quinta-feira, novembro 30, 2017

Apostolado: transbordamento da vida interior

Por Dom J.B. Chautard, “A alma de todo apostolado”.

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 Sede perfeitos como perfeito é vosso Pai celestial (Mt 5,48). Guardadas todas as devidas proporções, o modo como Deus opera deve ser o critério, a regra da nossa vida interior e exterior.
  Ora, já sabemos que Deus é naturalmente generoso, e a experiência nos mostra o quão abundantemente ele espalha os seus benefícios sobre todos os seres, e mais especialmente sobre a criatura humana. Assim, há milhões de séculos, o universo inteiro é objeto dessa inesgotável prodigalidade que dá incessantemente seus benefícios. Entretanto, nem por isso Deus fica mais pobre, essa generosidade inesgotável de forma alguma diminui os seus infinitos recursos.
  Ao homem, Deus faz mais do que conceder-lhe bens exteriores: envia-lhe o seu Verbo. Mas ainda aqui, neste ato de suprema generosidade, que outra coisa não é senão o dom de si mesmo, Deus nada abandona, nada pode abandonar da integridade da sua natureza. Dando-nos o seu Filho, sempre o conserva em si mesmo. “Tomai como exemplo o ilustre soberano de todas as coisas, que ao mesmo tempo envia o seu Verbo e o retém com ele.”[1]
Por meio dos Sacramentos, e especialmente por meio da Eucaristia, Jesus Cristo vem enriquecer-nos com as suas graças. Sobre nós as derrama sem peso nem medida, porque ele também é um oceano sem limites, cujo extravasamento escorre sobre nós, sem que jamais possa exauri-lo: Todos nós participamos de sua plenitude (Jo 1,16).
Assim devemos ser, de alguma forma, nós, os homens apostólicos, que assumimos a nobre tarefa da santificação alheia: “O vosso verbo é a vossa consideração: ela parte de vós, sem de vós sair”[2]; o nosso próprio verbo é o espírito interior que a graça formou em nossas almas. Esse espírito deve vivificar todas as manifestações interiores do nosso zelo; mas, como incessantemente o despendemos em prol do próximo, sem intermissão o devemos renovar também através dos meios que Jesus nos oferece. Que a nossa vida interior seja um como tronco cheio de seiva robusta a transformar-se sempre nas flores das nossas obras.
  Uma alma de apóstolo! É ela a primeira que deve ser inundada de luz e inflamada em amor, a fim de que, refletindo essa luz e esse calor, possa esclarecer e abrasar depois as outras almas. O que viram, o que consideraram com os próprios olhos, o que quase apalparam com as mãos, eles o hão de ensinar aos homens (1Jo 1,1). “Sua boca efundirá nos corações a abundância das doçuras celestes”, diz S. Gregório.
 Podemos agora deduzir o seguinte princípio: a vida ativa deve proceder da vida contemplativa, traduzida e continuada exteriormente, desligando-se dela o menos possível.
Os santos Padres, os Doutores com persistência proclamam esta doutrina. Santo Agostinho diz: “Antes de permitir à sua língua que fale, o apóstolo deve elevar a Deus a sua alma ávida, a fim de exalar o que tiver bebido e de disseminar aquilo de que estiver repleto.”[3]
  “É necessário receber, diz o Pseudo-Dionísio[4], antes de comunicar; os anjos superiores apenas transmitem aos inferiores as luzes cuja plenitude receberam. Nas coisas divinas, o Criador estabeleceu esta ordem: aquele que tem por missão distribuí-las deve ser o primeiro a participar delas e a encher-se com abundância das graças que Deus quer dispensar às almas, por seu intermédio. Então, e somente então, lhe será permitido tornar os demais participantes delas.”
  E ainda a conhecida palavra de S. Bernardo aos apóstolos: “Se sois sábios, sede reservatórios, e não canais”[5]. O canal deixa correr a água recebida, sem guardar uma só gota dela. O reservatório, ao contrário, primeiro enche-se, e depois, sem se esvaziar, verte torrentes incessantemente renovadas sobre os campos que fertiliza. Dos que se dedicam às obras, quantos há por aí que são apenas canais, ficando sempre secos, mesmo quando procuram fecundar os corações! “Há hoje na Igreja muitos canais, mas reservatórios, muito poucos”[6], ajuntava com tristeza o abade de Claraval.
  Toda causa é superior ao seu efeito; logo, para aperfeiçoar os outros é preciso uma perfeição maior do que para se aperfeiçoar simplesmente a si mesmo[7]. Como a mãe não pode amamentar o filho senão na medida em que ela própria se alimenta, assim também os confessores, os diretores de almas, os pregadores, os catequistas, os professores, devem primeiramente assimilar a substância com que hão de nutrir em seguida os filhos da Igreja[8]. A verdade e o amor divino são os elementos dessa substância. E só a vida interior traduz a verdade e a caridade divinas de maneira a torná-las verdadeiro alimento capaz de engendrar a vida.




[1] S. Bernardo 1, II De Consid., III.
[2] S. Bernardo, 1, II, De Consid., III.
[3] S. Agostinho. Doct. christ., 1, IV.
[4] Pseudo-Dionísio. Coei. hier., c. III.
[5] S. Bernardo, Serm. 18, in Cant.
[6] S. Bernardo, ibid.
[7] Cf. S. Tomás, Opusc. de perf. vit. spir.
[8] S. Boaventura. Ilus. Eccl., serm. 1.

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