quinta-feira, setembro 21, 2017

O que é a Igreja?

Por Maurice Meschler, “O dom do pentecostes”, p. 85-94.

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O Espírito Santo manifesta-se de modo claro na criação do universo e no Antigo Testamento. Não obstante, isso não é mais que o prelúdio, a preparação, um simples esboço do que devia fazer na Igreja do Novo Testamento. A Igreja dos nossos dias é a obra do Espírito Santo. Examinemo-la cuidadosamente e vejamos o que ela é, e quais as relações que com ela tem o Espírito Santo.

O que é a Santa Igreja Católica?

É uma sociedade viva, a reunião dos homens que, sob a direção do Vigário de Jesus Cristo, do Papa residente em Roma, se propõe alcançar a salvação pela mesma fé, pela observância dos mesmos preceitos, e pela recepção dos mesmos Sacramentos.

O fim desta sociedade é conseguir a salvação eterna, empregando os meios estabelecidos por Jesus Cristo. Para alcançar este fim, a Igreja deve possuir as propriedades e dispor dos meios que estão em harmonia com Ele. Entre estas propriedades ou atributos, ocupa o primeiro lugar a de ser única. Não pode haver mais que uma Igreja verdadeira, porque Jesus Cristo não fundou muitas mas uma só; doutra sorte os homens encontrariam a mesma salvação na verdade como na mentira. Deus é uno, e, do mesmo modo, a Igreja é necessariamente uma só.

A segunda propriedade da Igreja é a visibilidade. Jesus Cristo, o Homem Deus, fundou a Igreja para os homens, dotando-a de leis e instituições em relação com a vida visível. Uma Igreja invisível suporia uma sociedade de puros espíritos.
A terceira propriedade é que há de permanecer imutável até o fim dos tempos. A Igreja é o único caminho que nos conduz a Deus; há de, por conseguinte, subsistir sempre e permanecer sempre a mesma.


Quais são as características da Igreja?

As propriedades da Igreja devem manifestar-se nela por sinais exteriores, que lhe sejam essenciais e a caracterizem de tal modo, que se distinga sem dificuldade alguma e com certeza de outra qualquer Igreja.

Estes caracteres são:

1) a unidade, representada por um único chefe visível, o Papa, cuja autoridade doutrinal, pastoral, e sacerdotal, produz e conserva a unidade interior na fé, nos preceitos e nos Sacramentos: não se chama verdadeira Igreja, senão a que possui um chefe visível;
2) sua catolicidade, que, sem tirar à Igreja nada de sua unidade, deve dar-lhe uma extensão visível e assegurar a sua propagação no mundo, de modo que todos a possam ver e contemplar, como se vê uma cidade edificada sobre o cume de um monte;
3) a santidade que deve revelar-se constantemente na Igreja verdadeira pelos milagres e graças, que são a característica que Jesus concedeu à verdadeira fé e santidade (Mc 16,17); a Igreja é santa se produz Santos em todos os tempos, se Deus dá testemunho de sua santidade por meio de milagres;
4) a apostolicidade, isto é, a identidade da Igreja atual com a dos Apóstolos, com a mesma constituição e autoridade, transmitida de um Pontífice a outro.

O sinal exterior, a prova desta herança da autoridade apostólica, é o que se chama a sucessão apostólica; a transmissão da autoridade pastoral pela imposição das mãos e a sucessão que permite ir subindo de Pontífice a Pontífice até S. Pedro. A Igreja que pode reivindicar para si este caráter e esta união com os Apóstolos é a verdadeira Igreja, a Igreja apostólica, porque, à semelhança da Igreja dos tempos apostólicos, está fundada e estabelecida sobre os Apóstolos e sobre Pedro; e porque possui a mesma organização e forma com ela uma só e única Igreja.

Os atributos que vimos de enumerar são próprios da mesma essência da Igreja. Mas para conseguir seu fim, que é a santificação dos homens, deve ter também uma força e autoridade estabelecidas e exercidas por Jesus Cristo; a autoridade doutrinal, pastoral, e sacerdotal, com pleno poder de se servir dela para a salvação dos homens. Tudo isto está compreendido no magistério, no sacerdócio e nas funções pastorais da Igreja, de que adiante falaremos mais particularmente. Estes meios, postos à disposição da Igreja, têm seu complemento nos dons gratuitos, nas graças que imprime na sua fronte gloriosa o selo visível do poder e da Majestade divina, para a dar a conhecer no mundo inteiro como única e verdadeira Esposa de Jesus Cristo.

