quinta-feira, setembro 28, 2017

O lar onde floresceu Teresinha de Jesus

Por P. Stéphane Joseph Piat, “História de uma família” (em breve no Cultor de Livros).

 
Um lar destes impõe-se ao respeito. Mas irradia ele alegria? Não se sentirá nele o ar pesado exalado pelas tapeçarias e pelos móveis estofados em um ambiente abafado? Não se sentirá nele a atmosfera soporífera e incolor de sacristia ou de algum museu de antiqualhas ou de sala de jantar de algum presbitério de antanho? “Farrapos velhos, papéis velhos” — cochicham os marotos.

Entremos no número 36 da Rua de S. Brás. As cantigas e os gritos vindos de todos os lados, os rostos abertos e o movimento constante desfazem todas as apreensões sobre a sobriedade da casa. A alegria reina por toda a parte. Não era o estonteamento, a corrida às distrações fictícias, a evasão, a todo o custo, para fora de casa. O mundo não fora ainda lançado como pasto aos negociantes de prazeres, que se dedicam à exploração comercial dos mais baixos instintos e degradam o homem com o pretexto de diverti-lo: suprema corrupção do “divertimento” de Pascal. O problema dos passatempos tem solução na família. Eles ocupam o seu lugar, não de forma demasiada, mas proporcionado à necessidade de refazer as forças após os períodos de trabalho. Entrava neles espontaneamente o elemento educativo. Têm graça, descansam e tonificam as almas; aproximam-nas e fundem-nas. Era a recreação no sentido etimológico do termo, em que toda a personalidade toma novo alento e como que se completa.

(...)

***

A chave do enigma estava em se amarem cristãmente. A caridade era a alma do Lar. Não há dúvida nenhuma, este Lar não dá matéria para as peripécias tempestuosas de um drama passional. Esta clara limpidez de fonte será motivo de decepção para os céticos, gulosos de romances eróticos. Fará encolher os ombros aos que já não acreditam no amor, de tanto que o viram profanado. São conhecidas as setas aceradas com que a piada gaulesa alvejou o casamento: “Não é um duo, mas um duelo”; “Estudam-se três semanas: amam-se três meses; discutem três anos; suportam-se trinta anos... e os filhos recomeçam a mesma história”. A coleção é abundante e as observações nem sempre são destituídas de realismo. Sinais de uma época decadente. As pessoas sérias que querem que a sua pátria viva, em vez de rirem destas coisas sagradas irão receber lições ao lar da Rua de S. Brás.


Estes cristãos autênticos, que começaram por privar-se das relações conjugais, lembram o frescor de ternura que unia entre si a Rainha Margarida com o Rei Cavaleiro, Luís de Poissy. Entre os dois consortes havia um laço substancial. Jesus Cristo. As mãos deles não se estreitavam senão unidas às suas. Sabiam que o sacramento do matrimônio é um sacramento de vivos de que eles mesmos eram os ministros, um sacramento permanente que lhes vivificaria com a sua graça todo o decurso da existência. A comunidade assim fundada, encontra-se espiritualizada na sua essência. Assume uma modalidade quase sacerdotal. A santidade, longe de esterilizar o amor, cria-o constantemente, produz uma obra-prima de compreensão mútua, de dedicação desinteressada, de dom total no esquecimento próprio. A vida em comum de ambos não era a exploração egoísta do matrimônio, coisa que lhes causava horror instintivo, nem uma evasão mística para fora do matrimônio, tentação sutil a que iam cedendo, mas sim uma ascensão coletiva no matrimônio e pelo matrimônio. E assim realizaram plenamente o plano do Criador.

O amor que estes cristãos dedicavam um ao outro não era sutilizado, sublimado, refinado, a ponto de parecer desencarnado. O seu amor aliava arroubos de noivos a todas as delicadezas da caridade, às sobrenaturais confidências da amizade. A esposa admirava o esposo. Depois de quatro anos de vida comum, escrevia ela referindo-se a ele:

“Continuo a ser muito feliz com ele; torna-me a vida muito agradável. O meu marido é um santo, e que todas as mulheres tenham um como ele são os votos que faço neste ano novo.”

As suas ausências forçadas faziam-na sofrer e consolava-se pondo os negócios em ordem e contando-lhe por miúdo os assuntos domésticos. Ao pensar no regresso dele, ficava tão contente que confessava nem poder trabalhar. Quando ele não a acompanhava até as viagens a Lisieux, perdiam parte do seu encanto, como prova esta carta de 31 de agosto de 1873, que reproduzimos por extenso como fiel testemunho da grande união de almas:

“Meu querido Luís,
Chegamos ontem, às quatro e meia da tarde; o meu irmão, que estava na estação à nossa espera, ficou radiante quando nos viu. Esforçou-se, juntamente com a esposa, para nos arranjar distrações.

