quinta-feira, novembro 16, 2017

A adoração

Por Romano Guardini, “Introdução à vida de oração”, p. 62-68.

 
A ADORAÇÃO 

O homem inclina-se perante essa grandeza. Mas não o faz apenas de uma forma material, não cede perante o maior apenas porque é menor; mas inclina-se a partir da sua intimidade, na oração, com piedade e devoção. E não o faz apenas até um determinado ponto, ou de modo profundo e com prontidão; mas de forma total e definitiva, como criatura diante do seu Criador, isto é, adorando-o. Adorar é viver internamente o fato de Deus ser simplesmente “grande” e o homem ser simplesmente “pequeno”; do fato de Deus existir “por si e em si” e o homem existir “Por Deus e em Deus”. Aquele que adora diz: “Tu és Deus e eu sou homem; és o ser verdadeiro, existes por Ti mesmo de modo essencial e eterno; eu existo por Ti e diante de Ti. Tu tens todo o poder que dimana do ser, a plenitude do valor, a sublimidade do sentido; és Senhor de Ti mesmo, bastas a Ti mesmo. O sentido da minha existência, ao contrário, procede de Ti, vivo da Tua luz, e em Ti se encontram as medidas da minha existência”. 

Há aqui algo importante, a que já nos referimos, mas que deve ser particularmente acentuado. Aquele que ora se curva perante Deus não apenas porque Ele é maior que o homem e absolutamente grande e poderoso. Tal posição faria apenas com que o homem não se rebelasse contra Deus, e o tornaria submisso a Ele. O homem curva-se porque essa atitude é em si verdadeira e autêntica. Se a adoração consistisse simplesmente em dizer: “Curvo-me diante de Ti porque Tu és mais forte do que eu”, isso seria um ato de fraqueza, e, em última análise, uma atitude indigna. Mas adorar é dizer: “Inclino-me diante de Ti porque és digno disso. Descobri que Tu és não somente real, mas também verdadeiro; que não és apenas poder, mas o bem; não somente força, mas o valor infinito e o sentido de todas as coisas”. 
Na existência humana, geralmente estão separados o poder e o direito, a força o valor, a realidade e a verdade, a existência e a dignidade. Isso explica a inconsistência e a insegurança dessa existência. Essa desarmonia estimula-nos a superá-la, mas inspira muitas vezes um sentimento de profunda frustração. Em Deus, nada disso ocorre. Onde quer que o homem o encontre, encontra a justiça no seu poder e a dignidade na sua grandeza. Na mesma medida em que Deus é o Ser por excelência, é também Espírito, Vida e Ação. Tudo isso se expressa na adoração. 
O homem não poderia adorar um Deus que fosse apenas plenitude e onipotência. Seria incapaz de resistir a esse Deus, sucumbiria irremediavelmente diante Dele; mas, pela dignidade da sua própria pessoa, recusaria adorá-lo. Na adoração, não é apenas o corpo que se curva, é toda a pessoa com a sua liberdade, e essa atitude só é possível quando preservada a dignidade. O que torna a adoração possível é esta unidade entre o ser e o valor que existe em Deus. Recordemos a grande imagem do Apocalipse, na qual os vinte e quatro anciães, últimos representantes do gênero humano, depõem as suas coroas diante Daquele que está sentado no Trono, e exclamam prostrando-se: “Tu és digno, Senhor nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder” (Ap 4,11)1. 

