quinta-feira, agosto 10, 2017

Pai: três conselhos para tornar a vida amável

Trechos da obra de Francisco Faus, “Tornar a vida amável”

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1.           Corrigir com amor
Um dos aspectos mais nobres da compreensão é saber corrigir. Corrigir os erros dos outros – com amor e ânimo de ajudar – é uma das melhores maneiras de compreendê-los.”[1]

“Quem é que não consegue corrigir e ajudar com amor? O egoísta indiferente, aquele que diz: “Isso é lá com ele, eu não me meto, que faça o que quiser... Se quer se afundar, que se afunde”. E, quando o outro se afunda mesmo, tranquiliza-se pensando: “Foi ele que quis, eu não tenho a culpa”.
Também não ama o bastante (e, por isso, não corrige) o mole de sentimentos, que acha que é bom com os outros só porque passa por cima de tudo e tudo tolera. Nunca adverte nem corrige por medo de magoar e perder a estima. A esse sentimental covarde, o Espírito Santo diz no livro dos Provérbios: Melhor é a correção manifesta do que uma amizade fingida (Pr 27,5).
Pior ainda que o tolerante mole é o psicólogo de araque que acha que corrigir é “traumatizar” ou tirar a “liberdade” (Meu Deus! Quando deixaremos de ouvir essas patacoadas?).
Como é evidente, também não está em condições de corrigir cristãmente aquele que se irrita com os defeitos da pessoa, dá bronca na hora e diz que está “cansado de aguentá-la”. O que esse tal deve fazer é acalmar-se, ser humilde, calar e rezar pedindo a Deus o amor que não tem. E, se a irritação virou raiva ou ódio, ir logo confessar-se da sua séria falta de caridade. Para corrigir fazendo o bem é preciso ter afeto pela pessoa, saber desculpá-la no íntimo de nós, e sentir pena quando vemos nela alguma coisa errada, porque pode lhe causar um mal. Justamente quem quer o bem do próximo deseja dar-lhe a mão que ajuda. (...)

Pense que é especialmente falho o pai, a mãe, o superior, o educador que, para evitar passar um mau bocado, omite as correções devidas e deixa correr à deriva a vida dos que deveria orientar. Falando desses comodistas, São Josemaria comentava: «Talvez poupem desgostos nesta vida... mas põem em risco a felicidade eterna – a própria e a dos outros – pelas suas omissões, que são verdadeiros pecados» (Forja, n. 577).
Segundo São João Bosco, o grande educador que, com a graça divina, soube tirar santidade do barro, aconselhava assim a seus discípulos, com palavras aplicáveis sobretudo à correção das crianças: «Quantas vezes, meus filhinhos, no longo curso da minha vida, tive que me persuadir desta grande verdade: é mais fácil encolerizar-se do que aguentar; ameaçar a criança do que persuadi-la; direi mesmo, mais cômodo para nossa impaciência e soberba impor castigos aos obstinados do que corrigi-los, tolerando-os com firmeza e suavidade [...]
»É muito difícil, ao punir, manter o domínio sobre si, mas tão necessário para que não surja a dúvida de agirmos por autoritarismo ou exaltado nervosismo [...]
»Não haja agitação na mente, nem desprezo no olhar, nem injúria na boca, mas misericórdia no momento presente, esperança do futuro, como convém a pais que de verdade se empenham em corrigir e emendar. É melhor nas situações gravíssimas rogar, súplice e humildemente a Deus, do que fazer correr um rio de palavras que ofendem os ouvintes, sem nenhum proveito para os culpados.» (Epistolário, IV, 201-203).”[2]


2.           Ser paciente

“Você já pediu a Deus mais paciência? Pediu-lhe para compreender mais os outros, o que é um passo prévio para chegar à paciência? Pediu a graça de vencer as suas reações de impaciência: as palavras ásperas, os gestos de desaprovação, as recriminações, os gestos de irritação ou de fastio?
Já escolheu alguma jaculatória que possa repetir com fé durante o dia, como: ‘Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso’, ou ‘Rainha da paz, rogai por nós’?

