quinta-feira, outubro 19, 2017

Casamento e santidade

Por Eugene Boylan, “Amor sublime”, p. 371-391.

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Nenhum novelista romântico, nenhum poeta idealista e nenhum sonhador teimoso foi capaz de estabelecer um ideal romântico para as pessoas casadas como o fez Nosso Senhor pela pena de São Paulo: “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, porque o marido é cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da Igreja, seu corpo, da qual Ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim sejam também as mulheres em tudo a seus maridos. Maridos, amai a vossas mulhe­res, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santi­ficá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, nem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu pró­prio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Certa­mente, ninguém jamais aborreceu a sua própria carne, mas nutre-a e cuida dela, como Cristo faz à Sua Igreja, porque somos mem­bros de Seu corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne. Este mistério é grande, quero dizer, em relação a Cristo e à Igreja” (Ef 5,22-32).
Em outras palavras, o amor e a fidelidade mútua de Cristo e da Sua Igreja não são só modelos propostos por Deus para o amor e a fidelidade mútua entre marido e mulher, mas a sua união é também um “sacramento” dessa união de Cristo e da Sua Igreja.
Escrevendo sobre este mesmo assunto, Pio XI lembra aos esposos que o amor de Cristo à Sua Igreja deve ser o seu modelo. E continua: “Esta é a regra que estabeleceu São Paulo, quando disse: Esposos, amai vossas esposas como Cristo Amou a Igreja. Ora, Jesus uniu-se à Igreja com imensa caridade, não com os olhos na própria comodidade e conveniência, mas só no bem de sua Esposa”.