A adoração é da mais alta importância não só para a vida religiosa do homem, como também para a sua vida espiritual. É tão necessária como o espaço para o corpo, como a luz para a percepção, como as leis do pensamento para a vida do espírito. Uma existência verdadeiramente humana baseia-se na verdade, mas o fundamento de toda a verdade reside no fato de Deus ser Deus, e somente Ele, e de o homem ser apenas homem, criatura de Deus. Quando o homem reconhece essa verdade e a leva a sério, está bem. Ora, a adoração é o ato pelo qual essa verdade resplandece e é reconhecida e vivida. 
É preciso, portanto, praticar a adoração. Com muita frequência confundimos “orar” com “pedir”. Evidentemente, devemos pedir, mas sem nos esquecer do que o Senhor disse no Sermão da Montanha: “O vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais” (Mt 6,8). Com facilidade nos esquecemos de que a adoração é tão ou mais importante do que pedir. Por isso, devemos cultivá-la, recolhermo-nos, e, no recolhimento, tornar presente a grandeza de Deus e inclinar-nos com respeito, na liberdade do nosso coração. Dessa forma, nascerá dentro de nós a verdade, a verdade da vida. A partir disso, as relações da existência ordenam-se e retificam-se as dimensões. Essa verdade nos fará bem e restabelecerá a ordem em tudo o que em nossa vida estava desordenado por causa dos erros e ilusões. Assim, ficaremos curados espiritualmente e seremos capazes de recomeçar. 


O LOUVOR 

Nós expressamos a grandeza de Deus, antes de tudo, ao chamá-lo de Criador e Senhor. Ele é o incriadoAquele que tudo criou; o Ser sem princípio que existe por si mesmo; o infinito, imortal e eterno. Tudo lhe pertence, não pela força, mas por direito próprio. E esse direito de tudo possuir e dirigir tem a sua origem no fato de se possuir a si mesmo. É o Senhor das coisas porque é o Senhor da sua divindade. Diante Dele, o homem inclina-se em adoração de uma maneira absoluta e incondicional, e, ao mesmo tempo, livre e dignamente. 
A grandeza de Deus dá lugar a outra forma de oração quando nela resplandece a beleza. Na Sagrada Escritura, a grandeza de Deus não tem apenas o caráter de majestade, mas também de glória. Isso significa que a realidade de Deus resplandece, e, assim, a seriedade da oração transforma-se na alegria do louvor. Encontramos constantemente na Sagrada Escritura palavras que proclamam a magnificência divina, e cânticos e hinos que a celebram. Através delas, o homem enuncia os altíssimos atributos de Deus: a santidade, a grandeza do seu poder, a sabedoria, a eternidade, a liberdade, a justiça, a bondade, a longanimidade. O homem mergulha neles, desdobra-os, e, por assim dizer, apresenta-os a Deus e louva-o por eles. 
Poder-se-ia dizer que é reprovável apresentar a Deus os seus próprios atributos, pois isso talvez demonstre a submissão dos fracos ou a adulação de um desprotegido, comportamento que se opõe à dignidade humana, e mais ainda à dignidade divina. Tudo isso acontece, mas não deveria. Porventura não é possível louvar uma pessoa sem perder a dignidade? Pode haver situações nas quais aclamemos alguém que é digno de confiança. Em determinadas circunstâncias, é uma verdadeira prova de amizade demonstrar a outra pessoa o quanto a consideramos e o quanto nela confiamos. Há uma forma de louvor que é uma das mais belas formas de amizade entre duas pessoas: quando o homem se sente feliz na presença de alguém e lhe manifesta o que nele acha belo e agradável. É claro que Deus não precisa que nós o convençamos dos seus atributos, mas é digno e justo, e uma das formas mais puras e mais autênticas da oração, que o homem se alegre em Deus e celebre o esplendor do seu ser, da sua santidade e da sua beleza. 
Por este motivo, a oração de louvor aparece constantemente na Sagrada Escritura. Muitos salmos foram inspirados na vivência profunda do esplendor de Deus e respiram uma profunda emoção ao louvar, uma após outra, as suas qualidades eternas e as suas obras. É o que acontece, por exemplo, nos salmos 32[33], 46[47], 95[96], 99[100], entre outros. Também nos profetas aparece frequentemente o louvor a Deus. Basta recordar a glorificação que os querubins dirigem a Deus na visão do profeta Isaías (Is 6,3). No Evangelho, temos os cânticos de louvor de Maria e do velho Zacarias (Lc 11,46-55;1,68-79). Também a liturgia – basta recordar o grande cântico de louvor, o Te Deum, e os seus inumeráveis hinos e sequências –, está inteiramente penetrada desse espírito. 