Hoje, domingo, há uma bela recepção aqui em casa, à noite, em nossa honra. Amanhã, segunda-feira, grande banquete em casa da Senhora Maudelonde e, possivelmente, um passeio de carro à casa de campo da Senhora Fournet. As pequenas andam encantadas; se o tempo estivesse bom, seria para elas o cúmulo da felicidade.

Mas eu sou mais custosa de desarmar. Nada disto me interessa. Ando exatamente como os peixes que tu tiras para fora da água; já não estão no seu elemento, não lhes resta senão morrer! Creio que era o que me aconteceria se a minha permanência aqui houvesse de se prolongar. Não me sinto à vontade, não estou nos meus hábitos, o que me influi no físico e me faz andar quase doente. Contudo faço por ser razoável e procuro dominar-me. Acompanho-te em espírito a toda a hora. Digo para comigo: “Neste momento está fazendo isto ou aquilo”.

Quanto me tarda ver-me junto de ti, meu querido Luís! Amo-te de todo o meu coração e sinto que o meu afeto redobra com a privação da tua presença que tanto sinto; ser-me-ia impossível viver separada de ti.

Esta manhã assisti a três missas; fui à das seis, fiz a ação de graças e rezei as minhas orações durante a das sete horas e voltei à missa cantada. O meu irmão não está descontente com os negócios, que não vão mal.

Diz à Leônia e à Celina que lhes mando muitos beijos saudosos e que levarei uma lembrança de Lisieux.

Verei se é possível escrever-te amanhã, mas não sei a que horas viremos de Tronville. Escrevo a toda a pressa porque estão à minha espera para ir fazer visitas. Regressamos na quarta-feira à tarde, às sete e meia. Como me parece distante!

Beijo-te com muito amor. As filhinhas recomendam-me que te diga que estão muito contentes por terem vindo a Lisieux, e que te mandam muitos beijos.”

Mais sóbrio, porque não gostava muito de escrever, o Senhor Martin dava mostras da mesma ternura. Citemos este bilhete seu de 8 de outubro de 1863:

“Minha querida Amiga,

Só poderei chegar a Alençon na segunda-feira; o tempo parece-me bem comprido e tarda-me chegar junto de ti.

É inútil dizer-te que a tua carta me causou grande prazer, menos o ver que te cansas demais. Portanto, recomendo-te muita calma e moderação, principalmente no trabalho. Tenho algumas encomendas da Companhia Lionesa; mais uma vez te recomendo que não te aflijas tanto, que chegaremos a fazer uma boa casinha, se Deus quiser.

Esta manhã tive a felicidade de comungar em Nossa Senhora das Vitórias, que é como um pequenino paraíso terrestre. E mandei acender uma vela por intenção de toda a família.
Enquanto não tenho a felicidade de estar junto de vós, beijo-vos a todos de todo o coração. Espero que Maria e Paulina tenham muito juízo.

Teu marido e verdadeiro amigo que te ama sempre.”

Um amor destes não sabia o que eram inquietações e suscetibilidades. Não era desconfiado nem ciumento. Era uma força tranquila feita de confiança e de certeza. O marido deixava à mulher o ministério do interior, quer dizer, liberdade total no governo da casa e na direção das coisas domésticas. O seu incontestável senso prático não era orientado para esse lado. Entregue a si próprio, indiferente ao conforto, nem se preocuparia consigo e viveria de um pouco de pão e de carnes frias. A esposa provia a tudo amorosamente. Nunca houve entre eles a menor nuvem, tão perfeita era a unidade de vistas.

(...)

As filhas, por seu lado, sentiam-se envolvidas em uma terna e firme afeição, acompanhada de verdadeiro respeito. A morte dos seus quatro anjinhos tinha firmado bem fundo, no coração dos pais, a convicção de que eram apenas os mandatários da autoridade de Deus, e que só a Ele pertenciam os supremos direitos de autor. O seu amor purificado no cadinho do sofrimento, marcado com o sinal da cruz, tinha-se libertado de todo o interesse pessoal: não aspirava senão a servir.

(...)

Era mais que piedade filial: era um verdadeiro culto. Desejosas de mostrar a mesma ternura ao pai e à mãe, Maria e Paulina, quando eram pequenas, uniam ingenuamente os dois nomes nas suas orações. Rezavam assim: “Senhor, protegei o papai-mamãe” ou invertendo a ordem: “Vinde em auxílio da mamãe-papai”. E assim estava perfeitamente salva a igualdade de tratamento.

(...)

Cristo era o rei do Lar. Não havia ainda entronização oficial. O Padre Mateo Crawley ainda não tinha pregado essa cruzada. Mas era já o espírito dela: Nazaré e Betânia revivendo naquela casa onde o divino Coração firmava a união das almas, inspirava todos os atos. Deus não poderia preparar terreno mais propício para o desabrochar de uma santa. Foi por ter saboreado a doçura deste ambiente familiar que Teresa pôde cantar mais tarde:

Oh! Como é doce relembrar os tempos
Da minha infância e juventude em flor!
Deus, da inocência com que mil carinhos
Me guardou sempre os cândidos arminhos,
Oh! Com que amor!


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