E o Santo Padre continua: “Portanto, aqui falamos da virtude da caridade que não se funda em mera inclinação carnal, passageira e fugaz, nem somente em suaves e doces palavras, mas, sim, no íntimo afeto da alma, e sobretudo em obras exte­riores, pois, como se costuma dizer, só com obras é que se prova o amor. Mas esta obra não se limita ao mútuo auxílio dos cônju­ges; é necessário que se estenda também e se ordene sobretudo ao recíproco auxílio, em ordem à formação e à maior perfeição do homem interior, de modo que, pela mútua convivência, ao mesmo tempo adiantem cada dia mais e mais no caminho da virtude e cresçam sobretudo na verdadeira caridade para com Deus e para com o próximo, da qual em último termo “depen­dem toda a lei e os profetas”. Com efeito, todos os esposos, seja qual for a sua condição e o modo honesto de vida que tiverem, podem e devem imitar aquele exemplar perfeitíssimo de toda a santidade que Deus propôs aos homens, que é Cristo Senhor Nosso; e com o auxílio de Deus podem chegar até ao mais alto grau da perfeição cristã, como se pode comprovar com o exem­plo de muitos Santos”[1].
Desejamos chamar a atenção do leitor para o último trecho das palavras acima citadas, pois refuta um erro muito comum, que pretende insinuar que o casamento não é um estado em que se possa buscar e alcançar a santidade. Essas palavras pro­vam que as pessoas casadas não só podem atingir a suma perfei­ção, mas têm até obrigação de fazê-lo. O casamento está longe de ser um obstáculo para a santidade, ao contrário, é um meio para esse fim.
(...)
O que realmente acontece no verdadeiro matrimônio cris­tão é que o homem e a mulher, abandonando a sua vida indi­vidual, entregam-se completamente um ao outro, como Cristo se entregou a Sua Igreja (e considerai como Ele se entrega na Santa Comunhão), e formam juntos uma nova unidade, vivendo uma nova vida. Não são só dois na mesma carne, são dois em uma única vida.
O modelo estabelecido por São Paulo para o amor matrimo­nial é muito elevado. O homem deve amar a sua mulher “como Cristo amou a Sua Igreja e por ela Se entregou”. E Cristo entre­gou-se à morte, e morte de Cruz, pela igreja, Sua esposa. E São Paulo relaciona a função do chefe de família dada ao homem com a sua disposição para se entregar à sua mulher, quando escreve: “Ele é o Salvador do Seu Corpo”.
Isto, podereis vós dizer, é um ideal que está fora do alcance humano. Talvez; mas o matrimônio não é uma união puramente humana. É uma união sobrenatural, um sacramento que dá graça — essa participação da força de Cristo — para habilitar os dois participantes a atingirem esse ideal. Em última análise, são pre­cisos três para se fazer um casamento feliz: um homem, uma mulher e Deus. E pode-se dizer, em certo sentido, que estes três constituem um só, pois são certamente um em Cristo.
O matrimônio, sendo um sacramento, não só confere um aumento de graça sobrenatural, que é o efeito de todos os sacra­mentos, mas também uma graça especial e auxílio para todas as dificuldades e decisões que são próprias da vida de casados. Essa é a razão pela qual colocamos diante do homem e da mulher um ideal tão elevado. É, na verdade, um ideal sobre-humano, mas a força posta à sua disposição é também sobre-humana. Devem, portanto, confiar nessa força que vem de Deus e não em si pró­prios. E devem desenvolver essa vida sobre-humana — a vida espiritual — por meio de exercícios adequados. Talvez pareça fora de moda sugerir que tais exercícios sejam feitos juntos, mas há muitas coisas fora de moda que possuem um valor que os modernos não compreendem, e esta é uma delas. Se apontamos aqui algumas das dificuldades humanas que surgem na vida dos casados, é para indicar a necessidade do uso contínuo e da con­fiança nos meios sobrenaturais que o sacramento do matrimô­nio coloca à nossa disposição. E se, devido à escassez de espaço, nos limitamos a falar das relações entre o homem e a mulher ao invés das relações entre pais e filhos, é porque as primeiras são geralmente as mais esquecidas.
O marido e a mulher são ambos membros de Cristo; para receberem a graça do sacramento devem ser membros que vivem em estado de graça. De outra forma, não é possível que exista entre eles amor sobrenatural. Assim como duas células do corpo humano se unem para formar uma só, que é o princípio de uma nova vida humana, assim também o marido e a mulher tornam-se um em Cristo e um com Cristo, com o fim de tornar proveitosa a vida de Cristo — para dar a Cristo um novo membro.
O matrimônio cristão tem certas características especiais. É um contrato, e esse contrato é um sacramento do qual o homem e a mulher são ministros. Mas, ao contrário do que ocorre com muitos outros contratos, os seus termos e os seus fins não são determinados pelas partes contratantes; já estão fixados pela lei da natureza e pela lei de Deus.
(...)
O amor pede uma expressão e é alimentado por ela, e isso também é verdadeiro quando se trata do amor espiritual. O amor do homem pela sua mulher é um amor único e exige uma expres­são única; e Deus determinou uma única expressão para ele e ligou-lhe prazer intenso. Mas Deus foi mais além, pois providen­ciou para que, pelo próprio ato de expressarem o seu amor um ao outro, o marido e a mulher se tornassem seus coparticipan­tes na obra da criação. Eles produzem o corpo e Deus infunde a alma. E isso é apenas o início da sua obra de coparticipação, pois o homem e a mulher têm o privilégio e o dever de educarem essa nova criatura até à maturidade da vida de Cristo, momento em que se tornam cristãos independentes, e, formados pelo seu cuidado e amor e moldados pelo seu exemplo e ensinamentos, têm de trabalhar para a sua união completa com Deus no Céu.
