quinta-feira, novembro 09, 2017

A corrupção da virtude

Por Manoel Augusto Santos, “A alegria da misericórdia”, p. 55-59.

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Depois do regresso do filho pródigo recomposto em seu exterior, começaram a celebrar a festa. Poderia ter encerrado aí a parábola. O filho pródigo voltou e a casa se encheu de alegria. Poderia ter-se repetido a frase final das outras parábolas: assim acontece no céu cada vez que se converte um pecador. Ponto final. Um final lógico, redondo e suficiente. Contudo, a parábola segue. Há uma segunda parte, e o que nela é contado resulta algo obscuro, complicado, triste. 
A mesa está servida. Porém, há uma cadeira vazia. Falta o irmão mais velho. Aos que já ouviram ou leram várias vezes a parábola, podem aparecer fases diversas de entendimento sobre esse filho: 1ª fase, pensar que ele tinha razão, afinal, ele foi fiel, cumpridor; 2ª fase, pensar que ele estava errado e identificar nos outros uma semelhante atitude; 3ª fase, pensar que ele estava errado e identificar em si mesmo, ao menos ocasionalmente, um comportamento parecido. 
O filho mais velho é o quadro de ciúme, inveja, amargura, suscetibilidade e irritação infantis. A aversão que demonstra ao seu irmão é um ressentimento torpe. E demonstra que cumpriu as tarefas com ânimo mercenário. Satisfeito consigo mesmo e convencido de sua honestidade, crê-se num pedestal donde pode se orgulhar e julgar. Ofendido pelos gestos do Pai, não sabe participar da alegria do retorno de seu irmão, pois tem endurecido o coração.  
Convém recordar outra parábola de Jesus: a do publicano e do fariseu1. O filho pródigo e o filho fiel, o publicano e o fariseu: dois pares quase idênticos. Ora, Jesus expôs a parábola do filho pródigo com um propósito muito concreto. Foi resposta à atitude adotada contra ele pelos fariseus: censuram-no por acolher publicanos e pecadores. Como o filho pródigo, o publicano se reconhece pecador ante Deus. E o fariseu: não sou como os outros. Orgulhosa confissão parecida à do filho mais velho. Os fariseus estiveram na principal mira de Jesus. Não por desprezo, mas para tentar quebrar a casca.  
Os fariseus presumiam ser justos e desprezavam os demais2. A acusação principal de Jesus aos fariseus é a hipocrisia. Chega ao ponto de, em Mt 23, repetir oito vezes: “ai de vós, fariseus hipócritas”. Aos fariseus unicamente interessa a aparência, a exterioridade. Só importa a ostentação, a fachada, a reputação social. Até a oração fica contaminada. A oração, assim como qualquer outra atividade humana, pode ser nada sincera, aparentemente revestida de virtudes e méritos diante de Deus.  
O filho mais velho é um fariseu clássico, tanto em seus defeitos como em suas virtudes. Porém, são virtudes corrompidas pelo orgulho, pelo convencimento de poder se gloriar delas. Curiosamente, o fariseu mais perfeito aspira a ser tido por alguém não só incontestável como também humilde. Realmente a hipocrisia constitui uma homenagem que o vício rende à virtude.  
Todas as virtudes são suscetíveis de falsificação. A fé pode se transformar em superstição, a esperança em presunção, a caridade em injustiça. Existe tolerância que é só indiferença. Também a humildade pode se perverter, converter-se na caricatura de si mesma: o orgulho. Um tipo farisaico experimenta a profunda satisfação de saber-se humilde, se compraz em sua “humildade”. Era a virtude que faltava adquirir a sua lista. Como dizia alguém: dentre as grandes qualidades que eu tenho, e não são poucas, a que mais sobressai é a humildade, em segundo lugar a modéstia, e em terceiro lugar o esquecimento de mim mesmo.  
Aliás, outro perigo: virtude é uma disposição habitual. Ocorre que um hábito, quando se consolida, corre o risco de tornar-se mecânico. Ao final, a virtude fica esvaziada de sua própria substância, por exemplo, a obediência do filho mais velho. Para ele tudo se reduz a um sistema de correspondência, retribuição e castigo. Era um filho laborioso, muito cumpridor e diligente. Consciente de seus méritos, aspirava à retribuição justa.  
Aliás, soltando asas à imaginação, uma provável oração do filho mais velho: “Graças Te dou, Senhor, porque não sou como os adúlteros, ladrões, injustos, nem como meu irmão menor, um filho pródigo. Eu sou trabalhador, justo e casto. E além do mais, humilde, nunca fiz valer meu título de filho, trabalhei sempre como qualquer outro, nunca pedi privilégios, nem sequer um cabrito para festejar. Graças Te dou, porque sou humilde, não como meu irmão que, depois de jogar fora o patrimônio, tem a insolência de celebrar um ruidoso banquete só para que todos possam alegrar-se de seu regresso”.  
