quinta-feira, outubro 05, 2017

Francisco: uma conversão

Por Johannes Joergensen, “São Francisco de Assis”, p. 43-57.

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Um escritor do século XV, Santo Antonino de Florença (1389-1459), na sua Crônica eclesiástica, resumiu em duas linhas a atividade de São Francisco durante os primeiros anos que se seguiram ao seu adeus aos amigos e à vida de prazer: “Ora se escondia nos eremitérios, ora se ocupava piedosamente na reconstrução das igrejas”. A oração solitária e o trabalho pessoal para o reino de Deus: foi, com efeito, com estes dois meios, que Francisco, tendo renunciado à vida mundana, procurou inteirar-se com clareza das intenções de Deus a seu respeito. A pouca distância da cidade, havia uma gruta onde costumava retirar-se para rezar.
Às vezes ia sozinho até essa gruta, mas era mais frequente ir com um amigo, o único companheiro que parece ter-lhe ficado fiel depois do que se pode chamar a primeira fase da sua conversão. (...)
Francisco era expansivo por natureza: os seus biógrafos dizem até, que às vezes falava sem querer das coisas que tinha no coração. Por isso, não é de admirar que, dessa vez, se tenha aberto com o amigo e que, na linguagem figurada do Evangelho, lhe tenha enaltecido o precioso tesouro que tinha encontrado nessa gruta, à saída de Assis, e que, agora, só lhe restava desenterrá-lo. Mas acrescentava que devia ir sozinho para poder levantar o tesouro. Era assim que costumava despedir do amigo antes de ele próprio entrar na gruta.

Foi aí, nessa cova solitária e sombria do rochedo, que Francisco armou um oratório secreto onde podia, livremente, e sempre que quisesse, chamar e interrogar o Pai Celeste. De dia para dia aumentava nele o desejo de fazer a vontade de Deus, e cedo compreendeu, sem a mínima dúvida, que não teria um instante de paz enquanto não tivesse conseguido saber com precisão o que Deus exigia dele. A toda a hora lhe vinham aos lábios aquelas palavras do Salmista, que exprimem a essência de toda a verdadeira adoração: “Senhor, mostrai-nos os vossos caminhos e ensinai-nos a perfeição dos vossos atalhos?”.
Comparando-a com este ideal de pureza, a vida que tinha levado até então, parecia-lhe ainda mais negra e mais detestável. Com uma amargura que de hora para hora se tornava mais profunda, lamentava a sua juventude mal-empregada: a recordação dos divertimentos e das loucuras da mocidade enchia-o de mágoa e de terror. Mas como podia ter a certeza de que não ia recomeçar? Não tinha ele sido avisado tantas vezes e não tinha desprezado sempre esses avisos para se deixar arrastar pelas suas piores tendências? Quando os amigos viessem chamá-lo, quando as suas narinas sentissem novamente o perfume dos banquetes e ressoasse aos seus ouvidos o apelo feiticeiro da viola e do alaúde, teria ele forças para resistir a tudo isso e não iria precipitar-se, como antigamente, nesse mundo alegre de festas e do sonho, que via flutuar, como uma nuvem, acima da monótona e descolorida realidade cotidiana?
Francisco não tinha nenhuma confiança em si mesmo, e Deus parecia não querer enviar-lhe o auxílio que lhe implorava. Com a alma devastada de angústia, lutava na solidão e nas trevas do seu retiro para conquistar a salvação; e quando, por fim, esgotado e torturado, voltava a aparecer à luz do dia, o amigo tinha dificuldade em o reconhecer, de tal maneira o seu rosto estava acabrunhado.
Foi assim que se tornou um homem de oração. Desde essa altura, tinha começado a saborear a suavidade do diálogo íntimo da alma com Deus; muitas vezes quando passeavam numa rua ou numa praça, os amigos viam-no abandoná-los de repente para se ir ajoelhar numa igreja.

