quinta-feira, novembro 02, 2017

O que é o purgatório?

Por F. Pollien; J. Tissot, “Vida interior simplificada e reconduzida ao seu fundamento”, p. 198-201.

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Nada de impuro entrará no céu. – “Oh! minha filha”, escreve São Francisco de Sales a Santa Joana, “como desejo que estejamos, um dia, totalmente aniquilados em nós mesmos, para viver inteiramente para Deus, e que nossa vida esteja escondida com Cristo em Deus! Oh! Quando já não seremos nós a viver, mas Cristo vivendo em nós? Vou agora rezar um pouco nessa intenção, suplicando ao soberano coração do Salvador por nosso coração”. 

Com que energia eu deveria fazer meus os desejos de São Francisco de Sales! Pois essa purificação total do ser humano, essa transferência de todo o meu “eu” ao reino da dileção do Filho de Deus, que me torna digno e capaz de participar da herança dos Santos na luz (Cl 1, 12), deve realizar-se antes de minha entrada no céu. Ninguém lá entrará sem que esse trabalho esteja terminado. 

O que não for feito neste mundo, será feito no purgatório; com a condição, porém, de que o trabalho tenha sido começado, pois o pecado mortal condena eternamente ao inferno. É preciso passar pela morte para obter a vida. 

Sim, esse trabalho quase infinito de purificação do humano, esse despojamento das coisas criadas, esse aniquilamento dos apegos indevidos, essa transformação do meu ser, tudo isso é condição prévia para minha entrada no céu. A carne e o sangue não herdarão o reino de Deus, nem a corrupção a incorruptibilidade, diz São Paulo. É preciso que o que é corruptível revista a incorruptibilidade, e o que é mortal revista a imortalidade. Até que esteja inteiramente purificada, diz São João da Cruz, a alma não poderá possuir Deus neste mundo pela pura transformação do amor, nem no outro pela plena visão1. Se, neste mundo, Deus não pode consumar com a alma essa união completa a que chamamos “matrimônio místico” senão após o total aniquilamento do humano, como poderia, sem isso, consumar no céu a eterna união de sua glória? 

Duração do purgatório. – Oh! meu Deus! O que será então o purgatório? Será mesmo preciso que as chamas consumam tudo em mim? Não somente os resquícios de pecado e as imperfeições, mas todo o humano? Tudo o que for deste mundo? Todos os apegos fora de Deus? Será preciso que elas realizem a completa transfiguração do meu ser? Se, nos santos, essas operações são tão longas e dolorosas... Se, para realizá-las neste mundo, é preciso enfrentar tantas cruzes, tantas tribulações... Se o seu despojamento de todas as coisas me causa arrepios... Meu Deus! O que será para mim o purgatório!... 
Falarei agora sobre o pequeno número de almas que entram diretamente no céu, sobre a doutrina da Igreja a respeito do purgatório e sobre sua impressionante insistência quanto à oração pelos mortos. Quando chegar o fim dos tempos e começar a eternidade, diz o Senhor, eu julgarei com retidão (Sl 74, 3). Eis o julgamento justo. 

Purificação e glorificação. – No que se refere à sua purificação, as almas serão iguais no céu; nenhuma será mais pura que outra, pois todas deverão estar absolutamente puras. Sob esse ponto de vista, a vocação é a mesma para todos, todos são chamados a atingir o cume mais alto. Nesse sentido, o mandamento que me obriga a amar a Deus com todo o meu ser, tem para mim a mesma amplitude absoluta que tem para os santos e para os anjos. A palavra de Deus em seu grande mandamento, ex toto, tem um rigor ilimitado. Nenhuma mancha, nenhuma imperfeição, nenhum grão de poeira pode subsistir em minha alma, não mais que nos anjos. Sou chamado à pureza perfeita, à consumação suprema. 
Mas, aqui, é necessário fazer uma distinção. Com efeito, no trabalho da vida interior e em suas ascensões, há duas partes: uma negativa, de purificação, e a outra positiva, de glorificação. Durante esta vida mortal, as duas partes do desenvolvimento divino não se separam. 
Toda purificação é acompanhada por uma dilatação da alma e um aumento de méritos. 

Glorificação limitada. – Em que medida se faz a purificação, nós o vimos ao tratar dos cinco graus da piedade; pois esses cinco graus caracterizam, na verdade, os progressos da purificação interior. Mas, em que medida a alma aumenta sua capacidade divina e seus méritos eternos, isso é segredo de Deus. Conheço bem as misérias que abandono, mas não tanto as riquezas que adquiro. A grandeza da minha virtude, a extensão dos meus méritos, a elevação da minha alma, o lugar que terei no céu – esses mistérios somente me serão revelados na plena luz da vida futura. 
Sei que, neste mundo, a cada um é dada a graça segundo a medida do dom de Cristo (Ef 4, 7); sei que, na outra vida, a glória corresponderá à medida da graça que eu tiver feito frutificar neste mundo; sei que possuirei, na eternidade, o desenvolvimento que tiver adquirido no tempo; sei que, na medida em que me purifico das manchas do mal, eu também cresço, mas isso é tudo que sei. Ou melhor, sei algo mais. Sei que cada um tem sua medida neste mundo, e que, no firmamento dos eleitos, cada estrela terá sua diferente claridade (1 Cor 15, 41); sei que o trabalho de crescimento e de glorificação termina irrevogavelmente com a morte, e que cada um conservará eternamente a medida de méritos que tiver adquirido no momento em que a morte o visitar (Ecl 11, 3). É preciso que eu realize as obras d’Aquele que me enviou, enquanto é dia; pois vem a noite, durante a qual ninguém pode trabalhar (Jo 9, 4). 

Purificação continuada. – Em consequência, das duas obras que se realizam simultaneamente durante o período da existência terrestre, uma delas, a de glorificação, cessa instantaneamente e absolutamente com a morte; a outra, a de purificação, continua, se necessário, no além-túmulo, até seu completo acabamento. Esse trabalho se realiza em um “lugar” determinado pela justiça misericordiosa do supremo Juiz, e ao qual chamamos purgatório. Aí se realiza uma purificação sem méritos, sem crescimento do ser, sem outro proveito além da própria purificação. O purgatório me conduzirá ao grau absoluto de pureza requerido para comparecer diante de Deus; mas terei, ao final do processo, o mesmo grau de mérito que tinha em seu início. Daí ser extremamente sensato “apressar-me para entrar em acordo com meu adversário enquanto estou a caminho com ele, para que não aconteça que ele me entregue ao juiz, e o juiz ao guarda que me lançará na prisão, de onde não sairei enquanto não tiver pago até o último centavo” (Mt 5, 25). 
Como é preciso ser insensato e ter pouca fé, para condenar-me voluntariamente a uma longa “prisão” e a uma expiação sem benefícios, sendo que posso, agora, ganhar tanto com a minha santificação! 

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