Às vezes, parece que o louvor a Deus se estende por todo o universo, alcança toda a criação e leva-a consigo. Pensemos, por exemplo, nos salmos sobre a criação (18, 103, 148); ou no eco que estes cânticos encontram no coração de homens entusiasmados por Deus, como é o Cântico ao Sol de São Francisco. 
As criaturas são exortadas a louvar a Deus: “Louvai o Senhor, sol e lua; louvai-o, estrelas brilhantes. (...) Louvai-o, fogo, granizo, neve, nevoeiro, ventos das tempestades; vós que escutais as suas ordens, montanhas e colinas, árvores frutíferas, árvores silvestres, animais domésticos e feras; vós que rastejais ou que voais” (Sl 148). Nada disso é fantasia. Não se trata de dar voz ao sol, às árvores e ao mar para louvar a Deus. Todas as criaturas são um espelho da glória de Deus, pois Ele as criou e pôs nelas um reflexo da sua essência. Por isso, elas refletem o seu esplendor e louvam-no apenas com a sua presença, ainda que não o saibam. O homem, no entanto, está ciente e pode apropriar-se deste louvor. Pode recebê-lo no seu coração, levá-lo a Deus e tornar-se assim um caloroso porta-voz da criação. 

Quando falamos de adoração, dissemos que o homem se curva diante de Deus não porque Ele é infinitamente poderoso, mas sim porque Ele é verdadeiro, bom e digno de adoração. Deus justifica a sua divindade, por assim dizer, apenas pelo seu modo de ser. Tudo o que Ele é por essência manifesta-se em seus atos. Vive aquilo que é; realiza tudo o que possui. Nisso se fundamenta o louvor. A frase “Senhor, tu és onipotente”, significa: “Tu és digno de ser onipotente. Vives a tua onipotência, renova-a e a torna constantemente real com a tua própria vida, com a tua força, com a tua ação. A tua onipotência é a mais pura realização da justiça e da verdade”. Por isso, é justo louvar a Deus. O espírito do homem alegra-se por existir alguém assim, e a sua alegria exprime-se em louvor. 
Em Deus, existe algo que é a fonte da qual se derivam todas as suas propriedades: a sua profundíssima intimidade, o mistério do seu coração. A unidade original do ser e do direito, da realidade e do sentido, da força e do mérito, da magnificência e do amor, do poder e da santidade, faz com que Deus seja Deus. É nessa unidade que a alegria se exalta e se transforma em louvor. A alegria é tão pura que se transforma em reconhecimento e agradece a Deus pelo fato Dele existir. Por isso, diz-se em um hino da Missa: “Agradecemos-te, oh Deus, a tua grande magnificência”. E a introdução da oração solene do prefácio começa assim: “É verdadeiramente digno e justo, racional e salutar, que nós sempre e em toda parte vos rendamos graças. Senhor santo, Pai onipotente, Deus eterno...”.  
A oração de louvor será tanto mais pura quanto mais profunda for a experiência da magnificência de Deus e mais verdadeira for a alegria que dela nasce. O louvor também torna o homem puro e grande. Esta grandeza não consiste apenas em ser o que o homem é, mas na sua capacidade de reverenciar e honrar o que é superior a ele. É um ato de pura justiça venerar Aquele que é a grandeza excelsa e a magnificência absoluta, mas, ao mesmo tempo, é um ato pelo qual se aperfeiçoa aquele que presta tal homenagem. O homem não vive de si mesmo, mas do que é superior a ele. Ai do homem que nada tenha acima de si! Louvar a Deus é elevar-se até ao lugar onde está a razão de sua existência. 
Por isso, devemos louvar a Deus. É um ato que dilata e embeleza o espírito. Os dias serão diferentes se toda manhã, com as forças renovadas pelo descanso, for recitado o Te Deum ou o salmo 148. Haverá oração matinal mais bela? Sem dúvida, devemos pedir ajuda a Deus e apresentar-lhe as preocupações da nossa atribulada existência; mas talvez nos sentiríamos mais fortalecidos interiormente se desviássemos a nossa atenção de nós mesmos e olhássemos para Ele. As nossas necessidades não seriam esquecidas, pois “o Pai do céu sabe o que nos é necessário, antes que nós o peçamos” (Mt 6,8). 

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