O casamento implica, portanto, uma entrega completa de um dos membros ao outro e um amor que simboliza o amor de Cristo à Sua Igreja. Os próprios obstáculos causados pela natu­reza humana para o cumprimento deste ideal podem tornar o casamento uma fonte de vida espiritual intensa, pois em breve se verificará que nenhuma das partes é um anjo; são ambas huma­nas. O amor e o sacrifício que se exigem dos dois são tão gran­des e tão custosos, que muitas vezes surgirá a pergunta: “Há algum ser humano que valha tudo isto? Pode algum ser humano dar tudo isto?” A resposta encontra-se no fato de que não é um mero ser humano aquele que dá, nem é um mero ser humano quem recebe. Cada qual ama e sacrifica-se em coparticipação com Cristo; cada qual é amado e servido em união com Cristo. Além do seu marido e do coração dele, a esposa vê, ama e serve a Cristo. Além da sua mulher e do coração dela, o marido vê, ama e serve a Cristo. A força para perseverar e dar com amor tudo aquilo que uma casa precisa vem de Cristo, e é usada por Cristo. Cristo é o Amante e o Amado, porque, mesmo no casa­mento, “haverá um Cristo amando-Se a Si próprio”.
De fato, quando a dificuldade da situação nos reconduz a Cristo, é na união com Ele que procuramos força. Só o cristão perfeito pode ser um amante perfeito. A desilusão, que é inevitá­vel em todas as relações humanas — a incapacidade que a outra pessoa mostra em corresponder ao amor dedicado —, levam-nos a procurar o Amante Perfeito, o Amante Sublime, que é Cristo.
Quando nos apaixonamos por alguma pessoa, verificamos que toda a nossa felicidade está ligada a “alguém”, e é muitas vezes em consequência da desilusão que sofremos por parte desse “alguém” que aprendemos a conhecer o verdadeiro “Alguém”, que é Cristo. Quando é inevitável que os cônjuges se separem — e isso tem de ocorrer pelo menos durante uma parte do dia — e se verifica que as coisas perderam o seu significado porque já não há ninguém com quem compartilhá-las, ou se tem de pro­curar distração no trabalho ou no prazer, ou se tem de progre­dir na união com Cristo, que se encontra latente em todas as almas cristãs, e pela qual se pode compartilhar tudo e sempre com Aquele que fez todas as coisas.
Mesmo em uma associação perfeita, a limitação humana se manifestará. Mesmo nesse caso, é necessário esforçar-se para construir novos laços e associações, para forjar novos vínculos que desafiem a corrosão dos hábitos e do tempo. Nunca se pode considerar o amor como uma dádiva; o amor vive e desenvolve­-se, ou então morre. Mas, até na melhor das hipóteses, o amor tem de se tornar sobrenatural. Entendido convenientemente, em certo sentido pode-se dizer que o marido e a mulher devem ser um para o outro como um “sacramento” de Cristo.
Tudo o que se encontra de amável, agradável e de belo em qualquer dos cônjuges não passa de um pálido reflexo do encanto, da beleza, da amabilidade daquele à imagem de quem foram fei­tas todas as coisas. Há um momento na vida de alguns que se sentem felizes em que a beleza de toda a criação se resume em uma só pessoa. O canto dos pássaros em uma tarde de verão, a beleza cristalina de uma noite de luar, a dança alegre da água que corre, todos e cada um destes encantos da natureza, que tor­nam tristes os poetas, só têm uma mensagem para o amante feliz, que sabe que todas as coisas existentes no mundo não passam de coisas com valor infinitamente inferior ao valor das pessoas, e que há só uma pessoa que resume para ele a glória de toda a criação. Todas estas coisas passarão, e a previsão da sua passa­gem entristecerá o seu coração se não souber que tudo isto, e até mesmo a sua pessoa, são apenas a expressão da beleza daquele que a fez e cujo amor afirmam e refletem. O marido e a mulher não são apenas símbolos de Cristo e da Sua Igreja, são também o Seu “sacramento”, e compartilham de forma misteriosa a rea­lidade que a sua união simboliza. (...)
Uma palavra final. Há uma coisa que deve ser feita no casa­mento a favor dos filhos e de cada um dos cônjuges que muitas vezes não se presta atenção. A vida espiritual de qualquer pes­soa é influenciada principalmente pela ideia que se tem de Deus. Ora, essa ideia forma-se sobretudo com o exemplo e padrão do amor e bondade dos pais, e, mais tarde, com o exemplo do amor e bondade dos cônjuges.
Não se pode, com segurança, estabelecer modelo inferior para o marido e mulher — para o pai e para a mãe — do que ser “outro Cristo”. É isto o que temos procurado defender em todo este livro, e é por isso que insistimos em aplicar todos os prin­cípios da vida espiritual e almejar que o casamento atinja os seus mais altos fins, porque em amar e em ser amado, Cristo é o nosso suplemento e sócio perfeito.
No casamento, como em tudo o mais, podemos reduzir a cinco os pontos essenciais da vida espiritual e da união com Cristo; fé, esperança, caridade, humildade e aceitação generosa da vontade de Deus. Desta forma, vestimo-nos de Cristo e Ele é “tudo em tudo”. E tanto é assim que o ideal do casamento cristão pode traduzir-se pelas palavras de Santo Agostinho; “E haverá um Cristo amando-Se a Si mesmo”.




[1] Encíclica sobre o matrimônio cristão.

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