contrário, fazia um frio intenso e esmagador.

O tempo passava. Da gruta não vinha nenhum ruído. Reinava profundo silêncio. Ele sabia que um parto pode ser demorado, mas não era capaz de afastar seus pensamentos nem por um instante do que estava acontecendo na gruta. Dava-se conta de que estava acontecendo algo extraordinário, incompreensível. Enquanto eu viver, pensava, minha lembrança voltará a este instante. Eu o contarei... Para Ele em particular, quem sabe?
Mas Aquele que ia nascer dentro de um instante iria querer, algum dia, prestar atenção a uma ingênua narrativa sobre a noite de sua vinda ao mundo? E quem será Aquele? Um ser com o poder de conhecer tudo o que ocorreu antes de Seu nascimento, ou um homem normal que cresce devagar, amadurece, descobre seu ambiente? O Altíssimo podia, é claro, enviá-lo de maneira diferente: imediatamente cheio de força e poder. Por que Ele queria que o que há de ser maravilhoso começasse na miséria e no abandono? Ou talvez não seja mais que um momento, um momento de provação? Talvez esta noite se mude de repente, se transforme em um dia radiante, em cujo esplendor todos reconheçam a glória do Eterno...
José tinha a mente extraordinariamente clara, o pensamento trabalhava com agilidade. O que acontecerá com eles – pensava – quando todo mundo souber com clareza quem foi que nasceu? Não tinha a ambição de ser exaltado. Mantinha a muda esperança de que chegaria o dia em que pudesse voltar com Miriam para a normalidade. Preocupava-se com o fato de que esse Menino se converteria na Espada do Altíssimo. E seria o Vencedor de todas as nações. Há séculos se esperava pelo Messias... Há séculos se implorava que ele viesse. E também José tinha esperado e rezado. Vivia com o sonho de que o mundo inteiro iria reconhecer o Anunciado. Entretanto, desejava com toda a alma que este Anunciado não viesse envolto no fogo de vitórias cruentas, ainda que muitos desejassem essas vitórias.
Nas recordações de José não havia guerras. Fazia tempo que a paz reinava no país. Uma paz excepcionalmente longa! Fora garantida pelos romanos, e também Herodes – o fiel executor da vontade dos romanos – velava por ela. É verdade que ele assassinava, mas só no círculo de seu meio. Contudo, na lembrança do povo permanecia viva a memória das lutas, dos cercos, das matanças, das florestas de cruzes nas quais estavam cravados os acusados de rebelião. A voz das pessoas tremia ao recordar aqueles acontecimentos. Assim contavam os mais velhos. Os jovens pensavam diferente. Os fariseus também se queixavam desta paz. Asseguravam que ela ocultava muitos crimes.
Esta paz será destruída pelo Menino? O Altíssimo iria preferir a luta e as vitórias cruentas? Queria o bem somente para eles, o povo escolhido? No entanto, esta estrangeira fora a única que lhes prestara ajuda, enquanto os seus se negaram a isso. E isto ocorrera mais de uma vez, tal como testemunhavam os livros santos.
“Eu não me preocuparia com este fato”, pensava ele, “se neste momento estivesse nascendo meu verdadeiro filho. Saberia que haveria de ser tal como eu iria ensiná-lo. Mas Ele não é meu filho... É alguém que o Altíssimo envia. Chega para cumprir Sua vontade.” O próprio José não desejava outra coisa. Esperava para ouvir o chamado do Altíssimo. Quando chegou, seguiu-a, ainda que lhe tivesse exigido renunciar à jovem que havia encontrado e ao filho de seus sonhos. “Eu não entendo”, pensava, “mas já que Ele o exige...”
Apoiou-se contra a rocha com todo o seu corpo, fechou os olhos. Ao seu redor, continuava reinando o mesmo silêncio, como impregnado de anelante expectativa. O cão ladrou. José abriu de novo os olhos. Pestanejou com força. Era como se o resplendor do sol o tivesse ferido. Mas não havia sol. A noite não deixara de ser noite, ainda que se tornasse mais luminosa do que antes. O resplendor que antes saía das estrelas parecia agora brotar de todos os lados, como irradiado pela terra, pelos montes, pelas plantas. Tudo ao redor parecia arder. Sentiu que estava rodeado do perfume das flores. Elas não existiam antes. Agora, divisava campos inteiros de flores. Olhasse para onde olhasse, abriam-se grandes cálices brancos...
