quinta-feira, novembro 23, 2017

Os reis magos realmente existiram?

Por Margarida Hulshof, “Conversando sobre a Bíblia”, p. 234-237.

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Os evangelhos não foram escritos com a inten­ção de apresentar uma biografia de Jesus no sentido moderno, mas sim, para dar a conhecer a pessoa de Jesus e sua missão, o lugar essencial e preciso que o Filho de Deus ocupa na história de nossa salvação.
Para Mateus, que se dirigia especialmente a judeus seguidores de Jesus, era importante mostrar a ligação entre a Nova Aliança e a Antiga, mostrar que em Jesus se cumpriam, de fato, as pro­fecias messiânicas do Antigo Testamento, que ele era a conti­nuidade lógica da história de salvação iniciada com Abraão. Era preciso que seus leitores pudessem enxergar que todos os acon­tecimentos da antiguidade tinham sido uma preparação para o advento de Jesus, que inaugurava um novo tempo e uma nova lei, em substituição à antiga.
Em toda a Bíblia está presente essa intenção primordial de ensinar a ouvir a voz de Deus nos acontecimentos e discer­nir seu significado religioso, mais do que simplesmente relatar fatos. Por isso, os hebreus desenvolveram um gênero literário especialmente propício a isso, chamado midraxe. O midraxe é um relato de fundo histórico, mas que pode ser “enriquecido” com traços fictícios, comentários interpretativos e associações com outros fatos bíblicos, a fim de tornar mais clara a mensa­gem que o autor deseja apresentar. É uma espécie de comentário teológico sobre os fatos, a fim de que se tornem um instrumento catequético. Dentro da maneira de pensar dos judeus antigos, tal recurso literário era lícito e válido, não era visto como “engana­ção” ou falsificação, como alguns tendem a concluir ao avaliar, anacronicamente, a cultura antiga pelos padrões de hoje. Se os teólogos veem com clareza essa questão, demonstram às vezes falta de cuidado na hora de explicá-la aos fiéis.
O Evangelho de Mateus procura apresentar Jesus como o novo Moisés, o novo libertador e legislador que leva à plenitude a antiga Lei, e forma o novo povo de Deus, que é a Igreja. Para enfatizar esse paralelo com Moisés, Mateus interpreta os fatos da infância de Jesus de forma a evidenciar sua relação com as tradições antigas. Assim, Jesus vai ao Egito e de lá regressa, uma vez afastados os seus perseguidores, num paralelo entre Mt 2, 19-21 e Ex 4, 19s.

Há escritos judaicos antigos (não bíblicos) que dizem terem sido os astrólogos que revelaram ao Faraó o futuro nascimento do libertador de Israel, motivo pelo qual o Faraó mandou matar os bebês hebreus do sexo masculino (Ex 1, 16). Há aqui um paralelo com Mt 2, 16, onde Herodes manda matar os meninos na esperança de, entre eles, matar também Jesus, cujo nascimento lhe fora igualmente anunciado por astrólogos ou magos (Mt 2, 1-2). Essa semelhança, e outras ainda – como a relação entre a estrela vista pelos magos e a profecia de Balaão em Nm 24,17 – mostram a intenção de Mateus de apresentar Jesus como novo Moisés.
Isso é o que os teólogos geralmente dizem – e não estão errados. Mas eles deveriam enfatizar mais que tal circunstância não significa, absolutamente, uma falsificação da história.
Vários testemunhos de autores pagãos atestam que a expecta­tiva judaica de um Messias encontrava eco também entre povos distantes, tendo sido, sem dúvida, introduzida no Oriente pelos judeus por ocasião do exílio (séc. VI a.C.), e também depois. Por exemplo, o historiador romano Tácito (†120 d.C) escreveu: “Os homens estavam geralmente persuadidos, à luz da fé de antigas pro­fecias, de que o Oriente ia tomar a vanguarda, e, dentro em breve, se veria sair da Judeia aqueles que governariam o universo” (Hist. V. 23). Também Zaratustra (séc. VI/VII a.C), na Pérsia, falava de uma tradição segundo a qual o Bem triunfaria sobre o Mal gra­ças à “verdade encarnada” que devia nascer de uma “virgem que nenhum homem tivesse tocado”.
Isso mostra que havia, sim, no Oriente, sábios pagãos capa­citados para discernir um sinal enviado por Deus sobre o nas­cimento do Messias judeu. A estrela, além de ser o símbolo da nação judaica, era imagem comum entre os judeus para desig­nar o aparecimento de um grande homem, podendo representar também um anjo, ou qualquer sinal de que se sirva a Providência para guiar os homens.
Sabe-se também que havia, entre os medos e persas, uma casta sacerdotal muito bem conceituada, designada pelo nome de “magos” (o que, em sua língua, significava “sacerdote”), e que se ocupava da adivinhação, astrologia e medicina. Sabe-se, igualmente, que era comum a presença de reis e outras personalidades pagãs em Jerusalém, atraídos – entre outros motivos – também pela religião aí praticada.
Portanto, a história contada por Mateus não é nenhum absurdo, mas perfeitamente verossímil, ainda que Mateus possa ter dado forma personalizada a um fato genérico. Não se pode provar que aqueles determinados magos existiram, mas também não se pode provar que não existiram. Na verdade, não há como detectar o limite exato entre os fatos reais e os pormenores que a tradição lhes acrescentou com finalidade catequética, mas é certo que o núcleo essencial é histórico.
Agora, quanto à afirmação de que “não eram três e não eram reis”: de fato, o Evangelho não diz que eles eram reis, nem diz quantos eram; só fala em “magos do Oriente”. Mas nem por isso se pode afirmar com certeza que não eram três ou que não eram reis, pois é perfeitamente possível que o fossem. A abordagem mais razoável seria dizer, simplesmente, que não é possível saber se essa tradição retrata a realidade, e que o Evangelho não traz essa informação (nem a desmente).
A ideia de que eram três surgiu a partir do número de pre­sentes oferecidos: ouro, incenso e mirra (Mt 2, 11). Quanto ao status de reis, deriva provavelmente de diversas profecias mes­siânicas segundo as quais “todos os reis da terra se prostrarão diante dele e lhe pagarão tributo” (Sl 72(71), 10).
Seus nomes (Gaspar, Melquior e Baltasar) foram extraídos de escritos apócrifos – que não deixam de ter, também, valor como documentos antigos, ainda que não tenham sido reconhecidos como inspirados por Deus – e a crença de que cada um deles pertencia a uma raça (branca, negra e amarela) expressa a ideia da universalidade da salvação.

A Igreja aplicou, aqui, o mesmo processo catequético usado pelos judeus, permitindo que se formassem e se cultivassem tra­dições que, sem apresentar pretensões de verdade histórica, aju­dam os fiéis a compreender e a celebrar o mistério da Salvação. Isso deve ser entendido e reconhecido como um recurso pedagó­gico legítimo e saudável, e não condenado como sinal de atraso e ignorância. A Igreja nunca afirmou que os reis magos fossem personagens históricos, mas também não o nega porque não há necessidade, nem justificativa para fazê-lo.

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