Tal é a Igreja, a Igreja Santa, a Igreja Católica; tal é a sua natureza, sua organização, e a sua missão. Constituída deste modo, com os meios necessários para a consecução do fim, é a verdadeira pátria das almas, a salvação do mundo, a representante de Deus e nossa medianeira para com Ele na obra do Salvador, o Corpo Místico do mesmo Jesus Cristo, que continua vivendo e aperfeiçoando sua obra, não somente por a haver fundado, mas por ser seu Chefe invisível e lhe comunicar sem cessar seu poder e sua virtude para bem de nossas almas. A Igreja não tem outra missão que a de Jesus Cristo, nos dias de sua vida mortal; é o instrumento vivo da ação de Jesus Cristo. É assim que deve ser considerada. Não devemos contentar-nos em conservar para com ela os sentimentos de filho para com a mãe; mas ver nela ao mesmo tempo Jesus Cristo. Depois dele, ela é tudo para nós.

Qual a relação do Espírito Santo com a Igreja?

Examinemos agora as relações íntimas e essenciais que unem o Espírito Santo com a Igreja. Estas relações são três. Primeiro: O Espírito Santo pertence realmente à Igreja, pois que o Salvador o afirma em termos claros: “O Pai dar-vos-á outro Consolador... Ele permanecerá e estará convosco.” (Jo 14,16-17). “Se não me for não vos virá o Consolador; porém se for, enviar-vo-lo-ei.” (Jo 16, 7; cf. 16, 13 s).

O Espírito Santo é também chamado a promessa do Pai e esta promessa tem seu cabal cumprimento no dia do Pentecostes, ao ser enviado sobre os Apóstolos. Ele pertence, pois, à Igreja pela vontade de Jesus Cristo, e sem Ele ficaria imperfeita, como o afirma o Evangelho: “Não nos foi dado ainda o Espírito Santo, porque Jesus Cristo ainda não foi glorificado.” (Jo 7, 39). Esta é a doutrina dos Padres. S. Ireneu escreve: “Onde está a Igreja, está o Espírito de Deus, e onde está o Espírito de Deus, aí está também a Igreja”; noutro lugar, chama ao Espírito Santo “o dote da Igreja” [1], “o dote, o sopro vital da Igreja, a união com Jesus Cristo”.
Por sua parte, S. Agostinho dá à Igreja o nome de cidade e casa do Espírito Santo.[2] Estes Santos Padres expõem argumentos irrefutáveis em favor de sua doutrina. Um daqueles a que recorrem frequentemente é que a Igreja é o Corpo de Jesus Cristo[3], e assim como o nosso corpo para viver necessita da alma, do mesmo modo o Corpo Místico de Jesus para viver necessita do Espírito Santo.[4] O Esposo e a Esposa não são senão um numa só carne; igualmente Jesus Cristo e a sua Igreja não são mais que um só espírito, que é o Espírito Santo. Se a Igreja é a Esposa e o Corpo Místico de Jesus, deve também possuir ao Espírito Santo, pois que sem Ele de nenhum modo seria a Igreja de Jesus Cristo.
Segundo: O Espírito Santo pertence à Igreja, não como mero adorno inútil, mas como fazendo parte da essência mesma da Igreja, de maneira que sem Ele não poderia obrar nem existir, tal como ela deve ser. É ao Espírito Santo que ela deve tudo o que é e particularmente as propriedades que possui. É por Ele que é a única Igreja verdadeira. Só ela recebeu o Espírito Santo, e a alma não anima mais que um corpo e os membros unidos com esse corpo. “Um só corpo, um só espírito”, diz o Apóstolo. O Pai e o Filho são um no Espírito Santo; igualmente a Igreja é una em o mesmo Espírito. Além disso, como é que a Igreja se toma visível, em seu magistério, sacerdócio e ministério, senão pela ação e pela direção do Espírito Santo? Esta direção é tão manifestamente divina e esta ação tão evidentemente sobrenatural, que são uma prova irrefragável e visível da presença do Espírito Santo na Igreja.

Quem conserva a Igreja sempre a mesma, interior e exteriormente, senão o Espírito Santo? Assim como a santa Humanidade de Jesus, por sua união hipostática com a segunda Pessoa da SS. Trindade, participa de todas as prerrogativas da Divindade, do mesmo modo a Igreja é imutável, na santidade e na verdade, porque está indissoluvelmente unida ao Espírito Santo que é a Verdade, a Santidade e o Amor imutáveis.

O que há de verdade nas propriedades da Igreja é igualmente verdadeiro, quando se trata de seus caracteres visíveis. O distintivo visível da unidade é a existência de um só chefe visível, que dá unidade espiritual a todos os membros do Corpo da Igreja. Pois bem, o princípio desta unidade é o Espírito Santo que, unindo o Chefe invisível, Jesus Cristo, com o Papa, Chefe visível, e depois a este com todos os membros, e aos membros entre si e com o Chefe, forma um único todo espiritual.