A hostilidade com seu irmão demonstra desprezo e inveja. Nem o reconhece como irmão: “esse teu filho”. E o senso de justiça do filho mais velho? É uma justiça deformada e deformante, está convencida de que não deve ceder nunca, não abrandar jamais. A misericórdia seria uma debilidade, uma traição à justiça. Para o estilo farisaico, o pecador nunca poderia ser objeto da misericórdia — isso constituiria um privilégio de quem não necessita dela, uma prerrogativa do justo.  
O filho mais velho representa aquele que experimenta a sua fé religiosa mais como servidão do que como um dom. Ainda que se lhe diga que a fé é um dom e que a perseverança na fé é um dom diariamente renovado, ele não entende. Representa quem é fiel em várias coisas, porém julga Deus em dívida para com ele, e não compreende a misericórdia para com os pecadores.  
E esse, ao menos de vez em quando, somos nós. Por exemplo: quando Eucaristia vira prêmio de bom comportamento; quando cumprir a lei é o mais importante — ou pelo menos é o necessário; quando confissão é um ato meramente jurídico-criminal, ato mecânico de descarregar pecados. Ora, pecado, mais que transgressão, é ofensa.  
Certamente complica a aparição do filho mais velho. Seria mais fácil identificar-nos apenas com o filho pródigo. Não somos todos filhos pródigos? Sim, mas também temos pecados que caracterizam esse outro filho. Nesse caso, Jesus parece o profeta Natan dizendo a Davi: esse homem és tu!  
Costumamos dizer: “somos pecadores”. Como confessamos nossas culpas, presumimos a sinceridade; como não ocultamos nossa miséria, pensamos que já somos honrados. Desse modo, ao sentir-nos tão honestos pelo simples fato de confessar-nos culpados, acabamos caindo no mesmo pecado nefando de auto complacência e orgulho do filho mais velho.  
“Sou autêntico e os outros são hipócritas”. “Eu tenho a alma aberta, em contraste com a rigidez e a mesquinhez de alguns”. “Meus pecados são mais leves, mais dignos de indulgência que os de outros”. Com essas frases ou algo parecido, declaramos ser pecadores e, no entanto, intimamente nos cremos justos. Os justos que se apreciam de pecadores: mais admiráveis que os justos convencionais. Eis aqui o novo publicano rezando: “graças Te dou, Senhor, porque ainda que seja ladrão, injusto e adúltero e não jejuo nem pago o dízimo, eu reconheço meus pecados e não sou como esse fariseu”.  
Ademais, como pode alguém julgar acerca de outro? Tudo está repleto de juízos temerários e preconceitos. Aquele de quem desesperávamos, de repente se converte e se torna ótimo. Outro, do qual muito esperávamos, subitamente fraqueja e se faz péssimo. Nem nosso temor é seguro, nem certo o nosso amor. Aquilo que cada um é hoje, mal sabe ele próprio. No entanto, é alguma coisa hoje. O que será amanhã, nem ele o sabe.  
Como reação à mentalidade farisaica de quem confia nos próprios méritos, de sua vida pretensamente sem pecado, surge a mentalidade em desterrar o velho conceito de oposição ao mal. Por exemplo: falsa autenticidade ou sinceridade para mascarar ou “pintar a fachada” da grosseria, de laxismo ou da discordância da razão ou da fé; falsa confissão de impotência, como pretexto para a inibição, o abandono, a passividade; falsa primazia do amor, para desdenhar da letra da lei, dizendo possuir o espírito da lei; só se dedicar a exercitar o amor, desde que amor teórico, que não compromete e em nada se demonstra. Ora, há que conciliar a aceitação de nossa condição de pecadores com uma paciente luta contra o pecado e as misérias pessoais.  
Por fim, a falsa humildade. Alguém se pensa bom só porque se declara mau publicamente, e de preferência no plural. Como se o filho pródigo dissesse: “Pai, pecamos contra o céu e contra ti”. De fato, mesmo tradicionais frases da liturgia podem ser mal compreendidas: “Senhor, tende compaixão de nós, que somos pecadores”: é um risco sério para o cristão habituado a usar o plural nas suas confissões públicas.  
Numa fase seguinte, de aprofundamento no orgulho, crê que sua missão consiste em denunciar os pecados da Igreja: “somos pecadores, somos intolerantes e excludentes”. Não deixa de ser curioso pensar: bastaria condenar energicamente o farisaísmo judeu e suas formas atualizadas para crer que não somos como eles, ao menos não nós. Infelizmente, somos bem parecidos com aquele que dizia: “Teimoso? É quem discute comigo”. 

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