quinta-feira, outubro 12, 2017

Maria Imaculada, a Mãe de Deus

Por Cardeal Newman, “Rosa Mística - Meditações sobre a Ladainha de Nossa Senhora”, p. 97-105.

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Maria é a “Sancta Dei Genitrix”, a Santa Mãe de Deus
Logo que entendemos pela fé a grande e fundamental verdade de que Maria é a Mãe de Deus, outras verdades maravilhosas seguem neste caminho. E uma delas é que ela estava isenta não apenas da morte, ao que é comum aos mortais, mas de retornar da terra à terra, das cinzas às cinzas, do pó ao pó. Ela devia morrer, e morreu, como seu Divino Filho, porque Ele era Homem. Entretanto, vá­rias razões confirmaram aos santos escritores, porque seu corpo, embora estivesse por certo tempo separado de sua alma e sido enviado ao túmulo, contudo, não permaneceu ali, mas foi rapidamente unido à sua alma novamente, e elevado por Nosso Senhor a uma vida nova e eterna de glória celestial.[1]
A mais óbvia razão para concluirmos isso é que outros servos de Deus foram elevados da sepultura pelo poder de Deus, e não é de se supor que Nosso Senhor tenha conce­dido tal privilégio a qualquer um sem também concedê-lo à sua própria Mãe.
Nos é relatado por São Mateus que após a morte de Nosso Senhor na Cruz os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas.[2] São Mateus diz, os corpos de muitos justos, isto é, os santos Profetas, Sacerdotes e Reis de antigas épocas levan­taram-se em antecipação ao dia final.
Podemos supor que Abraão ou Davi ou Isaías ou Eze­quias, seriam favorecidos deste modo e não a própria Mãe de Deus? Ela não teve crédito no amor de seu Filho para ter o que outros tiveram? Não era ela mais próxima a Ele do que os maiores Santos que vieram antes? É concebível que a lei do sepulcro admitiria um abrandamento no caso deles e não no dela? Portanto, expressamos com segurança que Nosso Senhor, tendo preservado Maria do pecado e das consequências do pecado por causa de sua Paixão, não perdeu tempo em derramar plenamente os méritos dessa Paixão em seu corpo, bem como em sua alma. 
Maria é a “Mater Intemerata” a Mãe Imaculada
Outra reflexão que tem levado mentes devotas a acreditar na Assunção de Nossa Senhora aos Céus após sua morte, sem ter que esperar pela ressurreição geral nos últimos dias, é fornecido pela doutrina de sua Imaculada Conceição.