Daqui se deduz que a unidade do Espírito Santo é o princípio da unidade da Igreja. A catolicidade é a unidade na multiplicidade e na extensão; por conseguinte o Espírito Santo, princípio da unidade, é também princípio da unidade da Igreja e de sua propagação. É quem dá ao Corpo Místico da Igreja sua vida, perfeição, desenvolvimento. A Santidade, esse distintivo próprio e exclusivo da verdadeira Igreja, manifesta-se pelos milagres, com os quais Deus não cessa de testemunhar a santidade dos membros da Igreja. A apostolicidade funda-se na transmissão do poder que se faz pela consagração e na sucessão dos Bispos uns aos outros, até chegar aos Apóstolos; e como quer que a imposição das mãos e os milagres sejam operações atribuídas ao Espírito Santo, segue-se que todas as propriedades da Igreja e todas as condições de sua existência têm o seu princípio no Espírito Santo.

O que dizer, agora da aplicação e uso destas propriedades e energias da Igreja para a salvação do mundo?

Os Padres que acima citamos chamam ao Espírito Santo a alma da Igreja, o sopro vital que a anima, conserva e guia; e em verdade nada há mais exato.

Quando a Igreja começou a viver e a operar?

No dia de Pentecostes. Já antes daquele dia, a Igreja estava constituída e organizada em suas partes essenciais; e provida de todos os poderes necessários; a doutrina tinha sido publicada; os Apóstolos, eleitos; instituídos os Sacramentos, estabelecida a hierarquia; e sem embargo a Igreja não dava sinais de vida, nem saía de sua inatividade, as forças divinas com que estava dotada dormiam, por assim dizer, e sua missão divina estava suspensa; não se pregava, nem se batizava, nem se perdoavam pecados, não se oferecia o Santo Sacrifício; judeus e pagãos esperavam impacientes que se abrissem as portas da Igreja e as portas permaneciam fechadas; a Igreja estava mergulhada em profundo sono, como Adão antes de lhe ser comunicado o sopro de vida; assemelhava-se a uma gigantesca e poderosa máquina já completa, mas a qual a mão do mecânico ainda não pôs em movimento; ou a um navio disposto a sulcar as ondas do mar ao primeiro sinal.

Assim permaneceu a Igreja até a hora nona do dia do Pentecostes, em que o Espírito Santo desceu sobre ela, com o ruído de um vento violento, sob a forma de línguas de fogo. Então tudo muda de repente, tudo se anima, todas as forças entram em atividade. Os Apóstolos saem do Cenáculo, falam em diversas línguas, obram milagres, pregam em público e diante dos tribunais, percorrem toda a terra. As multidões convertem-se à Igreja; derrama-se a água batismal; e sobre o altar se oferece o Sacrifício que renova sem cessar a imolação do Filho de Deus e concede à Igreja o gozar da presença contínua de Jesus Cristo.

É no Pentecostes que lhe começa a vida maravilhosa; é o Espírito Santo quem lhe dá o princípio e a conserva. Se em dias funestos perde algo do seu vigor, se a lâmpada do santuário se obscurece e as sentinelas da Igreja adormecem, o Espírito Santo incumbe-se de suscitar heróis que converte em instrumentos seus, de despertar da letargia os que dormem para purificar o seu santuário e varrer dele o pó do mundo; ou senão de chamar a tempestade para que sacuda o edifício que ameaça ruína, abra brecha nas muralhas, e então os obreiros negligentes recobrem as energias perdidas, reparem os danos e defendam a casa de Deus.

(...)

Esta união do Espírito Santo com a Igreja não depende da vontade, nem da cooperação dos homens, como depende a sua missão com as almas em particular. Enquanto a Igreja for o Corpo Místico de Jesus Cristo, enquanto durar a união de Jesus Cristo com o Espírito Santo, há de permanecer na Igreja. Esta união é realidade divina, fato consumado. Assim como em Jesus Cristo a natureza divina e a natureza humana formam uma só pessoa pela união com o Verbo, sem que esta união jamais possa cessar, assim Jesus Cristo está unido para sempre com seu Corpo Místico no Espírito Santo.

(..)

Tal o mistério da Igreja realizado pela vinda do Espírito Santo pela sua presença e por suas operações. A Escritura diz-nos, falando do Cenáculo do Monte Sião, que o Espírito Santo baixou sobre Ele e se colocou sobre cada um dos Apóstolos (At 2, 2-3). O mesmo se pode dizer da Igreja. O Espírito Santo desce sobre toda a Igreja, edifica-a, enche-a de vida e atividade, guia-a e governa-a no sentido mais verdadeiro do vocábulo. A Igreja é a sua obra, o edifício que Ele construiu; basta tocar-lhe para que brote dela o fogo, o resplendor, a vida, a majestade do Espírito Santo. Quando se leem os Atos dos Apóstolos, que não são mais que a primeira página da história da Igreja, encontra-se neles a cada passo o nome do Espírito Santo e se vê que tudo se atribuía a Ele. Os quatro Evangelhos são a história do Salvador, e poderia dizer-se que os Atos dos Apóstolos são o Evangelho do Espírito Santo.






[1] Advers haeres, 1. 3, c. 24.
[2] Em De fide, spe et charitate, c. 56.
[3] Enarr. in Ps. XVIII, n. 10; Ser. 341, c. 10.
[4] S. Agost., Serm, 268, c. 2.

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