quinta-feira, setembro 14, 2017

Por que ser batizado?

Por Eugene Boylan, “O corpo místico”, p. 57-66.

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Novas criaturas em Cristo

Nosso Senhor nos disse que viria para que os homens pudessem ter vida e a ter em abundância. Ele é o novo Adão. Foi por meio de sua Paixão e Morte, sobre o lenho da Cruz, em completa submissão à vontade do Pai, que destruiu os obstáculos criados pelo pecado e se fez para nós fonte de vida sobrenatural.
Esta Paixão e Morte que gera a vida é aplicada a nós por meio da Fé e dos Sacramentos. O Batismo é o sacramento que nos faz nascer para a vida sobrenatural, pois, como nosso Senhor mesmo disse, o homem deve “renascer da água e do Espírito Santo” para entrar no céu.
O Batismo nos incorpora ao Corpo de Cristo; por meio dele recebemos de Deus o perdão de nossos pecados e uma vida nova. Tornamos-nos o que São Paulo chamou “uma nova criatura”. Tornamos-nos participantes da Natureza Divina; nossas almas se elevam a um estado sobrenatural por meio da graça habitual; nossas faculdades se enriquecem por meio da infusão das virtudes da fé, esperança e caridade, com as virtudes morais e também com os dons do Espírito Santo, pois necessitamos destes dons para realizar as obras de nossa nova vida sobrenatural.

Pelo Batismo, como vimos, participamos de certo modo do Sacerdócio de Cristo; mas é tão radical a transformação que se produz em nós, que também nos tornamos, de certo modo, participantes da sua condição de Filho, pois nos tornamos verdadeiros filhos de Deus. Somos, é verdade, apenas filhos adotivos; mas, ao contrário da adoção legal que não altera a natureza humana, a adoção divina realiza uma real transformação em nossa natureza. Nossas almas se transformam em morada de Deus, um templo onde o Espírito Santo reside e atua como um novo princípio de vida para nós, fazendo-nos verdadeiros filhos de Deus.
Em um capítulo anterior, comparamos a morte de Nosso Senhor com a semeadura de uma semente, que se ramificava em todas as direções, apropriando-se das partículas do solo. O sistema sacramental poderia ser comparado à ramificação, e o Batismo à apropriação das partículas do solo pelas raízes. Em qualquer organismo vivo que transforma a natureza do alimento em seu próprio ser, a incorporação se completa quando o organismo processa completamente ou quando vivifica e domina a natureza do alimento transformado. No Corpo Místico de Cristo, o Espírito Santo corresponde a este organismo ou à alma, e, em verdade, Ele se dá a nós em cada um dos Sacramentos. A união com Cristo se completa quando seu espírito vivifica e domina completamente os membros. Este processo de vivificação e controle por meio do Espírito Santo tem início no Batismo.
Existe, contudo, uma grande diferença entre essa imagem e a realidade, e dessa diferença depende toda a natureza da vida espiritual. Quando um organismo vivo se apodera de uma partícula de alimento e a torna parte de si mesmo, esta partícula perde sua própria identidade. No caso do Corpo Místico, cada novo membro preserva sua própria personalidade e o domínio sobre suas ações. Mesmo incorporado a Cristo e vivificado pelo Espírito Santo, o cristão possui autonomia sobre cada uma de suas ações, tanto quando age por vontade própria quanto quando age com Cristo e com o Espírito Santo.
É neste sentido que se faz necessária a percepção do Corpo Místico como uma entidade quadridimensional, uma vez que a perfeita união com Cristo exige não somente a nossa incorporação a Ele, mas também a contínua entrega a Ele de todas as ações de nossa vida – a nossa “quarta dimensão”, ou seja: nosso corpo em três dimensões com todas as suas ações futuras na dimensão do tempo.
(...)
Todas essas maravilhosas riquezas nos são concedidas para que possamos viver de acordo com a nova natureza que nos é dada no Batismo. Já nos referimos à bondade de Deus ao elevar Adão ao estado sobrenatural. Nós somos elevados pelo Batismo a esse estado comumente conhecido como estado de graça santificante. Mas para falar das maravilhas da graça seria necessário um livro à parte. Não temos a intenção de estudá-la neste momento, e nos contentaremos com a afirmação de São Pedro de que, por meio da graça, nos tornamos participantes da natureza Divina e totalmente capazes de viver do Cristo Místico.
É tão profunda e real a mudança produzida por Ele em nossas almas que nos tornamos verdadeiros filhos de Deus, compartilhando com Cristo a sua condição de Filho, e até mesmo o seu sacerdócio. A magnificência deste nosso estado se torna ainda mais clara ao considerarmos que, a partir de então, nosso alimento deve ser o próprio Corpo e Sangue de Cristo. Mas nosso contato com Deus não está limitado à recepção dos Sacramentos, pois o Espírito Santo faz morada em nossas almas no momento do Batismo, como dom de Deus, e habita em nós como em um templo. Mas não se deve pensar que Ele permanece inativo ali. Como vimos, Ele deve ser o primeiro fundamento de todas nossas ações sobrenaturais. Ele derrama a graça em nossos corações, ilumina nossas mentes, fortalece nossa vontade e nos ajuda em nossas debilidades. Quase se poderia dizer – mas sem tomar a expressão ao pé da letra – que Ele é a alma da nossa alma. Está em nós e nós estamos nele.
E, assim como um pedaço de metal frio, ao ser colocado no fogo, logo se torna parte do ardente resplendor e passa a emitir calor, assim a presença do Espírito Santo acende em nós o seu fogo, pois Ele é o amor de Deus para com Deus, a chama viva do amor Divino, e nossos corações se acendem pela irradiação e pelo contato com seu ardor. Ele não somente está em nossas almas, mas também é verdadeiramente nosso. Ele é nossa vida, fortaleza e amor em tudo o que quisermos fazer por Deus. Mediante seus sete dons, tornamo-nos mais manejáveis e podemos cooperar com mais presteza nos movimentos que Ele inicia em nossas almas.
É certo que, onde quer que o Espírito Santo esteja presente, as outras duas pessoas da Santíssima Trindade também estarão presentes. Mas por razões especiais, certas ações são atribuídas a uma das pessoas individualmente. O Filho de Deus se encontra também em nossas almas, e permite que participemos de sua filiação e sacerdócio. Esta participação nos coloca imediatamente em uma relação especial com o Pai, e podemos dizer-Lhe em nosso próprio nome, além do de Cristo: “Eis o teu Filho amado, em quem te comprazes: escutai-o”. E tudo o que pedirmos ao Pai em nome de Jesus Cristo nos será concedido.
(...) Esta permanência Divina em nossas almas poderia ser o tema de um livro inteiro. A ação de Deus em nossas almas é tão diversificada, que a simples enumeração de suas funções seria demasiada longa. Ele está presente nela como nosso Senhor soberano e Mestre, como nosso Divino Amado e Amigo. Ele é o nosso Pai e Espírito, Vida e Luz para nós.
Ele é nosso Aliado e nosso companheiro, nossa Ajuda, é nosso Santificador e Salvador. A lista é interminável. Cada um desses títulos isolados poderia ser o ponto de partida de um plano de vida espiritual, e cada um deles, por si só, lança uma nova luz sobre a bondade de Deus e seu interesse por nós, assim como sobre a intimidade e realidade da nossa união com Cristo. Pelo batismo, portanto, Deus está em nós e nós estamos em Deus, e somos feitos à semelhança de Deus.


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