(...)
Os leprosos da Itália
Os leprosos eram, mais do que todos os outros pobres na Idade Média, objeto de piedosa solicitude. Uma ordem de cavalaria especial, a ordem de São Lázaro, tinha sido fundada de propósito para cuidar deles. E em toda a Europa se tinham construído numerosas leprosarias, – havia 19.000 no princípio do século XIII –, onde os leprosos eram recebidos e alimentados numa espécie de comunidade conventual. Mas, apesar de tudo isto, a vida do leproso era triste: viviam à margem da sociedade, e leis severas, em todos os países, impediam-nos de ter qualquer contato com as outras pessoas.
Como em toda a parte, na Itália, tinha sido criado uma gafaria – Hospital de Leprosos – nos arredores de Assis: com efeito, os leprosos foram os primeiros doentes “hospitalizados” dos tempos modernos. Este hospital estava situado a meio caminho entre Assis e a Porciúncula, pouco mais ou menos no local onde hoje existe um grande edifício que tem a seguinte inscrição: Casa Gualdi. Chamava-se hospital de São Salvador dos Muros, e pertencia a uma ordem fundada no tempo de Alexandre III para cuidar dos leprosos – a ordem dos Crúzios.
Nos seus passeios, Francisco tinha passado muitas vezes diante desta casa e sentia repugnância só de olhar para ela. Concordava de boa mente com a ideia de dar uma esmola aos leprosos, mas só com a condição de outra pessoa se encarregar de levá-la. E quando o vento soprava do lado do hospital e o jovem sentia chegar até ele o cheiro enjoativo característico dos leprosos, fugia logo virando a cara e apertando o nariz com os dedos.
Era neste ponto, portanto, que mostrava maior fraqueza, e era também neste ponto que ele havia de conseguir a sua maior vitória. Porque um dia, quando invocava Deus, como era seu costume, eis que a resposta lhe foi enfim confiada! E esta resposta era: “Francisco! Todas as coisas que os teus sentidos amaram e desejaram, é preciso que as desprezes e detestes, se quiseres reconhecer a minha vontade! E logo que tenhas entrado nesta via, tudo o que dantes te parecia doce e amável tomar-se-á amargo e impossível de suportar, e tudo o que até então detestavas se transformará para ti em grande doçura e alegria desbordante”.
Com estas palavras, Francisco recebia, finalmente, um programa definido e a indicação do caminho a seguir. E era sem dúvida nelas que meditava, numa das suas cavalgadas solitárias pelo vale da Úmbria, quando o cavalo fez um movimento de recuo e ele viu na sua frente, à distância de dez ou vinte passos, um leproso, fácil de reconhecer pela maneira como vinha vestido.
Francisco assustou-se, como tinha acontecido antes ao cavalo, e o seu primeiro impulso foi voltar rédeas para fugir o mais depressa possível. Mas, nesse momento apresentaram-se de repente diante dele, com toda a nitidez, as palavras que tinha ouvido no mais fundo do seu ser: “O que, até então te era odioso, é o que doravante se deve transformar, para ti, em alegria e doçura!”. Ora, que havia neste mundo que lhe causasse mais repulsa que um leproso? Eis, portanto, chegado o momento em que tinha de cumprir a palavra do Senhor, e mostrar, enfim, a sua boa vontade.
Com um poderoso esforço de autodomínio, Francisco desceu do cavalo, aproximou-se do leproso, de cuja boca e nariz, roídos, saía um cheiro horrível, e meteu a esmola na mão que o mendigo lhe estendia; depois, inclinou-se rapidamente e, horrorizado, beijou-lhe os dedos apodrecidos e cobertos de úlceras e de chagas.
Quando, uns momentos depois, se achou outra vez a cavalo, não sabia como tinha montado. Toda a sua alma tremia de emoção. O coração batia loucamente. Não reparava no caminho que seguia. Mas o Senhor tinha cumprido a sua palavra. A doçura, a felicidade e a alegria derramavam-se dentro dele em grandes vagas, sucessivas, se bem que todo o seu ser já estivesse cheio a transbordar, como a fonte enche e torna a encher a bilha com uma água sempre mais fresca e mais pura.
No dia seguinte foi por sua própria vontade que tomou outra vez a estrada que ainda na véspera evitava cuidadosamente – a estrada que levava a São Salvador dos Muros.
Uma vez junto do hospital, bateu à porta e entrou logo que a abriram. De todas as celas saíram os doentes ao seu encontro, com as caras meio roídas, os olhos cegos e ensanguentados, os pés inchados e torcidos, as mãos sem dedos. E toda esta repelente multidão se reuniu à volta do filho do mercador.
O cheiro que saía das suas gargantas doentes era tão horroroso que Francisco, apesar da sua força de vontade, não pôde impedir-se, a princípio, de tapar o nariz para vencer o mal-estar que o invadia. Mas conseguiu dominar-se, tirou da algibeira a bolsa cheia de dinheiro e pôs-se a distribuir esmolas. E em cada uma daquelas horríveis mãos que se estendiam para ele, tal como fizera na véspera, apôs caridosamente os seus lábios.

Assim alcançou Francisco a maior vitória que o homem pode alcançar: a vitória sobre si mesmo. Doravante, era senhor de si, e não já escravo de si próprio.

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