Sintetizando conselhos dados em outra publicação, vou sugerir algumas [atitudes de paciência]:
– Fazer o esforço de escutar pacientemente a todos, sem deixar que se apague o sorriso dos lábios;
– Não andar comentando a toda a hora as nossas gripes, as nossas dores de cabeça ou de fígado nem, em geral, qualquer outro tipo de mal-estar pessoal; evitar também queixar-nos do calor ou do frio, do abafamento do local, do tempo que levamos sem comer nada...;
– Renunciar a utilizar expressões humilhantes, como “Você sempre faz isso!”, “De novo”, “Já é a terceira vez!”, “Já estou cansado”, etc.;
– Evitar cobranças insistentes e antipáticas, e prontificar-nos a ajudar os outros quando eles, honestamente, não conseguem fazer as coisas no prazo certo;
– Não implicar com pequenos maus hábitos ou cacoetes dos outros, mas deixá-los passar como quem nem repara neles: mania de bater na cadeira ou de tamborilar com os dedos na mesa, tendência para ler por cima do ombro o jornal que nós estamos lendo, de fazer ruído com a boca, de cantarolar enquanto se lê ou se trabalha...;
– Saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entende; ter especialmente a paciência, partindo do bê-á-bá, para esclarecer o funcionamento de aparelhos eletrônicos àqueles que não têm facilidade de manejá-los;
– Não buzinar irritadamente quando alguém reduz sem avisar a marcha do veículo, nos ultrapassa quase raspando, vira ou estaciona sem dar sinal, etc. É boa mortificação não olhar para a cara do “agressor”, pois assim é mais difícil perder a paciência. Melhor se, passada a primeira reação, invocamos seu Anjo da Guarda e rezamos uma Ave-Maria por ele.”[3]

3.           Dar o bom exemplo

Você sabe o que é a chuva-criadeira? Se morasse na roça saberia que é a chuva que os lavradores mais agradecem. É aquela chuva fina e continuada, que penetra na terra, e é a ideal para a germinação das sementes, o crescimento das plantas e a futura colheita.
Bem diferentes são as chuvas torrenciais, o granizo, as enxurradas e as inundações que assolam o campo e acabam com a plantação.
Na vida das famílias e, em geral, das diferentes comunidades humanas, existe também uma chuva fina, ‘criadeira’, que faz o bem penetrar suavemente nos corações e produz os melhores frutos: o bom exemplo.”[4]

Podemos dar o bom exemplo, buscando:
Ser uma pessoa simpática, aberta e feliz, que, no entanto, diz tranquilamente “não” ao que muitos julgam imprescindível para viver: “não” ao consumismo, à vaidade social, ao lucro a qualquer preço, ao status, ao sexo voraz, à liberdade sem limites escravizada pelo prazer...
Ser uma pessoa alegre, que é mais feliz quanto mais se dá aos outros, com um amor desprendido que não busca compensações.
Ser um coração que expulsa a mesquinhez, que mostra às claras que não admite as paixões baixas do calculismo, da inveja, da suscetibilidade, do ressentimento e da vingança.
Ser uma pessoa que, com paz de espírito, sabe aceitar os seus erros, retifica-os de boa vontade e agradece as correções que recebe.
Ser um cristão sem beatices, que só pelo exemplo de vida atrai para Deus, desperta o “interesse” pela fé e faz nascer a sede de a conhecer mais e de orar mais.
Ser alguém a quem se possam aplicar as palavras de um apologista cristão anônimo do século segundo: «Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes [...]. Vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham contudo um modo de vida único e admirável [...]. Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo» (Carta a Diogneto, nn. 5 e 6).
Ser alguém que, com seu exemplo, nos impele a olhar “para cima” e também “mais longe”, para além dos nossos esquemas mentais e opções rotineiras. Alguém que seja como um estandarte que nos incita a caminhar atrás dele com entusiasmo e nos faz descobrir estradas novas – mais altas e puras que as comuns do mundo –, estradas que lá no fundo da alma nós já desejávamos trilhar para curar o coração cansado de sábias espertezas, de vazios decepcionantes e de prudentes mediocridades.
Enfim, o cristão autêntico – pai, mãe, colega, amigo –, faz-nos descobrir com naturalidade o verdadeiro Norte da vida – Cristo! – e para ele nos atrai.
Desse cristão, idealista e alegre, irradia sem palavras um apelo que nos sugere: vale a pena viver assim e é possível viver assim; se o fizermos, alcançaremos a plenitude de paz e felicidade com que sempre sonhamos e que ainda não conquistamos.”[5]




[1] Pág. 11.
[2] Pág. 14-18.
[3] Pág. 74-75.
[4] Pág. 91.
[5] Pág. 98-100.

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