Por Imaculada Conceição entendemos que, não apenas ela nunca cometeu nenhum pecado, nem mesmo venial, em pensamento, palavra ou ação, mas, mais que isso, que a culpa de Adão, ou o chamado “pecado original”, vinculado a todos os seus descendentes, nunca foi seu pecado.
Por sua Assunção entendemos que não apenas sua alma, mas também seu corpo, foram levados aos Céus após sua morte. Portanto, não houve um longo período de descan­so em seu túmulo, como ocorre com outros, inclusive os grandes Santos, os quais esperam pelos últimos dias para a ressurreição de seus corpos.
Uma das razões para acreditarmos na Assunção de Nos­sa Senhora é que seu Divino Filho a amava muito para dei­xar seu corpo depositado na sepultura. Uma segunda razão, que temos diante de nós, é que ela não era apenas amada por Nosso Senhor, mas também que ela era sublimemente santa e cheia e transbordante de graça. Adão e Eva foram criados justos e sem pecado, e tinham uma grande medida da graça de Deus derramada sobre eles. Em consequência, se eles não houvessem pecado, seus corpos nunca teriam se desmanchado em pó, como foi dito a eles: porque és pó, pó te hás de tornar. Se Eva, a bela filha de Deus, não houvesse pecado, não se tornaria pó e cinzas. Não poderemos dizer que Maria, nunca tendo pecado, reteve o dom, o qual Eva, ao pecar, perdeu?
O que fez Maria para ter o privilégio, dado a nossos pri­meiros pais, confiscado? Seu encanto foi transformado em corrupção e seu fino ouro se tornado sombrio sem motivo específico? Impossível. Portanto, acreditamos que, embora ela tenha morrido por um breve período, como deu-se com Nosso Senhor, também como Ele, e por Sua onipotência, ela foi erguida do sepulcro.
 Maria é a “Rosa Mystica”, a Rosa Mística
Maria é a mais bela flor que jamais foi vista no mundo espiritual. É pelo poder da graça de Deus que desta terra estéril e desolada surgiram todas as flores de santidade e glória. E Maria é a Rainha delas. Ela é a Rainha das flores espirituais e, portanto, é chamada Rosa, pois a rosa é, apro­priadamente denominada, a mais bela de todas as flores.
Mas além disso, ela é a Rosa Mística, ou oculta, pois místico denota o misterioso e oculto. Como ela está agora “oculta” de nós mais do que os outros santos? O que significa esta singular apelação, que aplicamos especialmente a ela? A resposta a isso nos introduz a uma terceira razão para crer na reunião de seu corpo sagrado à sua alma e sua assunção ao céu, logo após a sua morte, em vez de sua permanência no túmulo até a ressureição geral do último dia.
É assim: se seu corpo não foi levado aos céus, onde está ele? Como é isso de estar escondido de nós? Por que não ouvimos sobre seu túmulo estar aqui ou acolá? Por que não há peregrinações a ele? Por que não há relíquias dela, como em geral há de outros santos? Não é um nosso instinto natural reverenciar os locais onde nossos mortos são enter­rados? Nós sepultamos nossos grandes homens de forma honrosa. São Pedro fala como sendo conhecido em seu tempo o sepulcro de Davi, embora este tenha morrido cen­tenas de anos antes. Quando o corpo de Nosso Senhor foi baixado da Cruz, ele foi colocado em um túmulo honrado. Essa também foi a honra prestada a São João Batista, e São Marcos falava que seu túmulo era comumente conhecido.
Os cristãos dos primeiros tempos vinham de outros países a Jerusalém para ver os lugares sagrados. Quando terminou o tempo da perseguição, foi dada ainda mais atenção aos corpos dos Santos, como o de Santo Estevão, São Marcos, São Barnabé, São Pedro, São Paulo e outros Apóstolos e mártires. Estes foram transportados a grandes cidades, e partes deles foram enviados para este ou aquele local. Assim, desde o início até hoje, tem sido um princípio e característica da Igreja ser cuidadosa e reverente para com os corpos dos Santos.
Se existisse alguém, mais que qualquer um, que deveria ser preciosamente cuidado, seria Nossa Senhora. Por que, então, não ouvimos nada sobre o corpo da Virgem San­tíssima e de suas relíquias? Por que ela é a Rosa oculta? É concebível, então, que aqueles que foram tão reverentes e cuidadosos com os corpos dos Santos e Mártires devessem negligenciá-la, ela que é a Rainha dos Mártires e dos Santos e que é a Mãe de Nosso Senhor? Isso é impossível. Por que
ela é, assim, a Rosa oculta? Claramente, porque aquele corpo sagrado está no Céu, não na terra.



[1] A constituição apostólica Munificentissimis Deus, de 1 de novembro de 1950, no qual o Papa Pio XII definiu o dogma da Assunção da Virgem Maria aos Céus em Corpo e Alma, não define se Maria morreu ou não, deixando a questão em aberto. No parágrafo 44, parte da definição do dogma, está: “a imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”. Na Audiência Geral de 25 de junho de 1997, o Papa João Paulo II, ao discutir o tema da morte de Maria, afirma: “uma vez que Cristo morreu, seria difícil sustentar o contrário para sua mãe” e sustenta essa ideia apoiando-se em escritos dos Padres da Igreja.
[2] Mt 27,52-53.

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