quinta-feira, dezembro 07, 2017

A humilde serva, a Rainha

Por D. Ildefonso Rodriguez Villar, “Virtudes de Nossa Senhora – Meditações”, p. 106-110.

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1. O verdadeiro conhecimento. Como a humildade é a verdade, e funda-se na verdade, e é fonte da verdade, é ela a que nos dá o verdadeiro e exato conhecimento de nós mesmos. Vê quão bem se conhecia a Santíssima Virgem a si mesma. Ninguém tinha recebido de Deus mais graças e privilégios extraordinários do que Ela. Imaculada na Sua Conceição, cheia de graça, por isso mesmo, desde o seu primeiro instante mais santa que todos os santos e santas juntos. Rainha do Céu e corredentora dos homens, bendita entre todas as mulheres, enfim com o título único que tudo resumia: Mãe de Deus.
Assim se via Maria, assim conhecia a Si mesma. Não obstante, vê como Ela é sempre humilde! Sabia que tudo isto estava n’Ela, porém nada era dela; tudo era de Deus, tudo era porque se tinha dignado o Senhor olhar para a sua escravazinha, com olhos de misericórdia, como o cantou no seu Magnificat; tudo atribuía a Deus.
Tinha uma consciência perfeita do seu nada, e assim se considerava diante de Deus, como o mesmo nada, como a última das suas criaturas, como a mais indigna das escravas que O servem. Assim adorava Ela a Deus, assim se aniquilava na sua presença, assim se submetia em tudo e sempre à sua divina vontade, assim estava toda a vida recebendo e praticando a sua fórmula sublime de humildade.
O programa da vida do verdadeiro humilde: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. E como tinha este conhecimento profundo de si mesma, e operava sempre com este conhecimento e persuasão do seu nada, assim aparecia também perante os outros. É Rainha dos Anjos, porém, não o mostra. Com que reverência os trata! Vê neles os servos fiéis de Deus, os seus emissários e embaixadores, e por isso se humilha diante d’Eles. Desgosta-se e perturba-se ao ver-se reverenciada e louvada por eles.

Deste mesmo modo trata com os homens. Fixa-te, especialmente, no seu porte humilde e respeitoso, para com os seus pais, para com os sacerdotes, para com os superiores, para com S. José, enfim, para com todas aquelas aldeãzinhas de Nazaré. Vê como vive exatamente igual a elas, como a humilde esposa de um carpinteiro, e tão convencida estava de que era em Si mesma, que não aspirava a outra coisa, julgando que não tinha direito a outro gênero de vida, e sempre contente com a sua sorte, e isto que era a Rainha do Céu! Que exemplo, que lição para nós! Faz aplicações práticas à tua vida, compara-te com a Virgem Santíssima em alguns desses casos que tu perfeitamente conheces da tua vida, e verás claramente, deste modo, a tua soberba, o teu amor próprio, o teu orgulho refinado, a tua falta de humildade, e, por isso mesmo, a tua falta de conhecimento sincero de ti mesmo.  
2. A verdadeira grandeza. Medita agora na grandeza que brota da humildade; esta é a única que merece este nome. Todas as outras grandezas são mentira. O homem nunca é tão grande como quando está de joelhos, isto é, quando se humilha e se confunde com o pó da sua miséria. Assim se confundiu o publicano do Evangelho e fez santo. Assim se confundiu S. Pedro, e no seu humilde arrependimento mereceu ser exaltado até à honra de primeiro Papa. Assim, mais que todos os santos e mais que todas as criaturas, se confundiu a Santíssima Virgem ao confessar-se publicamente escrava do Senhor, e por isso foi elevada à dignidade de Mãe de Deus! Que verdadeira grandeza a da humildade diante de Deus e até diante dos homens! Recorda a Luzbel no Céu, a Adão no Paraíso, e convencer-me-ás que a soberba, não só não conduz a espécie alguma de grandeza, senão que leva à mais terrível e espantosa queda. Uma vez quiseram os homens levantar uma torre que chegasse ao Céu, para desafiar o poder de Deus e tornar impossíveis os castigos da sua justiça, mas a única coisa que fizeram foi tornarem-se ridículos, dignos de desprezo e de troça de todas as gerações.
Compara agora com esta a conduta de Maria, que não quer passar da condição de serva e escrava, e não só de palavra, mas a valer; quer ser tida como tal, e viver sempre assim. Deus, porém, exalta-a tanto, que também Ela excitará a atenção de todas as gerações, mas para a admirarem e bendizerem sempre. Como Deus cumpre bem a sua palavra! O que se humilha será exaltado.
Do nada criou o mundo e tirou todas as coisas, e não parece senão que agora também quer tirar do nosso nada toda a nossa grandeza. Por isso exige como condição indispensável, para fazer-nos grandes e santos, que tenhamos diante dos nossos olhos o nosso nada, o puro nada que somos e que podemos. Somente a humildade é a que levanta a altíssima torre, firme e segura, que ultrapassa as nuvens e chega até aos Céus, até ao trono do próprio Deus.   
3. A verdadeira fortaleza. Finalmente é na humildade que se encontra o ponto de partida para as grandes façanhas, para os grandes heroísmos. O humilde descansa em Deus, conta com o poder onipotente de Deus, e não há nada que se lhe oponha, nem dificuldades que vença. A humildade não é pusilanimidade nem retraimento, que nos faz covardes, medrosos; pelo contrário, é a virtude dos fortes, a que dá e gera a verdadeira fortaleza. Toda a sua coragem varonil e a sua grande energia e decisão em operar, dissemos que a tirou a Santíssima Virgem da sua profunda humildade.
Na sua Purificação, passa Maria por uma das maiores humilhações da sua vida; seria necessário, para apreciá-la em toda a sua extensão, conhecer o amor da Santíssima Virgem à sua pureza imaculada. À dignidade de Mãe de Deus teria anteposto ou preferido à sua virgindade, e agora, tem que passar aos olhos das criaturas como uma mulher igual às outras. A açucena puríssima aparece como murcha perante os homens. Só Deus conhece o seu candor e inocência. O amor próprio facilmente teria procurado pretextos neste caso para proceder doutra maneira: o zelo da glória de Deus, a edificação do próximo, a alegria daquele povo ao saber que já estava entre eles o Messias, etc. Maria não admite tais sugestões, obedece à lei com tanto maior gosto quanto é para Ela mais humilhante. Deus neste dia aprecia mais a sua oferenda que todas as outras, porque nenhuma se Lhe ofereceu com mais humildade. Ah! Repara com que fortaleza e virilidade Maria, nesta cerimônia, oferece a Deus o Seu Filho, e se entrega Ela mesma à imolação, ao Sacrifício.
Tu também necessitas de generosidade, virilidade, fortaleza para oferecer a Deus o teu Sacrifício, o que mais te custa e o mais necessário, o do teu amor próprio. Fá-lo com generosidade e fortaleza; na humildade a encontrarás. Pede à Santíssima Virgem um conhecimento de si mesmo e dos teus afetos, o conhecimento do teu proceder. Que reverência tens na oração, com os anjos e santos, com os teus superiores, como pensas d’Eles, e como te portas com eles? És respeitoso, deferente, submisso a todos os que têm autoridade sobre ti? Como correspondes às graças de Deus? A humildade te ensinará tudo isto. Pede-a assim à Santíssima Virgem, insta e roga-Lhe encarecidamente para que te não negue esta graça.

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