Às suas costas, ouviu a voz de Ata:
— Ó José, alegra-te! Alegra-te muito! É menino. Tens um filho. Nasceu sem problemas. Como é bonito! Tua esposa te chama...
Para José, havia parecido apenas que na palavra “esposa” havia um traço de extraordinário respeito? Entrou correndo na gruta. O fogo continuava a fumegar, a fumaça ainda ardia nos olhos. Através da fumaça, como através da névoa, ele viu Miriam inclinada sobre a manjedoura. Era ali, sob as cabeças inclinadas dos animais, que ela depositara o recém-nascido. José inclinou-se. Sobre a palha, jazia o Menino. Um Menino como os demais meninos. Tinha as pálpebras fechadas, como se fizesse esforço para não olhar, e a boquinha pequena entreaberta como se buscasse algo. Não se diferençava das crianças recém-nascidas que já tinha visto. As pequenas mãozinhas azuladas, com o punho fechado, não se estendiam para pegar a espada. Era pequeno e frágil. Precisava de proteção. O boi e o burrinho olhavam o Menino do alto com uma espécie de expressão compreensiva no focinho. O cão empinou-se e lambeu a mãozinha erguida.
— Olha, José  sussurrou Miriam.  Como é bonito!
 O mais bonito – reconheceu ele.
 Vai chamar-se Jesus... Permites, certo?
 Vai chamar-se como tu quiseres...
 Nosso Jesus  sussurrava ela.  Nosso Filho...
José pôs as mãos por baixo do Menino e ergueu-o. Era muito leve, parecia não pesar mais que os trapinhos que o envolviam. O antigo costume exigia que o pai erguesse a criança e a pusesse no seu colo. O olhar sorridente de Miriam manifestava seu desejo. Ele fez o gesto tradicional e, quando fitava o bebê colocado em seu regaço, experimentou umas sensações estranhas. Um instante antes, quase se revoltara contra o recém-nascido. Agora se envergonhava desses pensamentos. Aquele que tinha nascido não era um gigante preparado para a luta. Entre suas mãos, José sentia o corpo delicado, frágil. As mãozinhas do Menino agitavam-se com o movimento inseguro de um recém-nascido. De repente, abriu os olhinhos fechados. José viu a íris escura e a córnea azulada. Olhou com interrogação esses olhos, mas o Menino, como qualquer recém-nascido, fixava-se em um ponto no espaço. Movia continuamente a boquinha.
José levantou-se de novo e tornou a colocá-lo na manjedoura. Miriam o cobriu com um pedaço de pano arrancado de sua túnica. Não tinham nada para vestir o Menino. Confiavam tanto em conseguir tudo com as mulheres dos irmãos de José!
Timidamente, cheio de nova ternura, ele tocou a cabeça de Miriam inclinada sobre a manjedoura.
 Agora  ele disse  tens de descansar, dormir. Ele quer dormir. Ata ficará vigiando e eu não me afastarei. Podes ficar tranquila, não fecharei os olhos. Estarei velando.
 Eu sei que estarás velando  sussurrou ela.
 Então, dorme.
— Vou dormir  já estava repousando a cabeça sobre a palha, quando perguntou:  Tu o amarás?
 Poderia deixar de amá-lo?
 Tens razão. Não poderias! Nem tu, nem ninguém... Mas tu  e tocou com o dedo o peito de José  hás de ser o pai. É nosso Jesus...
Voltou a sorrir de novo e logo fechou os olhos. Pouco mais tarde, estava dormindo. José sentou-se ao lado da manjedoura. Com a cabeça apoiada na mão, contemplava o Menino adormecido. A fumaça continuava ardendo nos olhos. O cão recostou-se a seus pés. No silêncio, ouvia-se a respiração das pessoas e dos animais. Às vezes, crepitava o fogo.

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